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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140448
Banca
FCC
Órgão
MPE SE
Ano
2026
Cargo
Ana ( )

[Em busca da origem da desigualdade social]

 

A pesquisa que culminou na escrita deste livro - O despertar de tudo - começou quase uma década atrás, basicamente como uma forma de brincadeira. No princípio, nós nos lançamos a isso, cabe reconhecer, num espírito de ligeiro desvio das nossas responsabilidades acadêmicas mais "sérias". Acima de tudo, estávamos curiosos para ver como as novas evidências arqueológicas que se acumularam nas três últimas décadas poderiam modificar nossas concepções dos primórdios da história humana, sobretudo os aspectos associados às discussões sobre as origens da desigualdade social.

 

Não demorou, contudo, para se tornar óbvio a potencial relevância do que estávamos empreendendo, pois quase ninguém mais em nossas disciplinas parece dedicado a esse trabalho de síntese. Com frequência ficamos surpresos ao buscar em vão por livros que supúnhamos existir, mas que na verdade sequer haviam sido escritos - por exemplo, compêndios das cidades primitivas desprovidas de governo fortes, exercidos de cima para baixo, ou relato de processos democráticos de tomada de decisão na África ou na América.

 

No final, concluímos que essa relutância em sintetizar informações básicas não se devia apenas a uma reticência por parte de pesquisadores: trata-se apenas da inexistência de uma linguagem apropriada para dar conta de determinadas estruturas sociais.

 

Como, por exemplo, nos referimos a uma "cidade desprovida de estruturas de governo de cima para baixo"?

 

No momento, ainda não há um termo de aceitação geral. Nos arriscaríamos a chamar isso de "democracia"? Ou "república"? Caberia dizer "cidade igualitária"? Mas isso implicaria o ônus de provar que a cidade era "de fato" igualitária - o que significaria, na prática, demonstrar que nenhum elemento de desigualdade estrutural estava presente em qualquer aspectos da vida de seus habitantes, incluindo grupos familiares e práticas religiosas. Dada a raridade, ou mesmo inexistência de tais evidências, seria inevitável e conclusão de que afinal essas cidades não tinham nada de igualitário. Trata-se, enfim, de considerar que a existência de civilizações originalmente não marcadas pela desigualdade social pode não ser mais do que um mito a ser desmontado.

 

(Adaptado de: GRAEBER, David, e WENGROW, David. O despertar de tudo.

São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 552)

Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.

   

A relutância em sintetizar informações básicas com que se depararam os autores do texto em sua pesquisa deveu-se, sobretudo.

  1. Aà falta de estrutura de algumas cidades desprovidas de um governo mais atuante.
  2. Bao fato de que as bases sociais eram tão assemelhadas que hão havia como distingui-las.
  3. Cà dificuldade de caracterizar e nomear com exatidão os fenômenos sociais investigado.
  4. Dàs penosas condições socioeconômicas enfrentadas pelos primeiros pesquisadores.
  5. Eà rudimentar tecnologia dos métodos explorados nas observações pioneiras.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — à dificuldade de caracterizar e nomear com exatidão os fenômenos sociais investigado.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A relutância em sintetizar e a falta de linguagem apropriada

Gabarito: letra C. A relutância em sintetizar informações básicas deveu-se, sobretudo, à dificuldade de caracterizar e nomear com exatidão os fenômenos sociais investigados, como se lê no 3º parágrafo: "trata-se apenas da inexistência de uma linguagem apropriada para dar conta de determinadas estruturas sociais". A alternativa C é a única que parafraseia fielmente essa passagem, enquanto as demais ou extrapolam ou contradizem o texto.

O comando: compreensão por recorrência

O enunciado pede que se identifique a causa da relutância em sintetizar informações básicas, conforme o texto. Isso é uma questão de compreensão (recorrência): a resposta está explícita no texto, apenas reescrita com outras palavras (paráfrase). Não se trata de inferir, deduzir ou completar com conhecimento de mundo — basta localizar a passagem que explica o motivo e compará-la com as alternativas.

O texto: a tese e o argumento central

O texto narra a pesquisa dos autores e, no 3º parágrafo, apresenta a conclusão central: a relutância em sintetizar não se devia apenas a uma reticência dos pesquisadores, mas sim à inexistência de uma linguagem apropriada para descrever certas estruturas sociais. O 4º e o 5º parágrafos desenvolvem exatamente essa ideia, mostrando a dificuldade de nomear fenômenos como "cidade desprovida de estruturas de governo de cima para baixo" — não há termo de aceitação geral, e qualquer tentativa ("democracia", "república", "cidade igualitária") esbarra em problemas conceituais.

"trata-se apenas da inexistência de uma linguagem apropriada para dar conta de determinadas estruturas sociais"

É essa a passagem que ancora a resposta: a dificuldade é de caracterização e nomeação dos fenômenos, exatamente o que afirma a alternativa C.

A técnica: parafrasear sem extrapolar

A armadilha central desta questão é a extrapolação: a banca oferece alternativas que soam plausíveis, mas que acrescentam informações que o texto não traz. O método é testar cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?". A correta é a única que se sustenta integralmente no que está escrito.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa afirma que a relutância se deveu "à falta de estrutura de algumas cidades desprovidas de um governo mais atuante". O texto menciona cidades sem governo forte, mas não diz que a falta de estrutura dessas cidades foi a causa da relutância em sintetizar. A causa apontada é a inexistência de linguagem apropriada, não a estrutura das cidades em si. A alternativa tangencia o tema (fala de cidades, que aparecem no texto) mas inverte a relação de causa: o problema não era a cidade, era a linguagem para descrevê-la.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que a relutância se deveu "ao fato de que as bases sociais eram tão assemelhadas que não havia como distingui-las". O texto não diz que as bases sociais eram assemelhadas; pelo contrário, a dificuldade era nomear estruturas diferentes (cidades sem governo, processos democráticos na África). Não há qualquer menção a "bases sociais assemelhadas" — a alternativa inventa uma informação que contradiz o teor do texto.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Paráfrase fiel. A alternativa afirma que a relutância se deveu "à dificuldade de caracterizar e nomear com exatidão os fenômenos sociais investigados". Isso corresponde exatamente ao 3º parágrafo:

"trata-se apenas da inexistência de uma linguagem apropriada para dar conta de determinadas estruturas sociais"

E ao 5º parágrafo, que desenvolve a dificuldade de nomear:

"No momento, ainda não há um termo de aceitação geral"

"Dificuldade de caracterizar e nomear" = "inexistência de linguagem apropriada"; "fenômenos sociais investigados" = "determinadas estruturas sociais". A alternativa reescreve o texto sem acrescentar nem suprimir nada.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa afirma que a relutância se deveu "às penosas condições socioeconômicas enfrentadas pelos primeiros pesquisadores". O texto não menciona condições socioeconômicas dos pesquisadores. Essa é uma informação completamente fora do escopo do texto — a banca apela para um clichê ("pesquisadores sofrem") que não tem qualquer apoio no que está escrito.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa afirma que a relutância se deveu "à rudimentar tecnologia dos métodos explorados nas observações pioneiras". O texto não fala de tecnologia ou métodos rudimentares. A pesquisa usava "novas evidências arqueológicas" (1º parágrafo), o que sugere tecnologia avançada, não rudimentar. A alternativa inventa uma causa que não está no texto e ainda a contradiz indiretamente.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que soam plausíveis (estrutura das cidades, condições dos pesquisadores, tecnologia), mas que extrapolam o texto. A única que se ancora em passagem explícita é a C.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, grife a passagem que responde ao enunciado antes de ler as alternativas. Depois, teste cada uma: "o texto diz isto, ou estou completando com o que eu acho?".

Gabarito: letra C. A relutância em sintetizar deveu-se à inexistência de linguagem apropriada para nomear as estruturas sociais — a dificuldade de caracterizar e nomear os fenômenos investigados.

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