Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2019

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc135852
Banca
FCC
Órgão
SANASA
Ano
2019
Cargo
Ag TH ( )

De cedo, aprendi a subir ladeira e a pegar bonde andando. Posso dizer, com humildade orgulhosa, que tive morros e bondes no meu tempo de menino.

 

Nossa pobreza não era envergonhada. Ainda não fora substituída pela miséria nos morros pobres, como o da Geada. Que tinha esse nome a propósito: lá pelos altos do Jaguaré, quando fazia muito frio, no morro costumava gear. Tínhamos um par de sapatos para o domingo. Só. A semana tocada de tamancos ou de pés no chão.

 

Não há lembrança que me chegue sem os gostos. Será difícil esquecer, lá no morro, o gosto de fel de chá para os rins, chá de carqueja empurrado goela abaixo pelas mãos de minha bisavó Júlia. Havia pobreza, marcada. Mas se o chá de carqueja me descia brabo pela goela, como me é difícil esquecer o gosto bom do leite quente na caneca esmaltada estirada, amorosamente, também no morro da Geada, pelas mãos de minha avó Nair.

 

miséria não substituíra a pobreza. E lá no morro da Geada, além do futebol e do jogo de malha, a gente criava de um tudo. Havia galinha, cabrito, porco, marreco, passarinho, e a natureza criava rolinha, corruíra, papa-capim, andorinha, quanto. Tudo ali nos Jaguarés, no morro da Geada, sem água encanada, com luz só recente, sem televisão, sem aparelho de som e sem inflação.

 

Nenhum de nós sabia dizer a palavra solidariedade. Mas, na casa do tio Otacílio, criavam-se até filhos dos outros, e estou certo que o nosso coração era simples, espichado e melhor. Não desandávamos a reclamar da vida, não nos hostilizávamos feito possessos, tocávamos a pé pra baixo e pra cima e, quando um se encontrava com o outro, a gente não dizia: “Oi!”. A gente se saudava, largo e profundo: − Ô, batuta*!

 

*batuta: amigo, camarada.

 

(Texto adaptado. João Antônio. Meus tempos de menino. In: WERNEK, Humberto (org.). 

Boa companhia: crônicas. São Paulo, Companhia

das Letras, 2005, p. 141-143)

 

Da leitura do trecho Nossa pobreza não era envergonhada. Ainda não fora substituída pela miséria nos morros pobres, como o da Geada (2o parágrafo), subentende-se que o morro da Geada

  1. Anão era miserável como os demais morros, pois era habitado por trabalhadores.
  2. Bdifere dos demais morros na medida em que escapou da chegada da miséria.
  3. Cpassou de pobre a miserável em algum momento depois da infância do autor.
  4. Dtinha orgulho de ser pobre, porque a pobreza era uma opção dos moradores.
  5. Enão tinha consciência da condição miserável em que viviam seus habitantes.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — passou de pobre a miserável em algum momento depois da infância do autor.

Link permanente: /questoes/fc135852