Questionar a naturalidade de algo no texto de Clastres
Gabarito: letra C. A questão pede a interpretação do ato de "questionar a naturalidade de algo" conforme a argumentação do texto. O texto afirma que La Boétie, ao se espantar com a servidão voluntária, "recusa a evidência natural" e transcende a história para dizer que "outra coisa é possível". Isso implica que o que parecia natural é, na verdade, uma construção cultural, passível de ser estudada em sua intencionalidade e passível de mudança. A alternativa C traduz exatamente essa ideia: considerar algo como fruto da cultura e estudá-lo em sua intencionalidade.
"Ao espantar-se com isso, ao recusar a evidência natural, o jovem La Boétie transcende toda a história conhecida para dizer: outra coisa é possível."
Agora, vejamos por que as demais alternativas são ❌ Incorretas.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que questionar a naturalidade significa "submeter a natureza ao crivo da lógica, de maneira a respaldar a ausência de finalidade em suas características inerentes". O texto não menciona "ausência de finalidade" nem se propõe a analisar características inerentes da natureza; ao contrário, ele critica a naturalização de fenômenos sociais (a servidão voluntária). Há uma extrapolação: o autor não trata de finalidades ou de uma análise lógica da natureza.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Intuir até que ponto a natureza pode ser modificada pela cultura em benefício da sociedade." O texto não discute a modificação da natureza pela cultura, e sim a percepção de que a servidão voluntária, embora pareça natural, é uma invariante histórica que pode ser superada. A ideia de "benefício da sociedade" é alheia ao trecho. O erro é de fora do escopo (tangencia o tema).
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Como demonstrado, o texto defende que questionar o que é tido como natural permite enxergar esse fenômeno como uma construção cultural, e não como um dado imutável. A expressão "estudado em sua intencionalidade" remete à possibilidade de se perguntar por que a servidão voluntária existe, o que o próprio La Boétie faz ao indagar "como é possível que a maioria obedeça a um só?". Portanto, a alternativa está em plena consonância com a argumentação.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Pôr em xeque sua historicidade, procurando compreender seus aspectos inerentes e não sujeitos a mudanças." O texto, ao contrário, mostra que o que é tido como natural é justamente algo que poderia ser diferente — ou seja, é sujeito a mudanças. A servidão voluntária é apresentada como uma invariante histórica, mas a reflexão de La Boétie serve justamente para questionar essa invariância e imaginar uma sociedade sem ela. A alternativa contradiz o texto ao afirmar que se buscam "aspectos inerentes e não sujeitos a mudanças".
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Procurar entender um fenômeno em suas características estruturais, a fim de estabelecer uma constante." O texto não visa estabelecer uma constante; pelo contrário, La Boétie quer romper com a constante da servidão voluntária. A alternativa inverte o propósito: ao questionar a naturalidade, o autor busca mostrar que a sociedade poderia ser diferente, não fixar uma constante. Erro de troca de conceito.
Conclusão: A única alternativa que reflete fielmente a argumentação do texto é a C. Questionar a naturalidade é perceber que aquilo não é natural, mas construído culturalmente, e, portanto, passível de análise crítica e transformação.
Gabarito: letra C.