Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc077451
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ-SP
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Auditor Fiscal da Receita Estadual - AFRE - Gestão Tributária - Conhecimentos Gerais (P1)
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.


Escrever é verbo que briga com o sujeito


   No ofício da literatura, linguagem é mais do que meio: é princípio e fim. A literatura cria, à medida que é escrita, as regras pelas quais exigirá ser lida. É por isso que o terreno nunca vai estar inteiramente mapeado; o risco é parte inseparável do jogo. Se há algo de "universal" aí, é negativo: uma permanente insatisfação parece ser comum a gente de variadas épocas e escolas. O raciocínio não se aplica a quem lida com a linguagem como mero instrumento. "Profissionais do texto" que miram um objeto existente fora do mundo da linguagem podem se sentir plenos ao informar, relatar, dissertar, argumentar, resumir, requerer, inventariar etc. Não por acaso, são essas as funções da escrita em que a IA já se tornou competente.

   Na "escritor" e escrita criativa não se tem a mesma sorte. A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, "escrever". É provável que exista um núcleo disfuncional em tudo isso, aquilo que bota o motor para rodar. Qualquer que seja о fenômeno psíquico que leva alguém à escrita, será informação de interesse para quem escreve, mas irrelevante para quem lê.

   O propósito terapêutico que possa ser extraído do conhecimento da ferida anímica que provoca o texto não importa no mundo do texto. O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele. Olha para o lado oposto: para fora do sujeito, para o mundo das palavras. Então os escritores são todos uns neuróticos? O romancista americano E.L. Doctorow tem uma frase famosa que sugere distúrbio mais grave: "Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia". Nesse ponto cabe ter cautela. Como metáfora, a coisa tem sua utilidade -quem escreve pode mesmo "ouvir" vozes dentro da cabeça. Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos, heroicos, messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional, boca torta do cachimbo. Embora possa parecer, nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura. Escrever é só um oficio entre tantos, mas em certos aspectos não se assemelha a nenhum outro - o que é natural.


(RODRIGUES, Sérgio. "llustrada". Folha de S. Paulo. 20 agosto de 2025)
A afirmação, no contexto do 2° parágrafo, de que O propósito terapêutico [...] não importa no mundo do texto ganha um reforço argumentativo quando se assevera, no 3º parágrafo, que
  1. Atão somente a arte romântica é capaz de cumprir um desígnio de fundo sanitarista.
  2. Ba singularidade da escritura artística está na superação prévia dos traumas psíquicos.
  3. Co projeto estético da arte literária é de certa forma oposto a um ocasional intuito clínico.
  4. Dé preciso ser cauteloso na formulação de metáforas para se definir o que é literatura.
  5. Eo ofício de um escritor leva-o a se concentrar nas possibilidades curativas de sua arte.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — o projeto estético da arte literária é de certa forma oposto a um ocasional intuito clínico.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Reforço argumentativo no 3º parágrafo

Gabarito: letra C. A afirmação de que o propósito terapêutico não importa no mundo do texto (2º parágrafo) é reforçada pela assertiva de que o projeto estético da arte literária é oposto ao intuito clínico, trecho que aparece ao final do 2º parágrafo e é retomado e aprofundado no 3º parágrafo com a metáfora da esquizofrenia e a cautela contra associar arte e loucura. A alternativa C parafraseia exatamente essa ideia: "o projeto estético da arte literária é de certa forma oposto a um ocasional intuito clínico".

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

Tão somente a arte romântica é capaz de cumprir um desígnio de fundo sanitarista. O texto não afirma isso; pelo contrário, no 3º parágrafo diz que "nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura". Extrapolação.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A singularidade da escritura artística está na superação prévia dos traumas psíquicos. O texto fala de "ferida anímica", mas não diz que a escrita artística supera traumas; o propósito estético é oposto ao clínico. Contradiz o texto.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Conforme o texto: "O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele." Essa ideia é reforçada no 3º parágrafo com a discussão sobre metáfora da esquizofrenia e a cautela contra misturar arte e loucura. A alternativa parafraseia corretamente.

Alternativa D — ❌ Incorreta

É preciso ser cauteloso na formulação de metáforas para se definir o que é literatura. Embora o 3º parágrafo mencione cautela com metáforas, isso não é um reforço direto à afirmação sobre o propósito terapêutico; é uma observação lateral. Tangencia o tema.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O ofício de um escritor leva-o a se concentrar nas possibilidades curativas de sua arte. O texto afirma o contrário: o propósito estético é oposto ao clínico. Contradiz o texto.

Conclusão: A única alternativa que se alinha com a ideia reforçada é a C.

Link permanente: /questoes/fc077451