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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140443
Banca
FCC
Órgão
MPE SE
Ano
2026
Cargo
Ana ( )

A não-festa dos meus oito anos

 

- Quer dizer que não vai ter meu aniversário?

 

Não me lembro de ter feito a pergunta. Fiz o que pude para abafar essa lembrança - e quando muitos anos mais tarde me contaram o caso, como quem conta um episódio inocente, quis nada menos que morrer também. Eu já era um adolescente quando essa história me foi lembrada - a mim, que a havia sepultado no fundo do meu inconsciente.

 

Eu já ia fazer oito anos, mas minha mãe, recostada na cabeceira da cama, estava cercada de tias, primas, sobrinhas, amigas, e mamãe repetindo que Papai do Céu tinha levado nossa irmã. Foi então que perguntei se não ia ter meu aniversário. Ouvindo essa história, adolescente, me senti um monstro. Vergado sob a culpa tardia e envergonhado do papelão de ter pensado em bolo, salgadinhos e presentes numa hora daquelas, nossa mãe sofrendo, papelão ainda mais horrendo quando comparado ao papel bonito dos meus irmãos. O mais velho, olhos cheios de lagrimas, correu ao quarto da irmã, abriu o armário e acariciou os vestidinhos pendurados. O outro irmão compôs uma pulseirinha delicada com pequenos grampos de cabelo. Eu não pensei em nada, pois aquela morte havia destroçando o meu aniversário.

 

Diante da minha frustração, devem ter dito: vamos das alguma coisa pra esse menino, coitado - e então fomos para o centro da cidade, tia Nathalia e eu, comprar na loja alguma coisa para mim, qual coisa? - e a coisa resultou ser uma sanfoninha que quase seis décadas depois ainda está aqui, ali no alto dessa estante na minha casa de homem velho, capaz ainda de produzir música, intocada, mas tocável.

 

Só não garanto que o dono dê conta de extrair dali o "Parabéns pra você", o parabéns-para-mim que o menino de oito anos tirou sozinho, sentado na escada de uma casa onde os pais chorosos cuidavam do granito preto para o túmulo da menina que partira. A cada vez que me entrego a tais rememorações, é difícil para mim metabolizar a verdade rude dos sentimentos daquele menino que não se conformou ao ver sabotada a festa de seus oito anos.

 

(Adaptado de: WERNECK, Humberto. Esse inferno vai acabar. Porto Alegre, Arquipélago, 2011, p. 65-66)

Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.

   

Ao se referir à sanfoninha no alto dessa estante na minha casa, o autor revela que

  1. Ao presente de seu aniversário de oito anos foi preservado para inocentá-lo da culpa que sentiu quando menino.
  2. Bmanteve disponível seu instrumento musical para lembrá-lo da insensibilidade que mostrou naquela data de aniversário.
  3. Ca passagem do tempo fez do seu antigo presente uma prova de reabilitação de seus melhores sentimentos.
  4. Do fato de não mais tocar o instrumento faz com que se esquecesse da circunstância em que o ganhou.
  5. Ehouve uma depreciação máxima do presente que lhe deram sem merecimento seu para ganhá-lo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — manteve disponível seu instrumento musical para lembrá-lo da insensibilidade que mostrou naquela data de aniversário.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A sanfoninha como memória da insensibilidade infantil

Gabarito: letra B. Ao manter a sanfoninha "no alto dessa estante na minha casa", o autor revela que conservou o instrumento para lembrá-lo da insensibilidade que mostrou naquela data de aniversário — a culpa que o persegue desde a adolescência, quando se sentiu "um monstro" por ter pensado no próprio aniversário enquanto a mãe sofria a perda da irmã. A passagem que ancora essa leitura está no 3º parágrafo: a sanfoninha "ainda está aqui, ali no alto dessa estante na minha casa de homem velho, capaz ainda de produzir música, intocada, mas tocável".

O comando pede interpretação ("revela que"), não mera compreensão literal: a resposta não está escrita palavra por palavra, mas é uma inferência ancorada em pistas do texto. A pista decisiva é a permanência do objeto por quase seis décadas, "intocada, mas tocável" — se o autor a guardou sem tocá-la, não é por afeto ou por uso, mas porque ela materializa a lembrança daquele momento de egoísmo infantil. O texto inteiro é uma confissão de culpa: "Vergado sob a culpa tardia e envergonhado do papelão de ter pensado em bolo, salgadinhos e presentes numa hora daquelas". A sanfoninha é o símbolo físico dessa culpa — mantê-la à vista é manter viva a memória da própria insensibilidade.

A técnica que decide esta questão é a distinção entre inferência legítima e extrapolação. Inferência legítima é a que se apoia em pressupostos deixados pelo próprio texto: o autor diz que a sanfoninha está "intocada, mas tocável" e que "é difícil para mim metabolizar a verdade rude dos sentimentos daquele menino" — disso decorre, com necessidade lógica, que ele a conserva como recordação de um sentimento que o envergonha. Extrapolação seria afirmar algo que o texto não autoriza, como "para inocentá-lo da culpa" (letra A) ou "prova de reabilitação" (letra C) — ideias que o autor jamais externa.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a generalização indevida — oferece alternativas que soam plausíveis (preservar para se inocentar, reabilitação, esquecimento), mas que acrescentam motivações que o texto não menciona. A letra B é a única que se limita ao que o texto sustenta: a culpa pela insensibilidade.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de interpretação, pergunte sempre: "o texto autoriza esta conclusão, ou ela exige acrescentar algo de fora?". A resposta correta é a que se apoia em pista textual; a errada é a que completa o sentido com imaginação.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto diz que o autor se sentiu "um monstro" e "vergado sob a culpa tardia", mas não diz que a sanfoninha foi preservada para inocentá-lo. A ideia de "inocentar" (absolver, livrar da culpa) é uma motivação que o autor não atribui ao objeto. O texto mostra culpa, não absolvição — a sanfoninha é lembrança da culpa, não remédio para ela.

Alternativa B — ✅ Correta

Inferência ancorada no texto. O autor guarda a sanfoninha "intocada, mas tocável" por quase seis décadas, e o texto a associa diretamente ao episódio: "o parabéns-para-mim que o menino de oito anos tirou sozinho, sentado na escada de uma casa onde os pais chorosos cuidavam do granito preto para o túmulo da menina que partira". A permanência do objeto, somada à confissão de que "é difícil para mim metabolizar a verdade rude dos sentimentos daquele menino que não se conformou", prova que a sanfoninha mantém viva a lembrança da insensibilidade — exatamente o que a alternativa afirma.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação com opinião embutida. O texto não fala em "reabilitação" nem em "melhores sentimentos". O autor se descreve como alguém que carrega culpa, não como alguém reabilitado. A alternativa projeta uma narrativa de superação que o texto não sustenta — é um clichê de senso comum ("o tempo cura tudo") que o autor não externa.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O texto afirma que a sanfoninha "ainda está aqui, ali no alto dessa estante" — ou seja, o autor não se esqueceu; pelo contrário, a mantém à vista. A alternativa inverte o sentido: diz que o não-tocar leva ao esquecimento, mas o texto mostra que o objeto permanece como memória ativa. O trecho "intocada, mas tocável" reforça que a lembrança está presente, não apagada.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação e troca de sentido. O texto não diz que o presente foi "depreciado" nem que o autor não o "merecia". A palavra "depreciação" (perda de valor) não aparece e não é sugerida. O autor não julga o presente como indigno — ele julga a si mesmo ("me senti um monstro"). A alternativa desloca o juízo de valor do autor para o objeto, o que o texto não faz.

Conclusão: a questão testa a capacidade de inferir a função simbólica de um objeto a partir das pistas de culpa e permanência. A letra B é a única que se limita ao que o texto autoriza: a sanfoninha é guardada como memória da insensibilidade infantil. As demais ou extrapolam motivações (A, C, E) ou contradizem o texto (D).

Gabarito: letra B

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