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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc076978
Banca
FCC
Órgão
MPE-SE
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Analista do Ministério Público - Ciências Contábeis

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.


A não-festa dos meus oito anos



    -Quer dizer que não vai ter meu aniversário?

    Não me lembro de ter feito a pergunta. Fiz o que pude para abafar essa lembrança -e quando muitos anos mais tarde me contaram o caso, como quem conta um episódio inocente, quis nada menos que morrer também. Eu já era um adolescente quando essa história me foi lembrada - a mim, que a havia sepultado no fundo do meu inconsciente.

    Eu já ia fazer oito anos, mas minha mãe, recostada na cabeceira da cama, estava cercada de tias, primas, sobrinhas, amigas, e mamãe repetindo que Papai do Céu tinha levado nossa irmă. Foi então que perguntei se não ia ter meu aniversário. Ouvindo essa história, adolescente, me senti um monstro. Vergado sob a culpa tardia e envergonhado do papelão de ter pensado em bolo, salgadinhos e presentes numa hora daquelas, nossa mãe sofrendo, papelão ainda mais horrendo quando comparado ao papel bonito dos meus irmãos. O mais velho, olhos cheios de lagrimas, correu ao quarto da irmă, abriu o armário e acariciou os vestidinhos pendurados. O outro irmão compôs uma pulseirinha delicada com pequenos grampos de cabelo. Eu não pensei em nada, pois aquela morte havia destroçado o meu aniversário.

    Diante da minha frustração, devem ter dito: vamos dar alguma coisa pra esse menino, coitado -e então fomos para o centro da cidade, tia Nathalia e eu, comprar na loja alguma coisa para mim, qual coisa? -e a coisa resultou ser uma sanfoninha que quase seis décadas depois ainda está aqui, ali no alto dessa estante na minha casa de homem velho, capaz ainda de produzir música, intocada, mas tocável.

    Só não garanto que o dono dê conta de extrair dali o "Parabéns pra vocé", o parabéns-para-mim que o menino de oito anos tirou sozinho, sentado na escada de uma casa onde os pais chorosos cuidavam do granito preto para o túmulo da menina que partira. A cada vez que me entrego a tais rememorações, é dificil para mim metabolizar a verdade rude dos sentimentos daquele menino que não se conformou ao ver sabotada a festa de seus oito anos. 



(Adaptado de: WERNECK, Humberto. Esse inferno vai acabar. Porto Alegre, Arquipélago, 2011, p. 65-66) 

Ao se referir à sanfoninha no alto dessa estante na minha casa, o autor revela que
  1. Ao presente de seu aniversário de oito anos foi preservado para inocentá-lo da culpa que sentiu quando menino.
  2. Bmanteve disponível seu instrumento musical para lembrá-lo da insensibilidade que mostrou naquela data de aniversário.
  3. Ca passagem do tempo fez do seu antigo presente uma prova de reabilitação de seus melhores sentimentos.
  4. Do fato de não mais tocar o instrumento fez com que se esquecesse da circunstância em que o ganhou.
  5. Ehouve uma depreciação máxima do presente que lhe deram sem merecimento seu para ganhá-lo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — manteve disponível seu instrumento musical para lembrá-lo da insensibilidade que mostrou naquela data de aniversário.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A sanfoninha e a memória da insensibilidade

Gabarito: letra B. O autor, ao descrever a sanfoninha “intocada, mas tocável” e ao associá-la ao “Parabéns pra vocé” que o menino tocou sozinho, revela que mantém o instrumento como lembrança viva da sua atitude naquele aniversário. A passagem em que ele se sente “um monstro” (2º parágrafo) e a dificuldade em “metabolizar a verdade rude dos sentimentos” (último parágrafo) confirmam que a sanfoninha o remete à insensibilidade que demonstrou.

“capaz ainda de produzir música, intocada, mas tocável. Só não garanto que o dono dê conta de extrair dali o ‘Parabéns pra vocé’, o parabéns-para-mim que o menino de oito anos tirou sozinho”

A alternativa B é a única que capta essa função memorial e o caráter de autorreprovação implícito no texto.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não afirma que a sanfoninha foi preservada para inocentar o autor da culpa. Pelo contrário, ele ainda carrega o peso da lembrança (“Vergado sob a culpa tardia”). A ideia de absolvição é introduzida sem apoio textual.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A sanfoninha permanece disponível (“no alto dessa estante”) e a associação ao “Parabéns pra vocé” remete ao momento em que o autor, aos oito anos, tocou o instrumento sozinho, revelando sua fixação na festa perdida. O texto deixa claro que ele se sentiu “um monstro” por pensar no aniversário enquanto a mãe sofria – a sanfoninha, portanto, é um objeto que evoca essa insensibilidade.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A passagem do tempo não transformou o presente em “prova de reabilitação”; ao contrário, o autor ainda lida com a “verdade rude” dos sentimentos daquele menino. Não há qualquer menção a reabilitação ou melhora.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O autor não se esqueceu da circunstância; ele a rememora com detalhes e angústia (“A cada vez que me entrego a tais rememorações”). O fato de não tocar o instrumento (ele diz que “não garanto que o dono dê conta”) não implica esquecimento.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. Não há “depreciação máxima” do presente no texto; a sanfoninha ainda funciona. A ideia de que ele não merecia o presente também não está expressa – o autor sente culpa, mas não diz que o presente foi imerecido.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta confundir o leitor com a alternativa A, que parece positiva (preservar para inocentar), mas o texto aponta para uma lembrança dolorosa, não redentora. A correta é a que mantém o tom crítico do autor consigo mesmo.

Gabarito: letra B

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