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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140513
Banca
FCC
Órgão
MPE SE
Ano
2026
Cargo
Tec ( )

Nós poderíamos ter sido grandes amigos.

 

Eu o convidaria para um jantar sábado à noite, aqui em nosso apartamento, serviríamos um magnífico pernil de cordeiro acomodado em ramos de alecrim, um honesto Quinta da Bacalhoa, e ouviríamos, encantados, o último disco do Chico Buarque, uma coletânea da Dinah Washington, uma outra cantora que agora me foge o nome, adquirida na Tower Records, em Londres.

 

Seríamos apresentados à sua esposa, já vislumbrada rapidamente na piscina, e, uma ou duas taças, deixaríamos o sofá de veludo espanhol amarelo pelas duras e ásperas cadeiras de palha da cozinha, não tão grande quanto era nosso desejo, para ajudar a Célia, avental motivos-surrealistas, cuidando do assado e da salada. Eu lavaria a louça, ele e a mulher arrumariam a mesa, toalha, talheres, copos, descansos. Após o jantar, de novo esparramados no conforto da sala, nos perderíamos no torvelinho das conversas e, madrugada, quando já nem mais ânimo tivéssemos para trocar o cadê, a rua ausente de carros, uma leve por as crianças estarem na casa de algum coleguinha ou de parentes, se imiscuiria em nosso último assunto, e nos despediríamos, prometendo nos frequentar com alguma assiduidade.

 

O tempo solidificaria a relação.

 

Trocaríamos e-mails e encheríamos o computador de spams, correntes-da-felicidade, abaixo-assinados, alertas sobre a descoberta de novos vírus, as mais recentes modalidades de crimes, fotos indecentes, charges e até mesmo endereços interessantes, lojas virtuais de cedês e de livros, e descobriríamos afinidades que insuspeitávamos, e toda sexta-feira nos encontraríamos para o happy hour num barzinho da Lapa, "o melhor tira-gosto de São Paulo", e revelaríamos que a escola das crianças não é tão boa quanto imaginávamos, e confessaríamos que ambos mentíamos para os amigos sobre aventuras extraconjugais, e que, embora a colega assistente da diretoria existisse, a única vez que falei com ela foi para me desculpar por ter derrubado sua sobremesa no chão do refeitório, e chegaríamos em casa recendendo a álcool, e as mulheres reclamariam e diriam que "Homem é tudo igual", e no dia seguinte, sábado, acordaríamos cedo para comprar peixe e verduras no Mercado Municipal. Mas nós não nos conhecíamos. Nos vimos algumas vezes no elevador de serviço, a caminho da garagem do prédio, uma ou outra vez nas piscina, ele lendo a Veja, eu nadando com a Joana e o Afonsinho.

 

(Adaptado de: RUFFATO, Luiz. Eles eram muitos cavalos. São Paulo: Companhia das Letras, 2013)

Leia o trecho do romance Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, para responder à questão.

   

O trecho "mas nós não nos conhecíamos" revela que a relação entre os personagens configura-se como

  1. Auma rivalidade velada entre dois vizinhos que não têm nenhuma afinidade.
  2. Buma rivalidade explicita em que um dos personagens inveja o outro.
  3. Cuma projeção imaginária de uma amizade potencial.
  4. Duma forte amizade que se desenvolveu inesperadamente.
  5. Euma amizade entre colegas de trabalho que rotineiramente se encontram socialmente.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — uma projeção imaginária de uma amizade potencial.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A projeção imaginária de uma amizade potencial

Gabarito: letra C. O trecho "mas nós não nos conhecíamos" revela que toda a relação descrita anteriormente é uma projeção imaginária de uma amizade potencial, pois o narrador idealiza uma convivência íntima e detalhada com o vizinho, para, ao final, admitir que eles nunca se conheceram de fato. A passagem que ancora essa leitura é a que encerra a sequência de hipóteses: "Mas nós não nos conhecíamos. Nos vimos algumas vezes no elevador de serviço, a caminho da garagem do prédio, uma ou outra vez nas piscina, ele lendo a Veja, eu nadando com a Joana e o Afonsinho."

O comando da questão pede uma interpretação — o verbo "revela" indica que se deve depreender o sentido da relação entre os personagens a partir do contraste estabelecido no texto. Não se trata de localizar uma informação explícita, mas de compreender o efeito de sentido criado pela oposição entre o que foi imaginado e o que realmente acontece.

O texto é construído quase inteiramente no futuro do pretérito ("convidaria", "serviríamos", "ouviríamos", "trocaríamos", "encontraríamos"), tempo verbal que, no português, expressa hipótese, desejo ou fato condicionado — não realidade. O narrador descreve, com riqueza de detalhes, um jantar, conversas, happy hours e confissões que poderiam ter acontecido, mas que nunca aconteceram. A virada acontece no último parágrafo, quando o conectivo adversativo "Mas" quebra a fantasia e introduz a realidade: eles não se conheciam; apenas se viam esporadicamente no elevador e na piscina.

A técnica que decide esta questão é a atenção ao valor do tempo verbal e do conectivo de oposição. O futuro do pretérito marca a irrealidade; o "mas" marca a ruptura entre o mundo imaginado e o mundo real. A alternativa correta é a única que captura essa dualidade: a amizade descrita é uma projeção imaginária — algo potencial, que existiu apenas na cabeça do narrador.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a tentação de ler a longa sequência de ações no futuro do pretérito como se fosse uma amizade real. Quem não percebe o valor hipotético do tempo verbal e o papel do "mas" cai nas alternativas que tratam a relação como concreta (D e E).

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que há "rivalidade velada" entre os vizinhos. O texto não menciona nenhuma rivalidade, velada ou explícita. O narrador apenas idealiza uma amizade; não há qualquer indício de competição, inveja ou animosidade. A alternativa extrapola — acrescenta um sentimento que não está no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "rivalidade explícita" e "inveja". Novamente, o texto não traz qualquer elemento de rivalidade ou inveja. O narrador demonstra admiração e desejo de aproximação, não hostilidade. A alternativa contradiz o texto ao atribuir aos personagens um sentimento que não existe na narrativa.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa descreve com precisão o que o texto revela: uma "projeção imaginária de uma amizade potencial". O futuro do pretérito ("convidaria", "serviríamos", "trocaríamos") constrói um cenário hipotético, e o "Mas" do último parágrafo o desfaz: "Mas nós não nos conhecíamos." A amizade é potencial — poderia existir, mas não existe. É exatamente isso que a alternativa C afirma.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que há uma "forte amizade que se desenvolveu inesperadamente". O texto diz o oposto: "nós não nos conhecíamos". Não há amizade desenvolvida; há apenas um desejo de amizade. A alternativa contradiz o texto ao tratar como real o que é apenas imaginado.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "amizade entre colegas de trabalho que rotineiramente se encontram socialmente". O texto não menciona colegas de trabalho nem encontros sociais rotineiros. Os personagens apenas se cruzam no elevador e na piscina — encontros casuais, não sociais. A alternativa extrapola ao inventar uma relação profissional e uma rotina de convívio que não existem.

Conclusão: a chave da questão está no contraste entre o futuro do pretérito (hipótese) e o "mas" (realidade). A única alternativa que respeita esse contraste é a C. Ao resolver questões de interpretação, pergunte-se sempre: o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige acrescentar algo que não está escrito?

Gabarito: letra C

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