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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc077708
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ-SP
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Auditor Fiscal da Receita Estadual - AFRE - Tecnologia da Informação e Comunicação - Conhecimentos Gerais (P1)
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.


Escrever é verbo que briga com o sujeito


   No ofício da literatura, linguagem é mais do que meio: é princípio e fim. A literatura cria, à medida que é escrita, as regras pelas quais exigirá ser lida. É por isso que o terreno nunca vai estar inteiramente mapeado; o risco é parte inseparável do jogo. Se há algo de "universal” aí, é negativo: uma permanente insatisfação parece ser comum a gente de variadas épocas e escolas. O raciocínio não se aplica a quem lida com a linguagem como mero instrumento. "Profissionais do texto" que miram um objeto existente fora do mundo da linguagem podem se sentir plenos ao informar, relatar, dissertar, argumentar, resumir, requerer, inventariar etc. Não por acaso, são essas as funções da escrita em que a IA já se tornou competente.

   Na escrita criativa não se tem a mesma sorte. A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, “escritor" e "escrever". É provável que exista um núcleo disfuncional em tudo isso, aquilo que bota o motor para rodar. Qualquer que seja o fenômeno psíquico que leva alguém à escrita, será informação de interesse para quem escreve, mas irrelevante para quem lê. O propósito terapêutico que possa ser extraído do conhecimento da ferida anímica que provoca o texto não importa no mundo do texto.

   O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele. Olha para o lado oposto: para fora do sujeito, para o mundo das palavras. Então os escritores são todos uns neuróticos? O romancista americano E.L. Doctorow tem uma frase famosa que sugere distúrbio mais grave: "Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia". Nesse ponto cabe ter cautela. Como metáfora, a coisa tem sua utilidade - quem escreve pode mesmo "ouvir" vozes dentro da cabeça. Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos, heroicos, messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional, boca torta do cachimbo. Embora possa parecer, nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura. Escrever é só um ofício entre tantos, mas em certos aspectos não se assemelha a nenhum outro - o que é natural.


(RODRIGUES, Sérgio. "Ilustrada". Folha de S. Paulo. 20 agosto de 2025)
A justificativa da afirmação que dá título ao texto - Escrever é verbo que briga com o sujeito - expressa-se
  1. Aquando se considera o caso de escritores cuja linguagem venha a se apoiar num mundo excessivamente mapeado.
  2. Bno sintoma do descontentamento do escritor criativo depois de buscar um nexo intenso entre ele e suas palavras.
  3. Cna constatação de que as informações mais pessoais do escritor costumam ser sedutoras para quem as lê.
  4. Dao se reconhecer que o objetivo estético da literatura é o apaziguamento das nossas tensões mais íntimas.
  5. Eno fato de que a ameaça de uma esquizofrenia costuma bloquear as iniciativas do escritor não vocacionado.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — no sintoma do descontentamento do escritor criativo depois de buscar um nexo intenso entre ele e suas palavras.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A briga entre escritor e escrita: a insatisfação criativa

Gabarito: letra B. A justificativa para o título "Escrever é verbo que briga com o sujeito" está na passagem que afirma: "A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, 'escritor' e 'escrever'." (1º parágrafo). Essa "briga" é justamente o descontentamento do escritor criativo ao buscar uma conexão intensa com as palavras – um nexo que nunca se completa.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa menciona "linguagem apoiada num mundo excessivamente mapeado". O texto, porém, trata de escritores que usam a linguagem como mero instrumento ("profissionais do texto") – para esses, a satisfação é possível, e não há briga. A justificativa do título é a insatisfação do escritor criativo, não a ausência dela. Erro: extrapolação (inverte o foco).

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Conforme citado, o texto vincula diretamente a "briga" à "insatisfação eterna" e ao "ajuste precário" entre sujeito e verbo. A alternativa parafraseia corretamente: o escritor criativo busca um nexo intenso, mas o resultado é o descontentamento. Prova textual: > "A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, 'escritor' e 'escrever'."

Alternativa C — ❌ Incorreta

O texto afirma que as informações pessoais do escritor (a "ferida anímica") não importam para quem lê – o propósito estético olha para fora do sujeito. Dizer que são "sedutoras para quem as lê" contradiz o texto. Erro: contradição.

Alternativa D — ❌ Incorreta

O texto diz que o propósito estético não é apaziguar tensões íntimas; é "o contrário disso", voltado para o mundo das palavras. A alternativa afirma o oposto. Erro: contradição.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A esquizofrenia é citada como metáfora (Doctorow), mas o texto adverte: "deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura". Não há menção a bloqueio de iniciativas ou escritor não vocacionado. Erro: extrapolação (acrescenta informação ausente).

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