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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc077155
Banca
FCC
Órgão
MPE-SE
Ano
2026
Nível
Médio
Cargo
Técnico do Ministério Público - Área: Administrativa
Atenção: Considere a crônica "No ônibus", do escritor Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.


    1. A senhora subiu, Deus sabe como, em companhia de dois garotos. Cada garoto com sua merendeira e sua pasta de livros e cadernos indispensáveis para a aquisição dos preliminares da sabedoria. No ônibus não cabia mais ninguém. A bem dizer, não cabia nem o pessoal que se espremia lá dentro em estado de sardinha. Na massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas.

    2. - Deixa que eu carrego - falei na direção de um dos braços a meu alcance, executando um movimento complicado, para enxergar os rostos dos garotos. O menor olhou-me com surpresa e hesitação, porém o mais velho estendeu o braço, e o primeiro, depois uma cotovelada ministrada pelo segundo, imitou-o. Fiquei de posse de duas bojudas pastas escolares, que acomodei da melhor maneira possível sobre os joelhos. Conheço perfeitamente a técnica de carregar embrulhos dos outros. Deve-se colocá-los de tal modo que fiquem seguros sem que seja necessário pôr a mão em cima deles. São coisas sagradas.

    3. A voz da senhora saiu daquele bolo humano:

    4. - Agradece ao moço, Serginho. Agradece, Raul.

    5. Raul (o mais crescido) obedeceu, mas Serginho manteve-se reservado. Mal se passaram alguns minutos, senti que a pasta de cima escorregava mansamente do meu colo. Muito de leve, a mão esquerda de Serginho, escondida sob um lenço, puxava-a para fora. Compreendi que ele prezava acima de tudo a sua pasta, e deixei que a tirasse. A mãe ordenou:

    6. - Serginho, deixe a pasta com o mоçо!

    7. Teve de levantar a voz, para torná-la enérgica. Passageiros em redor começaram a sorrir. Tive de sorrir também. Muito a contragosto, Serginho voltou a confiar-me sua querida pasta. Um estranho mereceria carregá-la? E se fugisse com ela? Como bem podem imaginar, Serginho suspeitava de minha honorabilidade, e os circunstantes se deliciavam com a suspeita.

    8. Mais alguns quarteirões, Serginho repete a manobra. Dessa vez, é radical. Toma sua pasta e a de Raul. Raul protesta:

    9. - Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?

    10. A mãe, em apoio de Raul, exprobra o procedimento de Serginho. Este capitula, mas em termos. Só me restitui a pasta do irmão. A sua não correrá o risco. Coloca-a sobre o peito, sob as mãos cruzadas, como levaria o Santo Graal.

    11. - Este menino é impossível. Desculpe, cavalheiro.

    12. Não vejo o rosto da senhora, mas sua voz é doce, e compensa-me da desconfiança do Serginho. Sorrio para este, enquanto retribuo: "Oh, minha senhora, por favor! Até que o seu filhinho é engraçado."

    13. Engraçado? Serginho faz-me uma careta e ferra-me um beliscão. A assistência ri. A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar. Bonito. É no que dá carregar embrulho dos outros.


(ANDRADE, Carlos Drummond de. 70 historinhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 105-107. Adaptado)
Em sua crônica, Drummond dirige-se explicitamente a seus leitores no seguinte trecho:
  1. AO menor olhou-me com surpresa e hesitação, porém o mais velho estendeu o braço, e o primeiro, depois de uma cotovelada ministrada pelo segundo, imitou-o. (2º parágrafo)
  2. BNa massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas. (1º parágrafo)
  3. CComo bem podem imaginar, Serginho suspeitava de minha honorabilidade, e os circunstantes se deliciavam com a suspeita. (7º parágrafo)
  4. DMal se passaram alguns minutos, senti que a pasta de cima escorregava mansamente do meu colo. (5º parágrafo)
  5. E- Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada? (9º parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Como bem podem imaginar, Serginho suspeitava de minha honorabilidade, e os circunstantes se deliciavam com a suspeita. (7º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
NÃO CAIA NESSA!

Esta questão depende de um texto-base (crônica de Drummond) que não foi fornecido. A análise abaixo considera exclusivamente as alternativas dadas, identificando qual delas contém uma expressão de interlocução direta com o leitor.

Interpretação de Textos – Interlocução Direta

Gabarito: letra C. A alternativa C é a única em que o autor se dirige explicitamente aos leitores, por meio da expressão "Como bem podem imaginar", que usa o verbo na terceira pessoa do plural ("podem") referindo-se aos leitores e os convida a imaginar uma situação. As demais alternativas são trechos narrativos ou de diálogo entre personagens, sem que o narrador se dirija diretamente ao leitor.

Alternativa A — ❌ Incorreta

O trecho narra uma ação dos personagens ("o menor olhou-me... o mais velho estendeu o braço"), sem qualquer marca de interlocução com o leitor. O narrador descreve os fatos, mas não se dirige ao leitor.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A frase descreve uma percepção do narrador ("percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas"), sem dirigir-se ao leitor. Não há vocativo ou pronome de segunda pessoa.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A expressão "Como bem podem imaginar" é uma clara marca de interlocução: o narrador se dirige aos leitores, utilizando o verbo "poder" na terceira pessoa do plural referindo-se a eles, e os convida a imaginar a cena. É o único trecho entre as opções em que o autor rompe a narrativa para falar diretamente com o leitor.

Alternativa D — ❌ Incorreta

O trecho descreve uma sensação física do narrador ("senti que a pasta de cima escorregava"), sem qualquer direcionamento ao leitor.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A frase é uma fala de um personagem ("Deixa com ele, seu burro..."), em discurso direto, dirigida a outro personagem, não ao leitor.

Dica: em questões que pedem identificação de trechos em que o autor se dirige ao leitor, procure por pronomes ou verbos em segunda pessoa ("você", "leitor", "imagina", "veja", "perceba", etc.) ou expressões como "como vocês sabem", "bem podem imaginar". Essas marcas indicam quebra da narrativa e interlocução direta.

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