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Questão de Português — Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre) — FCC 2026

PortuguêsTipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
Código
fc140485
Banca
FCC
Órgão
MPE SE
Ano
2026
Cargo
Tec ( )

1. A senhora subiu, Deus sabe como, em companhia de dois garotos. Cada garoto com sua merendeira e sua pasta de livros e cadernos indispensáveis para a aquisição dos preliminares da sabedoria. No ônibus não cabia mais ninguém. A bem dizer, não cabia nem o pessoal que se espremia lá dentro em estado de sardinha. Na massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas.(a)

 

2. - Deixa que eu carrego - falei na direção de um dos braços a meu alcance, executando um movimento complicado, para enxergar os rostos dos garotos.(c) O menor olhou-me com surpresa e hesitação, porém o mais velho estendeu o braço, e o primeiro, depois de uma cotovelada ministrada pelo segundo, imitou-o. Fiquei de posse de duas bojudas pastas escolares, que acomodei da melhor maneira possível sobre os joelhos. Conheço perfeitamente a técnica de carregar embrulhos dos outros. Deve-se colocá-los de tal modo que fiquem seguros sem que seja necessário pôr a mão em cima deles. São coisas sagradas.

 

3. A voz da senhora saiu daquele bolo humano:

 

4. - Agradece ao moço, Serginho. Agradece, Raul.

 

5. Raul (o mais crescido) obedeceu, mas Serginho manteve-se reservado. Mal se passaram alguns minutos, senti que a pasta de cima escorregava mansamente do meu colo. Muito de leve, a mão esquerda de Serginho, escondida sob um lenço, puxava-a para fora. Compreendi que ele prezava acima de tudo a sua pasta, e deixei que a tirasse. A mãe ordenou:

 

6. - Serginho, deixe a pasta com o moço!

 

7. Teve de levantar a voz, para torná-la enérgica. Passageiros em redor começaram a sorrir. Tive de sorrir também. Muito a contragosto, Serginho voltou a confiar-me sua querida pasta. Um estranho mereceria carregá-la?(b) E se fugisse com ela? Como bem podem imaginar, Serginho suspeitava de minha honorabilidade, e os circunstantes se deliciavam com a suspeita.

 

8. Mais alguns quarteirões, Serginho repete a manobra. Dessa vez, é radical. Toma sua pasta e a de Raul. Raul protesta:

 

9. - Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?(d)

 

10. A mãe, em apoio de Raul, exprobra o procedimento de Serginho. Este capitula, mas em termos. Só me restitui a pasta do irmão. A sua não correrá o risco. Coloca-a sobre o peito, sob as mãos cruzadas, como levaria o Santo Graal.

 

11. - Este menino é impossível. Desculpe, cavalheiro.

 

12. Não vejo o rosto da senhora, mas sua voz é doce, e compensa-me da desconfiança do Serginho. Sorrio para este, enquanto retribuo: "Oh, minha senhora, por favor! Até que o seu filhinho é engraçado."(e)

 

13. Engraçado? Serginho faz-me uma careta e ferra-me um beliscão. A assistência ri. A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar. Bonito. É no que dá carregar embrulho dos outros.

 

(ANDRADE, Carlos Drummond de, 70 historinhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 105-107. Adaptado)

Considere a crônica "No ônibus", do escritor Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.     No chamado discurso indireto livre, a voz de um personagem mescla-se intimamente à voz do cronista, a exemplo do que ocorre no seguinte trecho:
  1. ANa massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas.
  2. BMuito a contragosto, Serginho voltou a confiar-me sua querida pasta. Um estranho mereceria carregá-la? E se fugisse com ela?
  3. C- Deixa que eu carrego - falei na direção de um dos braços a meu alcance, executando um movimento complicado, para enxergar os rostos dos garotos.
  4. DRaul protesta: - Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?
  5. ESorrio para este, enquanto retribuo: "Oh, minha senhora, por favor! Até que o seu filhinho é engraçado."
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GabaritoB — Muito a contragosto, Serginho voltou a confiar-me sua querida pasta. Um estranho mereceria carregá-la? E se fugisse com ela?

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Discurso indireto livre: a voz do personagem dentro da narração

Gabarito: letra B. O trecho em que a voz do personagem se mescla à do cronista é o da alternativa B, pois as perguntas "Um estranho mereceria carregá-la? E se fugisse com ela?" não são do narrador, mas do pensamento de Serginho, inseridas sem marcação alguma dentro da narração em 3ª pessoa. Como se lê no parágrafo 7: "Muito a contragosto, Serginho voltou a confiar-me sua querida pasta. Um estranho mereceria carregá-la? E se fugisse com ela?" — a interrogação é a pista clássica do discurso indireto livre.

O comando pede que você identifique o discurso indireto livre, um dos três tipos de discurso (direto, indireto e indireto livre). A diferença entre eles está em quem fala e como a fala é apresentada:

  • Discurso direto: a personagem fala por si, com verbos de elocução (disse, falou, retrucou), travessão, aspas ou dois-pontos. É a transcrição literal da fala.

  • Discurso indireto: o narrador reproduz a fala da personagem com suas próprias palavras, geralmente em oração subordinada substantiva introduzida por "que" ou "se".

  • Discurso indireto livre: a fala ou o pensamento da personagem surge dentro da narração, sem verbos de elocução, sem travessão, sem aspas, sem conjunção. Não há marca que separe a voz do narrador da voz da personagem — elas se fundem. É como se o narrador "emprestasse" sua voz ao personagem.

A técnica para resolver: procure o trecho em que há uma pergunta, exclamação ou pensamento que não pode ser do narrador, mas sim da personagem, e que não esteja marcado por travessão, aspas ou verbo de elocução. A interrogação é o sinal mais comum, como aponta o material de apoio: "na maioria das provas, o discurso indireto livre vem pontuado por ponto de exclamação ou interrogação".

No texto, o narrador (o cronista) conta que Serginho, contrariado, devolveu a pasta. Em seguida, vêm duas perguntas: "Um estranho mereceria carregá-la? E se fugisse com ela?". Essas perguntas não são do narrador — ele não está duvidando de si mesmo. São os pensamentos de Serginho, que desconfia do "moço" que vai carregar sua pasta. O narrador as incorpora à narração sem nenhuma marca, criando a mescla de vozes típica do discurso indireto livre.

"Muito a contragosto, Serginho voltou a confiar-me sua querida pasta. Um estranho mereceria carregá-la? E se fugisse com ela? Como bem podem imaginar, Serginho suspeitava de minha honorabilidade"

A prova de que a pergunta é de Serginho está na frase seguinte: "Serginho suspeitava de minha honorabilidade". O narrador confirma que a desconfiança era do menino, não dele. As perguntas são a materialização dessa suspeita, em discurso indireto livre.

Tipo de Discurso

Quem fala

Como é apresentado

Marcação típica

Direto

A personagem fala por si

Transcrição literal da fala

Travessão, aspas, dois-pontos, verbos de elocução (disse, falou, retrucou)

Indireto

O narrador reproduz a fala com suas próprias palavras

Oração subordinada substantiva

Conjunções "que" ou "se"

Indireto livre

A voz do personagem mescla-se à do narrador

Fala/pensamento surge dentro da narração, sem separação

Nenhuma (sem travessão, aspas, verbo de elocução ou conjunção); frequentemente com interrogação ou exclamação

1Voz do personagem na narração
Sem travessão
Sem aspas
Sem verbo de elocução
2Pistas típicas
Interrogação
Exclamação
3Exemplo (letra B)
"Um estranho mereceria carregá-la?"
"E se fugisse com ela?"
Discurso indireto livre
LEVELsoulevel.com.br
Discurso indireto livre: Voz do personagem na narração (Sem travessão, Sem aspas, Sem verbo de elocução); Pistas típicas (Interrogação, Exclamação); Exemplo (letra B) ("Um estranho mereceria carregá-la?", "E se fugisse com ela?")

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Na massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas."

Este trecho é narração pura, em 1ª pessoa ("percebi"), sem qualquer fala ou pensamento de personagem. Não há mescla de vozes — é apenas a descrição do narrador sobre o que viu. Erro: não há discurso indireto livre, pois não há voz de personagem alguma.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Muito a contragosto, Serginho voltou a confiar-me sua querida pasta. Um estranho mereceria carregá-la? E se fugisse com ela?"

As duas perguntas são o pensamento de Serginho, inserido na narração sem marcação. O narrador começa contando o fato ("Serginho voltou a confiar-me") e, de repente, as perguntas surgem — são a voz do menino, que desconfia do estranho. A frase seguinte confirma: "Serginho suspeitava de minha honorabilidade". É o exemplo perfeito de discurso indireto livre: a voz do personagem mescla-se à do cronista.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"- Deixa que eu carrego - falei na direção de um dos braços a meu alcance, executando um movimento complicado, para enxergar os rostos dos garotos."

Aqui há discurso direto: a fala do narrador-personagem é marcada por travessão ("- Deixa que eu carrego") e introduzida pelo verbo de elocução "falei". Não há mescla de vozes — a fala está claramente separada da narração. Erro: é discurso direto, não indireto livre.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Raul protesta: - Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?"

Também é discurso direto: a fala de Raul é introduzida pelo verbo de elocução "protesta" e marcada por travessão. A pergunta "Não vê que eu não posso segurar nada?" é de Raul, mas está claramente separada da narração. Erro: é discurso direto, com marcas explícitas de separação.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Sorrio para este, enquanto retribuo: \"Oh, minha senhora, por favor! Até que o seu filhinho é engraçado.\""

Aqui há discurso direto: a fala do narrador-personagem é introduzida pelo verbo de elocução "retribuo" e marcada por aspas. Não há mescla de vozes — a fala está claramente separada da narração. Erro: é discurso direto, não indireto livre.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura trechos de discurso direto (com travessão, aspas e verbos de elocução) com o único trecho de discurso indireto livre. A armadilha é o candidato marcar qualquer trecho com pergunta ou fala, sem perceber que no indireto livre não há marcação alguma.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar discurso indireto livre, pergunte: "essa pergunta/pensamento é do narrador ou da personagem?" Se for da personagem e não houver travessão, aspas ou verbo de elocução, é indireto livre.

Gabarito: letra B — a única alternativa em que a voz de Serginho surge espontaneamente dentro da narração, sem marcas de separação, caracterizando o discurso indireto livre.

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