Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140503
Banca
FCC
Órgão
SAD PE
Ano
2026
Cargo
Ges Gov ( )
O artista que nos ocupa
Um artista não entra sozinho na tua vida. O que ele melhor inventa fica com você. Quando criança, você não terá lido a história daquele Pedrinho que passava as férias no sítio do Picapau Amarelo, da sua avó? Sim? Pois aquele sítio, aquele menino e aquela avó, assim como muitas das peripécias daquela história, vieram ficar com você para sempre, não foi? Vivas imagens que ficaram te acompanhando pela vida.
Assim fazem conosco os grandes artistas, não importa qual arte enobreçam. As criações mais marcantes deles ficam sendo também suas. Vocês passam a morar na mesma casa, no mesmo quarto, em regimes alternados de ocupação: enquanto um dorme e sonha, o outro vai pra rua. E tanto vão se cruzando na vida comum, que as melancolias cantadas por um podem se misturar com momentos festivos do outro. Em certas viagens, não se pode saber se o trem estará chegando ou estará partindo, para qual ou de qual estação.
Dessa forma, amigo, quando você ficar velho, mas muito velho mesmo, o seu artista fingirá que também envelheceu. Ele é capaz de inventar uma rouquidão ou uma tosse, como as suas, pra melhor lhe fazer companhia. E você já sabe: faz parte da arte do artista fingir que quem sabe morrer é ele, só para que você se distraia e distraia esse seu medo, cantando como ele canta.
Quando um artista entra de fato na sua vida, com o melhor de sua arte, não sai mais. E é por causa dele que você nunca se sentirá inteiramente só. Pelo contrário: nos momentos em que a solidão infeliz ameaçar entrar em você para não sair mais, não hesite: chame o seu artista, o artista que ficou morando dentro de você. Ele irá à porta da casa e dirá à dona solidão: - Desculpe, senhora, mas no momento meu amigo está ocupado, não pode receber ninguém. Quer deixar recado?
(Josimar de Alcântara, a editar)
Para responder à questão abaixo, baseia-se no texto seguinte:
As expressões melancolias cantadas / momentos festivos e se o trem estará chegando / ou estará partindo atestam que a relação entre o grande artista criador e seu receptor
Aé apenas imaginária.
Bdeixa clara a superioridade de um sobre o outro.
Ccompõe sempre uma aparente e indivisível unidade.
Dse enfraquece com o tempo.
Epassa também por dinâmicas contraposições.
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GabaritoE — passa também por dinâmicas contraposições.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
A relação entre o artista e o receptor: dinâmicas contraposições
Gabarito: letra E. As expressões citadas no enunciado — "melancolias cantadas / momentos festivos" e "se o trem estará chegando / ou estará partindo" — atestam que a relação entre o grande artista criador e seu receptor passa também por dinâmicas contraposições, pois ambas as duplas apresentam pares de ideias opostas que convivem na mesma experiência. A passagem que ancora essa leitura está no 2º parágrafo: "as melancolias cantadas por um podem se misturar com momentos festivos do outro" e "não se pode saber se o trem estará chegando ou estará partindo".
O comando pede uma interpretação — não uma informação literal, mas uma dedução ancorada em pistas do texto. A técnica é: identificar os pares antitéticos e verificar o que eles revelam sobre a relação artista-receptor. O texto não diz que a relação é apenas imaginária, nem que há superioridade de um sobre o outro, nem que forma unidade indivisível, nem que se enfraquece com o tempo — todas essas são extrapolações. A única leitura sustentada é a de que a relação é marcada por contraposições dinâmicas: melancolia × festa, chegada × partida, dormir × ir para a rua.
O texto desenvolve a tese de que o artista "entra" na vida do receptor e lá permanece, criando uma convivência íntima. Mas essa convivência não é estática ou homogênea: ela é feita de alternâncias e oposições que se complementam. O 2º parágrafo é o coração da questão: "Vocês passam a morar na mesma casa, no mesmo quarto, em regimes alternados de ocupação: enquanto um dorme e sonha, o outro vai pra rua." Aqui já aparece a primeira contraposição (dormir × sair). Em seguida: "as melancolias cantadas por um podem se misturar com momentos festivos do outro" — melancolia × festa. E o fecho: "não se pode saber se o trem estará chegando ou estará partindo" — chegada × partida. O autor constrói a relação como um jogo de opostos que se alternam, não como algo fixo ou hierárquico.
A armadilha central desta questão é a extrapolação com aparência de fidelidade. As alternativas A, B, C e D pegam elementos reais do texto (a imaginação, a intimidade, a permanência) e os levam além do que está escrito, acrescentando juízos que o autor não emitiu. A alternativa E, por sua vez, é a única que se limita a descrever o mecanismo que as expressões citadas evidenciam: a contraposição. Repare que o enunciado não pergunta "o que é a relação", mas "o que as expressões atestam" — ou seja, a resposta deve descrever o efeito de sentido produzido pelos pares opostos, não uma característica absoluta da relação.
PEGA ESSA DICA!
Quando o enunciado citar expressões e perguntar "o que elas atestam", procure o padrão que elas formam (oposição, causa, comparação) e teste cada alternativa perguntando: "o texto AUTORIZA isto, ou exige acrescentar algo de fora?".
Relação artista-receptor: O que o texto afirma (Convivência íntima, Alternância de opostos, Permanência (não sai mais)); Contraposições citadas (Melancolia × festa, Chegada × partida, Dormir × sair); O que o texto NÃO afirma (Apenas imaginária, Superioridade de um, Unidade indivisível, Enfraquecimento com o tempo)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto fala de "vivas imagens que ficaram te acompanhando pela vida" e de "regimes alternados de ocupação", o que pode sugerir um componente imaginário. Mas dizer que a relação é apenas imaginária é um salto: o texto a descreve como uma convivência real, com "o artista que ficou morando dentro de você" e que "irá à porta da casa" para atender a solidão. O advérbio "apenas" restringe indevidamente o alcance — o texto não limita a relação ao imaginário; ele a apresenta como uma presença que se manifesta na vida concreta do receptor.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: opinião embutida / contradiz o texto. Nenhuma passagem sustenta superioridade de um sobre o outro. Pelo contrário, o texto descreve uma relação de parceria e alternância: "enquanto um dorme e sonha, o outro vai pra rua" — os dois se revezam, sem hierarquia. A ideia de superioridade é um juízo de valor que o candidato pode projetar (o artista como "gênio", o receptor como "admirador"), mas o autor não a externa. A relação é de companhia mútua: o artista "finge que também envelheceu" para "melhor lhe fazer companhia".
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: restrição por absoluto. O texto mostra alternância e mistura de opostos, não uma unidade "indivisível". A palavra "sempre" e o adjetivo "indivisível" são absolutos que o texto não autoriza. O 2º parágrafo é explícito: "em regimes alternados de ocupação" — ou seja, há divisão, revezamento, não fusão perfeita. A relação é de contraposição dinâmica, não de unidade estática. A alternativa C captura a intimidade ("morar na mesma casa") mas a leva a um extremo que o texto não afirma.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O 4º parágrafo afirma o oposto: "Quando um artista entra de fato na sua vida, com o melhor de sua arte, não sai mais." A relação não se enfraquece com o tempo; ela se perpetua. O texto ainda acrescenta que, na velhice, o artista "fingirá que também envelheceu" para continuar fazendo companhia — ou seja, a relação se fortalece ou, no mínimo, se mantém. A alternativa D inverte o sentido do texto ao sugerir um declínio que não existe.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A única sustentada pelo texto. As expressões citadas formam pares de opostos: "melancolias cantadas" × "momentos festivos" e "trem estará chegando" × "estará partindo". O texto as apresenta como convivendo na mesma relação: "as melancolias cantadas por um podem se misturar com momentos festivos do outro" e "não se pode saber se o trem estará chegando ou estará partindo". A palavra "dinâmicas" é precisa: não são oposições estáticas, mas alternâncias que se revezam — como o "regimes alternados de ocupação" do 2º parágrafo. A alternativa E descreve exatamente o mecanismo que as expressões evidenciam, sem acrescentar nada que o texto não diga.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tentação de transformar elementos reais do texto (imaginação, intimidade, permanência) em características absolutas da relação. A correta não é a mais "bonita" ou "profunda", mas a que descreve com precisão o padrão de oposição que as expressões citadas formam.
Conclusão: a questão ensina a diferença entre descrever o mecanismo (o que as expressões fazem) e atribuir características (o que a relação é). A resposta certa é a que se limita ao que o texto autoriza: a relação passa por dinâmicas contraposições — melancolia × festa, chegada × partida — sem que o autor afirme que ela é apenas imaginária, hierárquica, indivisível ou enfraquecida.