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Questão de Português — Funções morfossintáticas da palavra QUE — FCC 2026

PortuguêsFunções morfossintáticas da palavra QUE
Código
fc077151
Banca
FCC
Órgão
MPE-SE
Ano
2026
Nível
Médio
Cargo
Técnico do Ministério Público - Área: Administrativa
Atenção: Considere a crônica "No ônibus", do escritor Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.


    1. A senhora subiu, Deus sabe como, em companhia de dois garotos. Cada garoto com sua merendeira e sua pasta de livros e cadernos indispensáveis para a aquisição dos preliminares da sabedoria. No ônibus não cabia mais ninguém. A bem dizer, não cabia nem o pessoal que se espremia lá dentro em estado de sardinha. Na massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas.

    2. - Deixa que eu carrego - falei na direção de um dos braços a meu alcance, executando um movimento complicado, para enxergar os rostos dos garotos. O menor olhou-me com surpresa e hesitação, porém o mais velho estendeu o braço, e o primeiro, depois uma cotovelada ministrada pelo segundo, imitou-o. Fiquei de posse de duas bojudas pastas escolares, que acomodei da melhor maneira possível sobre os joelhos. Conheço perfeitamente a técnica de carregar embrulhos dos outros. Deve-se colocá-los de tal modo que fiquem seguros sem que seja necessário pôr a mão em cima deles. São coisas sagradas.

    3. A voz da senhora saiu daquele bolo humano:

    4. - Agradece ao moço, Serginho. Agradece, Raul.

    5. Raul (o mais crescido) obedeceu, mas Serginho manteve-se reservado. Mal se passaram alguns minutos, senti que a pasta de cima escorregava mansamente do meu colo. Muito de leve, a mão esquerda de Serginho, escondida sob um lenço, puxava-a para fora. Compreendi que ele prezava acima de tudo a sua pasta, e deixei que a tirasse. A mãe ordenou:

    6. - Serginho, deixe a pasta com o mоçо!

    7. Teve de levantar a voz, para torná-la enérgica. Passageiros em redor começaram a sorrir. Tive de sorrir também. Muito a contragosto, Serginho voltou a confiar-me sua querida pasta. Um estranho mereceria carregá-la? E se fugisse com ela? Como bem podem imaginar, Serginho suspeitava de minha honorabilidade, e os circunstantes se deliciavam com a suspeita.

    8. Mais alguns quarteirões, Serginho repete a manobra. Dessa vez, é radical. Toma sua pasta e a de Raul. Raul protesta:

    9. - Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?

    10. A mãe, em apoio de Raul, exprobra o procedimento de Serginho. Este capitula, mas em termos. Só me restitui a pasta do irmão. A sua não correrá o risco. Coloca-a sobre o peito, sob as mãos cruzadas, como levaria o Santo Graal.

    11. - Este menino é impossível. Desculpe, cavalheiro.

    12. Não vejo o rosto da senhora, mas sua voz é doce, e compensa-me da desconfiança do Serginho. Sorrio para este, enquanto retribuo: "Oh, minha senhora, por favor! Até que o seu filhinho é engraçado."

    13. Engraçado? Serginho faz-me uma careta e ferra-me um beliscão. A assistência ri. A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar. Bonito. É no que dá carregar embrulho dos outros.


(ANDRADE, Carlos Drummond de. 70 historinhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 105-107. Adaptado)
Retoma um termo mencionado anteriormente na crônica a palavra sublinhada em:
  1. A- Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada? (9º parágrafo)
  2. BMal se passaram alguns minutos, senti que a pasta de cima escorregava mansamente do meu colo. (5º parágrafo)
  3. CCompreendi que ele prezava acima de tudo a sua pasta, e deixei que a tirasse. (5º parágrafo)
  4. DCompreendi que ele prezava acima de tudo a sua pasta, e deixei que a tirasse. (5º parágrafo)
  5. EA mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar. (13º parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar. (13º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função do "que" na crônica

Gabarito: letra E. A única ocorrência em que "que" funciona como pronome relativo – retomando um termo anterior – está no 13º parágrafo: "A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar". O "que" retoma "Serginho" e introduz uma oração subordinada adjetiva explicativa. Nas demais alternativas, "que" exerce função de conjunção subordinativa integrante, ligando orações subordinadas substantivas.

Funções do "que"
  • 1Pronome relativo (retoma antecedente)
    • Ex.: "Serginho, que dispara..."
    • Oração adjetiva explicativa
  • 2Conjunção integrante (não retoma)
    • Ex.: "senti que...", "compreendi que..."
    • Oração subordinada substantiva
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Alternativa A — ❌ Incorreta

No parágrafo 9: "Não vê que eu não posso segurar nada?" O "que" é conjunção subordinativa integrante, introduzindo a oração objetiva direta "que eu não posso segurar nada". Não retoma nenhum termo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

No 5º parágrafo: "senti que a pasta de cima escorregava mansamente do meu colo". O "que" é conjunção integrante, objeto de "senti". Não há retomada.

Alternativa C e D — ❌ Incorretas

Ambos os "que" em "Compreendi que ele prezava... e deixei que a tirasse" são conjunções integrantes. O primeiro é objeto de "compreendi", o segundo de "deixei". Nenhum retoma termo anterior.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

No trecho "A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar", o "que" retoma o substantivo "Serginho" (antecedente), funcionando como pronome relativo com função de sujeito da oração adjetiva "que dispara a chorar". Essa é a única ocorrência com valor anafórico.

Conclusão: O pronome relativo "que" é o único que estabelece coesão referencial, retomando um termo dito anteriormente. As demais instâncias são conjunções subordinativas.

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