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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc077707
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ-SP
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Auditor Fiscal da Receita Estadual - AFRE - Tecnologia da Informação e Comunicação - Conhecimentos Gerais (P1)
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.


Escrever é verbo que briga com o sujeito


   No ofício da literatura, linguagem é mais do que meio: é princípio e fim. A literatura cria, à medida que é escrita, as regras pelas quais exigirá ser lida. É por isso que o terreno nunca vai estar inteiramente mapeado; o risco é parte inseparável do jogo. Se há algo de "universal” aí, é negativo: uma permanente insatisfação parece ser comum a gente de variadas épocas e escolas. O raciocínio não se aplica a quem lida com a linguagem como mero instrumento. "Profissionais do texto" que miram um objeto existente fora do mundo da linguagem podem se sentir plenos ao informar, relatar, dissertar, argumentar, resumir, requerer, inventariar etc. Não por acaso, são essas as funções da escrita em que a IA já se tornou competente.

   Na escrita criativa não se tem a mesma sorte. A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, “escritor" e "escrever". É provável que exista um núcleo disfuncional em tudo isso, aquilo que bota o motor para rodar. Qualquer que seja o fenômeno psíquico que leva alguém à escrita, será informação de interesse para quem escreve, mas irrelevante para quem lê. O propósito terapêutico que possa ser extraído do conhecimento da ferida anímica que provoca o texto não importa no mundo do texto.

   O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele. Olha para o lado oposto: para fora do sujeito, para o mundo das palavras. Então os escritores são todos uns neuróticos? O romancista americano E.L. Doctorow tem uma frase famosa que sugere distúrbio mais grave: "Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia". Nesse ponto cabe ter cautela. Como metáfora, a coisa tem sua utilidade - quem escreve pode mesmo "ouvir" vozes dentro da cabeça. Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos, heroicos, messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional, boca torta do cachimbo. Embora possa parecer, nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura. Escrever é só um ofício entre tantos, mas em certos aspectos não se assemelha a nenhum outro - o que é natural.


(RODRIGUES, Sérgio. "Ilustrada". Folha de S. Paulo. 20 agosto de 2025)
Diante da afirmativa do romancista americano E. L. Doctorow (3º parágrafo), o autor do texto
  1. Arecusa-a de todo, por julgá-la uma metáfora improcedente no caso dos grandes escritores.
  2. Breferenda-a, uma vez que ela se aplica exemplarmente ao caso dos escritores de índole romântica.
  3. Crelativiza-a de pronto, por não aceitar que se tome a arte literária como sintoma de desajuste psíquico.
  4. Djulga-a equívoca, uma vez que nenhuma arte que problematiza a vida é aceita socialmente.
  5. Econsidera-a oportuna, por considerar que a arte literária deve ser aceita como uma proposta messiânica.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — relativiza-a de pronto, por não aceitar que se tome a arte literária como sintoma de desajuste psíquico.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Posição do autor diante da afirmação de Doctorow

Gabarito: letra C. O autor do texto relativiza a afirmação de E.L. Doctorow, reconhecendo seu valor metafórico, mas rejeitando que se tome a arte literária como sintoma de desajuste psíquico ou como algo romântico/messiânico. A passagem-chave está no 3º parágrafo:

“Nesse ponto cabe ter cautela. Como metáfora, a coisa tem sua utilidade – quem escreve pode mesmo 'ouvir' vozes dentro da cabeça. Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos, heroicos, messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional, boca torta do cachimbo. Embora possa parecer, nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura.”

O autor não recusa totalmente a afirmação (A), nem a endossa como aplicável a escritores românticos (B), nem a considera equívoca (D) ou oportunista (E). Ele relativiza de imediato: aceita a metáfora com ressalvas, alertando para o risco de associar arte a doença mental ou romantismo.


Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto / generalização indevida. O autor não “recusa-a de todo”; pelo contrário, admite que “como metáfora, a coisa tem sua utilidade”. A recusa total desconsidera a nuance do texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O autor explicitamente diz que “nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura”. Portanto, não referenda a afirmação para escritores de índole romântica.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O autor “relativiza-a de pronto” ao dizer “cabe ter cautela” e pondera que a metáfora é útil, mas não deve ser levada ao extremo de associar arte a desajuste psíquico. Exatamente o que a alternativa afirma.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não afirma que “nenhuma arte que problematiza a vida é aceita socialmente”. Doctorow diz que escrever é forma socialmente aceita de esquizofrenia, e o autor não contesta esse aspecto, apenas alerta contra a associação direta com loucura.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O autor diz expressamente “deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares […] messiânicos”. Logo, não considera a afirmação oportuna como proposta messiânica.

PEGA ESSA DICA!

Observe como o autor usa os conectivos “contudo”, “embora”, “nada disso” – eles marcam a relativização (concessão + restrição). A chave é perceber que ele aceita a metáfora, mas impõe limites.

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