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Questão de Português — Funções Sintáticas dos Pronomes Relativos — FCC 2026

PortuguêsFunções Sintáticas dos Pronomes Relativos
Código
fc140491
Banca
FCC
Órgão
MPE SE
Ano
2026
Cargo
Tec ( )

1. A senhora subiu, Deus sabe como, em companhia de dois garotos. Cada garoto com sua merendeira e sua pasta de livros e cadernos indispensáveis para a aquisição dos preliminares da sabedoria. No ônibus não cabia mais ninguém. A bem dizer, não cabia nem o pessoal que se espremia lá dentro em estado de sardinha. Na massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas.

 

2. - Deixa que eu carrego - falei na direção de um dos braços a meu alcance, executando um movimento complicado, para enxergar os rostos dos garotos. O menor olhou-me com surpresa e hesitação, porém o mais velho estendeu o braço, e o primeiro, depois de uma cotovelada ministrada pelo segundo, imitou-o. Fiquei de posse de duas bojudas pastas escolares, que acomodei da melhor maneira possível sobre os joelhos. Conheço perfeitamente a técnica de carregar embrulhos dos outros. Deve-se colocá-los de tal modo que fiquem seguros sem que seja necessário pôr a mão em cima deles. São coisas sagradas.

 

3. A voz da senhora saiu daquele bolo humano:

 

4. - Agradece ao moço, Serginho. Agradece, Raul.

 

5. Raul (o mais crescido) obedeceu, mas Serginho manteve-se reservado. Mal se passaram alguns minutos, senti que a pasta de cima escorregava mansamente do meu colo.(b) Muito de leve, a mão esquerda de Serginho, escondida sob um lenço, puxava-a para fora. Compreendi que ele prezava acima de tudo a sua pasta, e deixei que a tirasse.(c) e (d) A mãe ordenou:

 

6. - Serginho, deixe a pasta com o moço!

 

7. Teve de levantar a voz, para torná-la enérgica. Passageiros em redor começaram a sorrir. Tive de sorrir também. Muito a contragosto, Serginho voltou a confiar-me sua querida pasta. Um estranho mereceria carregá-la? E se fugisse com ela? Como bem podem imaginar, Serginho suspeitava de minha honorabilidade, e os circunstantes se deliciavam com a suspeita.

 

8. Mais alguns quarteirões, Serginho repete a manobra. Dessa vez, é radical. Toma sua pasta e a de Raul. Raul protesta:

 

9. - Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?(a)

 

10. A mãe, em apoio de Raul, exprobra o procedimento de Serginho. Este capitula, mas em termos. Só me restitui a pasta do irmão. A sua não correrá o risco. Coloca-a sobre o peito, sob as mãos cruzadas, como levaria o Santo Graal.

 

11. - Este menino é impossível. Desculpe, cavalheiro.

 

12. Não vejo o rosto da senhora, mas sua voz é doce, e compensa-me da desconfiança do Serginho. Sorrio para este, enquanto retribuo: "Oh, minha senhora, por favor! Até que o seu filhinho é engraçado."

 

13. Engraçado? Serginho faz-me uma careta e ferra-me um beliscão. A assistência ri. A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar.(e) Bonito. É no que dá carregar embrulho dos outros.

 

(ANDRADE, Carlos Drummond de, 70 historinhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 105-107. Adaptado)

Considere a crônica "No ônibus", do escritor Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.

   

Retorna um termo mencionado anteriormente na crônica a palavra sublinha em:

  1. A- Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?
  2. BMal se passaram alguns minutos, senti que a pasta de cima escorregava mansamente do meu colo.
  3. CCompreendi que ele prezava acima de tudo a sua pasta, e deixei que a tirasse.
  4. DCompreendi que ele prezava acima de tudo a sua pasta, e deixei que a tirasse.
  5. EA mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O pronome relativo "que" e a retomada anafórica na crônica

Gabarito: letra E. A única alternativa em que a palavra sublinhada retoma um termo mencionado anteriormente é a E, pois o "que" em "que dispara a chorar" é pronome relativo e retoma "Serginho", como se lê no trecho: "A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar." As demais alternativas ou usam "que" como conjunção integrante (sem retomada) ou retomam um termo que não é o antecedente imediato, o que foge ao que o enunciado pede.

O comando: o que a banca pede

O enunciado é claro: "Retorna um termo mencionado anteriormente na crônica a palavra sublinhada em:". Isso é uma questão de coesão referencial — mais especificamente, de retomada anafórica por pronome relativo. A banca quer que você identifique em qual alternativa o "que" (ou outra palavra sublinhada) substitui um termo já dito, evitando repetição. Não se trata de interpretação de sentido, mas de função sintática e referencial do pronome.

O texto: onde mora a resposta

Na crônica, o narrador conta o episódio no ônibus com os dois garotos, Serginho e Raul. No trecho final, a mãe "ferra outro em Serginho", e o menino "dispara a chorar". A oração "que dispara a chorar" é uma oração subordinada adjetiva introduzida pelo pronome relativo "que", que retoma "Serginho" — é ele quem chora. Essa é a retomada anafórica clássica: o pronome substitui o substantivo anterior.

A técnica: como identificar o pronome relativo

Para resolver, use a "receita de bolo" do pronome relativo:

  1. Substitua o "que" pelo seu antecedente — se a frase continuar fazendo sentido, é pronome relativo.

  2. Verifique se ele introduz uma oração adjetiva (que caracteriza o antecedente).

  3. Confira se ele exerce função sintática dentro da oração que introduz.

No caso da alternativa E: "A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar." Substituindo: "Serginho dispara a chorar." Faz sentido, e o "que" exerce função de sujeito da oração "disparar a chorar". Portanto, é pronome relativo com retomada anafórica.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Deixa com ele, seu burro. Não vê que eu não posso segurar nada?"

Aqui, o "que" é conjunção subordinativa integrante — introduz uma oração subordinada substantiva objetiva direta ("que eu não posso segurar nada"). Ele não retoma termo anterior; apenas liga a oração principal à subordinada. Erro: troca de conceito — confunde conjunção integrante com pronome relativo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Mal se passaram alguns minutos, senti que a pasta de cima escorregava mansamente do meu colo."

Aqui, o "que" também é conjunção subordinativa integrante — introduz oração subordinada substantiva objetiva direta ("que a pasta de cima escorregava"). Não há retomada de termo anterior. Erro: troca de conceito — mesmo equívoco da alternativa A.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Compreendi que ele prezava acima de tudo a sua pasta, e deixei que a tirasse."

Aqui, o "que" é conjunção subordinativa integrante — introduz oração subordinada substantiva objetiva direta ("que ele prezava acima de tudo a sua pasta"). Não há retomada de termo anterior. Erro: troca de conceito — mesmo equívoco das alternativas A e B.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Compreendi que ele prezava acima de tudo a sua pasta, e deixei que a tirasse."

Idêntica à alternativa C — o "que" é conjunção subordinativa integrante, sem retomada. Erro: troca de conceito — mesmo equívoco das anteriores.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"A mãe ferra outro em Serginho, que dispara a chorar."

Aqui, o "que" é pronome relativo — retoma "Serginho" e introduz a oração subordinada adjetiva "que dispara a chorar". Substituindo: "Serginho dispara a chorar." O pronome exerce função de sujeito da oração adjetiva. É a única alternativa em que a palavra sublinhada retoma um termo mencionado anteriormente.

Conclusão

A questão testa a distinção entre conjunção integrante (que liga orações sem retomar termo) e pronome relativo (que retoma termo anterior e exerce função sintática). A alternativa E é a única que apresenta pronome relativo com retomada anafórica. Gabarito: letra E.

PEGA ESSA DICA!

Para diferenciar, substitua o "que" pelo antecedente. Se a frase continuar fazendo sentido, é pronome relativo; se não, é conjunção integrante.

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