Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140506
Banca
FCC
Órgão
SAD PE
Ano
2026
Cargo
Ges Gov ( )
O artista que nos ocupa
Um artista não entra sozinho na tua vida. O que ele melhor inventa fica com você. Quando criança, você não terá lido a história daquele Pedrinho que passava as férias no sítio do Picapau Amarelo, da sua avó? Sim? Pois aquele sítio, aquele menino e aquela avó, assim como muitas das peripécias daquela história, vieram ficar com você para sempre, não foi? Vivas imagens que ficaram te acompanhando pela vida.
Assim fazem conosco os grandes artistas, não importa qual arte enobreçam. As criações mais marcantes deles ficam sendo também suas. Vocês passam a morar na mesma casa, no mesmo quarto, em regimes alternados de ocupação: enquanto um dorme e sonha, o outro vai pra rua. E tanto vão se cruzando na vida comum, que as melancolias cantadas por um podem se misturar com momentos festivos do outro. Em certas viagens, não se pode saber se o trem estará chegando ou estará partindo, para qual ou de qual estação.
Dessa forma, amigo, quando você ficar velho, mas muito velho mesmo, o seu artista fingirá que também envelheceu. Ele é capaz de inventar uma rouquidão ou uma tosse, como as suas, pra melhor lhe fazer companhia. E você já sabe: faz parte da arte do artista fingir que quem sabe morrer é ele, só para que você se distraia e distraia esse seu medo, cantando como ele canta.
Quando um artista entra de fato na sua vida, com o melhor de sua arte, não sai mais. E é por causa dele que você nunca se sentirá inteiramente só. Pelo contrário: nos momentos em que a solidão infeliz ameaçar entrar em você para não sair mais, não hesite: chame o seu artista, o artista que ficou morando dentro de você. Ele irá à porta da casa e dirá à dona solidão: - Desculpe, senhora, mas no momento meu amigo está ocupado, não pode receber ninguém. Quer deixar recado?
(Josimar de Alcântara, a editar)
Para responder à questão abaixo, baseia-se no texto seguinte:
Fingirá que também envelheceu ou fingir que quem sabe morrer é ele (3º parágrafo) são expressões em que o autor do texto
Aconsidera a efemeridade de tudo, ainda quando a arte simula resistir ao tempo.
Brevela os artifícios de que se vale o artista para justificar seu direito à imortalidade.
Cafirma a disposição criativa do artista para compartilhar conosco os limites humanos.
Ddenuncia como uma ilusão o contrato de imortalidade que o artista forja com seu público.
Epondera como a imortalidade de um artista independe da intensidade de sua arte.
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GabaritoC — afirma a disposição criativa do artista para compartilhar conosco os limites humanos.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
A arte de fingir: o artista que compartilha a condição humana
Gabarito: letra C. As expressões "fingirá que também envelheceu" e "fingir que quem sabe morrer é ele" revelam a disposição criativa do artista para compartilhar conosco os limites humanos — ele simula envelhecer e morrer para nos fazer companhia e distrair nosso medo, como se lê no 3º parágrafo: "Ele é capaz de inventar uma rouquidão ou uma tosse, como as suas, pra melhor lhe fazer companhia" e "faz parte da arte do artista fingir que quem sabe morrer é ele, só para que você se distraia e distraia esse seu medo". A alternativa C é a única que capta essa intenção de solidariedade afetiva, sem acrescentar juízos sobre efemeridade, imortalidade ou ilusão que o texto não sustenta.
O comando: interpretação de expressões no contexto
O enunciado pede que se interprete o sentido de duas expressões do 3º parágrafo — não uma paráfrase literal, mas o que elas significam no conjunto do texto. Isso é típico de questão de compreensão com carga inferencial: a resposta não está escrita palavra por palavra, mas é uma dedução ancorada em pistas textuais (o que o autor diz que o artista faz e com que finalidade). A técnica é: localizar o trecho, identificar a intenção declarada e testar cada alternativa contra essa intenção, eliminando as que extrapolam ou invertem o sentido.
O texto: a tese da companhia afetiva
O texto de Josimar de Alcântara desenvolve uma ideia central: o grande artista não sai da nossa vida; ele passa a morar conosco e, por isso, nunca nos sentimos inteiramente sós. No 3º parágrafo, essa tese ganha um desdobramento comovente: quando envelhecemos, o artista finge envelhecer junto — inventa uma rouquidão, uma tosse — e finge que quem sabe morrer é ele, tudo "só para que você se distraia e distraia esse seu medo". O verbo "fingir" aqui não tem conotação negativa de engano; é a arte da solidariedade: o artista assume os limites humanos (velhice, morte) para nos confortar. É essa a chave de leitura.
A técnica: distinguir a intenção declarada da opinião externa
A armadilha central desta questão é a extrapolação com juízo de valor. As alternativas A, B, D e E introduzem ideias que não estão no texto — efemeridade, direito à imortalidade, denúncia de ilusão, independência da intensidade da arte — e que soam filosóficas ou críticas, mas não correspondem ao que o autor afirma. O texto não discute se a arte resiste ao tempo (A), não fala em "direito à imortalidade" (B), não denuncia nenhum contrato ilusório (D) e não pondera sobre a intensidade da arte (E). A única alternativa que repete a intenção declarada — compartilhar os limites humanos para fazer companhia — é a C.
"Ele é capaz de inventar uma rouquidão ou uma tosse, como as suas, pra melhor lhe fazer companhia. E você já sabe: faz parte da arte do artista fingir que quem sabe morrer é ele, só para que você se distraia e distraia esse seu medo, cantando como ele canta."
A passagem é decisiva: o artista inventa (cria) os sinais de velhice e finge a própria morte para fazer companhia e distrair o medo do outro. Isso é exatamente "compartilhar conosco os limites humanos" — não por vaidade ou ilusão, mas por disposição criativa (a arte de fingir) a serviço do conforto alheio.
Fingir envelhecer/morrer (3º parágrafo): Intenção declarada (Fazer companhia, Distrair o medo do outro); Natureza do gesto (Disposição criativa (arte de fingir), Compartilha limites humanos); O que NÃO é (Reflexão sobre efemeridade, Justificar imortalidade, Denunciar ilusão, Ponderação estética)
Alternativa A — ❌ Incorreta
"considera a efemeridade de tudo, ainda quando a arte simula resistir ao tempo."
Erro: extrapolação. O texto não discute a efemeridade das coisas nem afirma que a arte simula resistir ao tempo. A ideia de "efemeridade" é um clichê filosófico que o candidato pode projetar no texto, mas não há nenhuma passagem que a sustente. O foco do 3º parágrafo é a companhia afetiva, não uma reflexão sobre a transitoriedade.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"revela os artifícios de que se vale o artista para justificar seu direito à imortalidade."
Erro: extrapolação + troca de sentido. O texto fala em "fingir" como recurso de conforto, não como "artifício para justificar direito à imortalidade". A palavra "direito" e a ideia de "justificar" são completamente estranhas ao texto — o artista não busca imortalidade; ele simula a mortalidade para nos consolar. A alternativa inverte a direção do fingimento.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"afirma a disposição criativa do artista para compartilhar conosco os limites humanos."
Correta. A passagem citada prova: o artista "inventa" (disposição criativa) uma rouquidão ou tosse "pra melhor lhe fazer companhia" e "finge que quem sabe morrer é ele" para distrair o medo do outro. Isso é compartilhar os limites humanos (velhice, morte) — não para enganar, mas para estar junto. A alternativa é uma paráfrase fiel da intenção declarada.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"denuncia como uma ilusão o contrato de imortalidade que o artista forja com seu público."
Erro: contradiz o texto + opinião embutida. O texto não denuncia nada; o tom é afetuoso e consolador, não crítico. A ideia de "contrato de imortalidade" e de "ilusão" é uma construção do examinador, não do autor. O artista não forja contrato algum — ele finge morrer para nos proteger, o que é o oposto de uma denúncia.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"pondera como a imortalidade de um artista independe da intensidade de sua arte."
Erro: fuga ao tema. O texto não pondera sobre imortalidade nem sobre a intensidade da arte. Essa é uma discussão estética que não aparece em nenhum parágrafo. A alternativa tangencia o assunto (arte, artista) mas trata de uma questão que o texto não aborda.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece alternativas que soam "profundas" (efemeridade, imortalidade, ilusão) para atrair quem lê com preconceitos filosóficos. A correta é a mais modesta e literal — a que repete a intenção declarada no texto.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de interpretação de expressões, pergunte sempre: "qual é a intenção que o autor declara para esse gesto?" A resposta certa quase sempre repete essa intenção com outras palavras; as erradas acrescentam motivações que o texto não menciona.
Gabarito: letra C. A regra de ouro: a alternativa correta é a única inteiramente sustentada pelo texto — nem mais (extrapolação), nem menos (omissão) do que ele diz. As demais ou acrescentam ideias externas (A, B, E) ou invertem o tom do texto (D).