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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140457
Banca
FCC
Órgão
MPE SE
Ano
2026
Cargo
Tec ( )

1. A senhora subiu, Deus sabe como, em companhia de dois garotos. Cada garoto com sua merendeira e sua pasta de livros e cadernos indispensáveis para a aquisição dos preliminares da sabedoria. No ônibus não cabia mais ninguém. A bem dizer, não cabia nem o pessoal que se espremia lá dentro em estado de sardinha. Na massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas.(b)

 

2. - Deixa que eu carrego - falei na direção de um dos braços a meu alcance, executando um movimento complicado, para enxergar os rostos dos garotos. O menor olhou-me com surpresa e hesitação, porém o mais velho estendeu o braço, e o primeiro, depois de uma cotovelada ministrada pelo segundo, imitou-o.(a) Fiquei de posse de duas bojudas pastas escolares, que acomodei da melhor maneira possível sobre os joelhos. Conheço perfeitamente a técnica de carregar embrulhos dos outros. Deve-se colocá-los de tal modo que fiquem seguros sem que seja necessário pôr a mão em cima deles. São coisas sagradas.

 

3. A voz da senhora saiu daquele bolo humano:

 

4. - Agradece ao moço, Serginho. Agradece, Raul.

 

5. Raul (o mais crescido) obedeceu, mas Serginho manteve-se reservado. Mal se passaram alguns minutos, senti que a pasta de cima escorregava mansamente do meu colo.(d) Muito de leve, a mão esquerda de Serginho, escondida sob um lenço, puxava-a para fora. Compreendi que ele prezava acima de tudo a sua pasta, e deixei que a tirasse. A mãe ordenou:

 

6. - Serginho, deixe a pasta com o moço!

 

7. Teve de levantar a voz, para torná-la enérgica. Passageiros em redor começaram a sorrir. Tive de sorrir também. Muito a contragosto, Serginho voltou a confiar-me sua querida pasta. Um estranho mereceria carregá-la? E se fugisse com ela? Como bem podem imaginar, Serginho suspeitava de minha honorabilidade, e os circunstantes se deliciavam com a suspeita.(c)

 

8. Mais alguns quarteirões, Serginho repete a manobra. Dessa vez, é radical. Toma sua pasta e a de Raul. Raul protesta:

 

9. - Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?(e)

 

10. A mãe, em apoio de Raul, exprobra o procedimento de Serginho. Este capitula, mas em termos. Só me restitui a pasta do irmão. A sua não correrá o risco. Coloca-a sobre o peito, sob as mãos cruzadas, como levaria o Santo Graal.

 

11. - Este menino é impossível. Desculpe, cavalheiro.

 

12. Não vejo o rosto da senhora, mas sua voz é doce, e compensa-me da desconfiança do Serginho. Sorrio para este, enquanto retribuo: "Oh, minha senhora, por favor! Até que o seu filhinho é engraçado."

 

13. Engraçado? Serginho faz-me uma careta e ferra-me um beliscão. A assistência ri. A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar. Bonito. É no que dá carregar embrulho dos outros.

 

(ANDRADE, Carlos Drummond de, 70 historinhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 105-107. Adaptado)

Considere a crônica "No ônibus", do escritor Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.     Em sua crônica, Drummond dirige-se explicitamente a seus leitores no seguinte trecho:
  1. AO menor olhou-se com surpresa e hesitação, porém o mais velho estendeu o braço, e o primeiro, depois de uma cotovelada ministrada pelo segundo, imitou-o.
  2. BNa massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas.
  3. CComo bem podem imaginar, Serginho suspeitava de minha honorabilidade, e os circunstantes se deliciavam com a suspeita.
  4. DMel se passaram alguns minutos, senti que a pasta de cima escorregava mansamente do meu colo.
  5. E- Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Como bem podem imaginar, Serginho suspeitava de minha honorabilidade, e os circunstantes se deliciavam com a suspeita.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A interpelação direta ao leitor na crônica de Drummond

Gabarito: letra C. A única passagem em que o narrador se dirige explicitamente aos leitores é "Como bem podem imaginar, Serginho suspeitava de minha honorabilidade, e os circunstantes se deliciavam com a suspeita" — o verbo "podem" está na 2ª pessoa do plural e o pronome "vocês" está implícito, criando um diálogo direto com quem lê. As demais alternativas narram fatos ou reproduzem falas de personagens, sem qualquer marca de interlocução com o leitor.

O comando pede que se identifique o trecho em que o autor "dirige-se explicitamente a seus leitores". Isso é uma questão de compreensão (recorrência): a resposta está literal no texto, bastando reconhecer a marca linguística da 2ª pessoa do plural. Não se trata de inferir nada além do que está escrito — é localizar a passagem em que o narrador quebra a narrativa e fala diretamente com o destinatário.

Na crônica, o narrador-personagem conta o episódio no ônibus em 1ª pessoa ("percebi", "falei", "senti"). Em meio à narração, há um momento em que ele se volta para o leitor: "Como bem podem imaginar". Essa expressão é típica da função conativa (ou apelativa) da linguagem, pois busca envolver o interlocutor, fazendo-o participar da cena. O verbo "podem" (2ª pessoa do plural) e o pronome oculto "vocês" são as pistas gramaticais que comprovam a interpelação.

As outras alternativas não apresentam esse recurso: ou descrevem ações (A, B, D) ou reproduzem a fala de um personagem (E). A banca, portanto, testa a capacidade de distinguir a voz do narrador da voz dos personagens e de perceber quando o narrador se dirige ao leitor.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece trechos que contêm palavras do texto, mas apenas um deles apresenta uma interpelação direta ao leitor, marcada pelo uso de "vocês" e pelo verbo no presente do indicativo.

1Marca linguística
Verbo na 2ª pessoa do plural ("podem")
Pronome "vocês" implícito
2Função da linguagem
Conativa (apelativa)
3Exemplo (gabarito)
"Como bem podem imaginar..."
4O que NÃO é interpelação
Narração pura (1ª pessoa)
Fala de personagem (diálogo)
Interpelação direta ao leitor
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Interpelação direta ao leitor: Marca linguística (Verbo na 2ª pessoa do plural ("podem"), Pronome "vocês" implícito); Função da linguagem (Conativa (apelativa)); Exemplo (gabarito) ("Como bem podem imaginar..."); O que NÃO é interpelação (Narração pura (1ª pessoa), Fala de personagem (diálogo))

Alternativa A — ❌ Incorreta

"O menor olhou-me com surpresa e hesitação, porém o mais velho estendeu o braço, e o primeiro, depois de uma cotovelada ministrada pelo segundo, imitou-o."

Este trecho é puramente narrativo: descreve a reação dos garotos ao gesto do narrador. Não há nenhuma marca de interlocução com o leitor — o narrador apenas relata o que viu. Erro: tangencia o tema (fala de algo que ocorre na cena, mas não do recurso pedido).

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Na massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas."

Aqui o narrador descreve a cena do ônibus, usando a 1ª pessoa ("percebi"), mas não se dirige ao leitor. É uma observação do ambiente, sem qualquer apelo ao interlocutor. Erro: tangencia o tema (é descrição, não interpelação).

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Como bem podem imaginar, Serginho suspeitava de minha honorabilidade, e os circunstantes se deliciavam com a suspeita."

A expressão "Como bem podem imaginar" é a chave: o verbo "podem" está na 2ª pessoa do plural, referindo-se a "vocês" (os leitores). O narrador interrompe a narrativa para dialogar com quem lê, convidando-o a imaginar a cena. É a única alternativa com interlocução explícita.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Mal se passaram alguns minutos, senti que a pasta de cima escorregava mansamente do meu colo."

Novamente, o narrador relata um fato em 1ª pessoa ("senti"), sem se dirigir ao leitor. É uma narração pura, sem marcas de interlocução. Erro: tangencia o tema.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"- Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?"

Esta é a fala de Raul, um personagem, dirigida a Serginho. Não é o narrador falando com o leitor, mas um diálogo entre personagens. Erro: troca de voz — confunde a fala de um personagem com a interpelação do narrador.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar interpelação direta, procure verbos na 2ª pessoa ("pode", "vês", "sabeis") ou pronomes como "você(s)". Eles são a marca gramatical do diálogo com o leitor.

Gabarito: letra C — a única passagem em que Drummond fala diretamente com o leitor, usando "Como bem podem imaginar".

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