Questão de Português — Termos Acessórios (Adjunto Adnominal, Adjunto Adverbial e Aposto). Vocativo — FCC 2026
Português›Termos Acessórios (Adjunto Adnominal, Adjunto Adverbial e Aposto). Vocativo
Código
fc140447
Banca
FCC
Órgão
MPE SE
Ano
2026
Cargo
Ana ( )
A não-festa dos meus oito anos
- Quer dizer que não vai ter meu aniversário?
Não me lembro de ter feito a pergunta. Fiz o que pude para abafar essa lembrança - e quando muitos anos mais tarde me contaram o caso, como quem conta um episódio inocente, quis nada menos que morrer também. Eu já era um adolescente quando essa história me foi lembrada - a mim, que a havia sepultado no fundo do meu inconsciente.
Eu já ia fazer oito anos, mas minha mãe, recostada na cabeceira da cama, estava cercada de tias, primas, sobrinhas, amigas, e mamãe repetindo que Papai do Céu tinha levado nossa irmã. Foi então que perguntei se não ia ter meu aniversário. Ouvindo essa história, adolescente, me senti um monstro. Vergado sob a culpa tardia e envergonhado do papelão de ter pensado em bolo, salgadinhos e presentes numa hora daquelas, nossa mãe sofrendo, papelão ainda mais horrendo quando comparado ao papel bonito dos meus irmãos. O mais velho, olhos cheios de lagrimas, correu ao quarto da irmã, abriu o armário e acariciou os vestidinhos pendurados. O outro irmão compôs uma pulseirinha delicada com pequenos grampos de cabelo. Eu não pensei em nada, pois aquela morte havia destroçando o meu aniversário.
Diante da minha frustração, devem ter dito: vamos das alguma coisa pra esse menino, coitado - e então fomos para o centro da cidade, tia Nathalia e eu, comprar na loja alguma coisa para mim, qual coisa? - e a coisa resultou ser uma sanfoninha que quase seis décadas depois ainda está aqui, ali no alto dessa estante na minha casa de homem velho, capaz ainda de produzir música, intocada, mas tocável.
Só não garanto que o dono dê conta de extrair dali o "Parabéns pra você", o parabéns-para-mim que o menino de oito anos tirou sozinho, sentado na escada de uma casa onde os pais chorosos cuidavam do granito preto para o túmulo da menina que partira. A cada vez que me entrego a tais rememorações, é difícil para mim metabolizar a verdade rude dos sentimentos daquele menino que não se conformou ao ver sabotada a festa de seus oito anos.
(Adaptado de: WERNECK, Humberto. Esse inferno vai acabar. Porto Alegre, Arquipélago, 2011, p. 65-66)
Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.
Na frase a coisa resultou ser uma sanfoninha que quase seis décadas depois ainda está aqui, ali no alto dessa estante, os dois segmentos sublinhados
Atraduzem a instabilidade de uma dupla emoção que se impunha ao menino.
Bconvergem na prova melancólica de um apagamento da memória.
Cconstituem um paradoxo, numa relação contraditória.
Dindicam, respectivamente, permanência temporal e proximidade física.
Eexpressam, na ordem dada, uma proximidade física e uma distância temporal.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoD — indicam, respectivamente, permanência temporal e proximidade física.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Sentido das expressões adverbiais: tempo e lugar na sanfoninha
Gabarito: letra D. Os segmentos sublinhados "quase seis décadas depois" e "ali no alto dessa estante" indicam, respectivamente, permanência temporal (o tempo que passou desde a compra da sanfoninha) e proximidade física (o lugar onde ela está agora, na estante da casa do narrador). A resposta está ancorada no trecho: "a coisa resultou ser uma sanfoninha que quase seis décadas depois ainda está aqui, ali no alto dessa estante". A alternativa D é a única que descreve com precisão o valor semântico de cada expressão, sem acrescentar ideias que o texto não autoriza.
O comando da questão
A questão pede que se identifique o sentido dos dois segmentos sublinhados na frase. Não se trata de uma questão de compreensão global do texto, mas de análise semântica de expressões adverbiais dentro de um contexto específico. O comando "os dois segmentos sublinhados" indica que devemos analisar cada um separadamente e, em seguida, ver qual alternativa descreve corretamente a relação entre eles. É uma questão de interpretação de sentido, não de gramática normativa, mas de semântica contextual.
O texto e a localização da resposta
O texto narra a memória do narrador sobre seu aniversário de oito anos, que foi ofuscado pela morte de sua irmã. No trecho em questão, o narrador, já idoso, relembra a sanfoninha que ganhou naquela ocasião e que "quase seis décadas depois ainda está aqui, ali no alto dessa estante". A expressão "quase seis décadas depois" indica o tempo decorrido desde o episódio, ou seja, uma permanência temporal — o objeto permaneceu com o narrador por todo esse tempo. Já "ali no alto dessa estante" indica o lugar onde a sanfoninha se encontra, ou seja, uma proximidade física — está perto do narrador, na estante de sua casa.
A técnica: distinguir tempo e lugar
Para resolver a questão, é essencial identificar a circunstância que cada expressão adverbial expressa. "Quase seis décadas depois" responde à pergunta "quando?" — é um adjunto adverbial de tempo. "Ali no alto dessa estante" responde à pergunta "onde?" — é um adjunto adverbial de lugar. A alternativa D é a única que capta essa distinção: permanência temporal (o tempo que passou) e proximidade física (o lugar onde está). As demais alternativas ou invertem os sentidos, ou acrescentam interpretações que o texto não sustenta.
Análise das alternativas
1Quase seis décadas depois
2Tempo (quando?)
3Permanência temporal
4Ali no alto dessa estante
5Lugar (onde?)
6Proximidade física
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que os segmentos "traduzem a instabilidade de uma dupla emoção que se impunha ao menino". Isso é uma extrapolação: o texto não menciona nenhuma "dupla emoção" nem "instabilidade" relacionada a esses segmentos. A expressão "quase seis décadas depois" e "ali no alto dessa estante" são meras indicações de tempo e lugar, sem carga emocional explícita. A emoção do menino é descrita em outras partes do texto (como a frustração pelo aniversário), mas não está vinculada a esses segmentos específicos. Portanto, a alternativa extrapola o conteúdo do texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que os segmentos "convergem na prova melancólica de um apagamento da memória". Isso é uma interpretação equivocada: o texto não fala em "apagamento da memória". Pelo contrário, o narrador lembra vividamente do episódio e da sanfoninha, que "ainda está aqui". A expressão "quase seis décadas depois" indica permanência (o objeto continua presente), não apagamento. A alternativa contradiz o texto, que valoriza a memória e a conservação do objeto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que os segmentos "constituem um paradoxo, numa relação contraditória". Isso é um erro de interpretação: não há paradoxo ou contradição entre "quase seis décadas depois" e "ali no alto dessa estante". Pelo contrário, as duas expressões se complementam: uma indica o tempo decorrido, a outra o lugar atual. Não há oposição lógica entre elas. A alternativa inventa uma relação que o texto não estabelece.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que os segmentos "indicam, respectivamente, permanência temporal e proximidade física". Isso está perfeitamente alinhado ao texto. "Quase seis décadas depois" indica permanência temporal — o tempo que passou desde a compra da sanfoninha, que permaneceu com o narrador. "Ali no alto dessa estante" indica proximidade física — o lugar onde a sanfoninha está, perto do narrador. O trecho "ainda está aqui, ali no alto dessa estante" reforça a ideia de que o objeto está próximo e presente. Portanto, a alternativa D é a única que descreve com precisão o valor semântico de cada expressão.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que os segmentos "expressam, na ordem dada, uma proximidade física e uma distância temporal". Isso inverte os sentidos: o primeiro segmento ("quase seis décadas depois") indica tempo, não proximidade física; o segundo ("ali no alto dessa estante") indica lugar, não distância temporal. A alternativa troca os valores semânticos, o que a torna incorreta.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a leitura apressada: o candidato pode confundir "quase seis décadas depois" com distância temporal (em vez de permanência) e "ali no alto dessa estante" com distância física (em vez de proximidade). Fique atento ao valor exato de cada expressão.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de sentido de expressões adverbiais, pergunte-se: "quando?" (tempo), "onde?" (lugar), "como?" (modo), "quanto?" (intensidade). Isso ajuda a identificar a circunstância correta.
Gabarito: letra D — a única alternativa que descreve corretamente os sentidos de tempo e lugar, sem extrapolar ou inverter.