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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140514
Banca
FCC
Órgão
MPE SE
Ano
2026
Cargo
Tec ( )

Nós poderíamos ter sido grandes amigos.

 

Eu o convidaria para um jantar sábado à noite, aqui em nosso apartamento, serviríamos um magnífico pernil de cordeiro acomodado em ramos de alecrim, um honesto Quinta da Bacalhoa, e ouviríamos, encantados, o último disco do Chico Buarque, uma coletânea da Dinah Washington, uma outra cantora que agora me foge o nome, adquirida na Tower Records, em Londres.

 

Seríamos apresentados à sua esposa, já vislumbrada rapidamente na piscina, e, uma ou duas taças, deixaríamos o sofá de veludo espanhol amarelo pelas duras e ásperas cadeiras de palha da cozinha, não tão grande quanto era nosso desejo, para ajudar a Célia, avental motivos-surrealistas, cuidando do assado e da salada. Eu lavaria a louça, ele e a mulher arrumariam a mesa, toalha, talheres, copos, descansos. Após o jantar, de novo esparramados no conforto da sala, nos perderíamos no torvelinho das conversas e, madrugada, quando já nem mais ânimo tivéssemos para trocar o cadê, a rua ausente de carros, uma leve por as crianças estarem na casa de algum coleguinha ou de parentes, se imiscuiria em nosso último assunto, e nos despediríamos, prometendo nos frequentar com alguma assiduidade.

 

O tempo solidificaria a relação.

 

Trocaríamos e-mails e encheríamos o computador de spams, correntes-da-felicidade, abaixo-assinados, alertas sobre a descoberta de novos vírus, as mais recentes modalidades de crimes, fotos indecentes, charges e até mesmo endereços interessantes, lojas virtuais de cedês e de livros, e descobriríamos afinidades que insuspeitávamos, e toda sexta-feira nos encontraríamos para o happy hour num barzinho da Lapa, "o melhor tira-gosto de São Paulo", e revelaríamos que a escola das crianças não é tão boa quanto imaginávamos, e confessaríamos que ambos mentíamos para os amigos sobre aventuras extraconjugais, e que, embora a colega assistente da diretoria existisse, a única vez que falei com ela foi para me desculpar por ter derrubado sua sobremesa no chão do refeitório, e chegaríamos em casa recendendo a álcool, e as mulheres reclamariam e diriam que "Homem é tudo igual", e no dia seguinte, sábado, acordaríamos cedo para comprar peixe e verduras no Mercado Municipal. Mas nós não nos conhecíamos. Nos vimos algumas vezes no elevador de serviço, a caminho da garagem do prédio, uma ou outra vez nas piscina, ele lendo a Veja, eu nadando com a Joana e o Afonsinho.

 

(Adaptado de: RUFFATO, Luiz. Eles eram muitos cavalos. São Paulo: Companhia das Letras, 2013)

Leia o trecho do romance Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, para responder à questão.

   

No trecho, o narrador

  1. Aenfatiza a facilidade de se fazer novas amizades na vida adulta.
  2. Breproduz um diálogo real que mantivera com a esposa.
  3. Cdescreve um episódio que seria socialmente malvisto.
  4. Dcria um manual de etiqueta para a boa convivência no prédio.
  5. Etrata de alguns hábitos de determinada classe social.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — trata de alguns hábitos de determinada classe social.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O jantar imaginário e os hábitos de uma classe social

Gabarito: letra E. O narrador trata de alguns hábitos de determinada classe social, como se comprova pela descrição de um jantar sofisticado, happy hour na Lapa, compras no Mercado Municipal e a troca de e-mails com spams e correntes — tudo isso no âmbito de uma amizade hipotética que ele imagina ter com o vizinho. A alternativa correta é a única que capta o teor sociológico do trecho, sem cair na armadilha de tratar o imaginado como real.

O comando pede que se identifique o que o narrador faz no trecho — uma questão de compreensão (o que está explícito) e interpretação (o que se depreende). A chave está em perceber que todo o primeiro bloco do texto é uma hipótese: o narrador usa o futuro do pretérito ("poderíamos", "convidaria", "serviríamos", "ouviríamos") para descrever uma amizade que nunca existiu. A virada acontece no final: "Mas nós não nos conhecíamos. Nos vimos algumas vezes no elevador de serviço...". Ou seja, tudo o que foi narrado é projeção imaginária, não fato.

A técnica para resolver: grife os tempos verbais. O futuro do pretérito ("seríamos", "trocaríamos", "encontraríamos") marca o irreal, o hipotético; o pretérito perfeito ("nos vimos", "falei") marca o real. A alternativa E não depende de distinguir isso — ela fala de "hábitos de determinada classe social", que estão descritos de forma concreta no texto, mesmo que dentro da fantasia. Já as alternativas A, B, C e D extrapolam ou restringem o que o texto diz.

"Nós poderíamos ter sido grandes amigos."

"Mas nós não nos conhecíamos. Nos vimos algumas vezes no elevador de serviço, a caminho da garagem do prédio, uma ou outra vez nas piscina, ele lendo a Veja, eu nadando com a Joana e o Afonsinho."

Esses trechos provam que a amizade é imaginada (futuro do pretérito) e que o narrador não conhece o vizinho (pretérito perfeito). A alternativa E é a única que não contradiz essa estrutura: ela fala de hábitos de classe social — jantar com pernil de cordeiro, vinho Quinta da Bacalhoa, happy hour na Lapa, compras no Mercado Municipal — que estão explicitamente descritos no texto, ainda que dentro da projeção.

1Projeção imaginária (futuro do pretérito)
Amizade hipotética com o vizinho
Jantar sofisticado
Happy hour na Lapa
Compras no Mercado Municipal
2Realidade (pretérito perfeito)
Não se conheciam
Encontros no elevador de serviço
3Hábitos de classe social
Classe média/alta urbana
Estilo de vida descrito
Narrador no trecho
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Narrador no trecho: Projeção imaginária (futuro do pretérito) (Amizade hipotética com o vizinho, Jantar sofisticado, Happy hour na Lapa, Compras no Mercado Municipal); Realidade (pretérito perfeito) (Não se conheciam, Encontros no elevador de serviço); Hábitos de classe social (Classe média/alta urbana, Estilo de vida descrito)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não diz que é fácil fazer amizades na vida adulta; pelo contrário, mostra que a amizade não aconteceu ("Mas nós não nos conhecíamos"). A alternativa acrescenta um juízo de valor ("facilidade") que o autor não externou. O texto apenas descreve uma fantasia de amizade, não uma reflexão sobre a facilidade de fazê-la.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O narrador não reproduz um diálogo real com a esposa. Todo o trecho é narrado em futuro do pretérito ("Eu o convidaria", "serviríamos", "ouviríamos"), o que marca hipótese, não fato. Além disso, não há diálogo algum — o texto é uma narração em primeira pessoa, sem aspas ou travessões que indiquem fala. A alternativa inventa um diálogo que não existe.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não descreve um episódio "socialmente malvisto". O narrador imagina um jantar, conversas, happy hour — nada disso é apresentado como moralmente condenável. A alternativa acrescenta um julgamento ("malvisto") que não está no texto. O trecho é uma fantasia de amizade, não uma crítica social.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: restringe o alcance. O texto não é um manual de etiqueta. Ele descreve hábitos de uma classe social (jantar, vinho, happy hour), mas não prescreve regras de boa convivência. A alternativa restringe o sentido do texto a um gênero (manual) que ele não tem. O narrador imagina uma relação, não ensina como se comportar no prédio.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. O narrador trata de alguns hábitos de determinada classe social: jantar com pernil de cordeiro, vinho Quinta da Bacalhoa, happy hour na Lapa, compras no Mercado Municipal, troca de e-mails com spams e correntes. Esses elementos descrevem um estilo de vida de classe média/alta urbana. A alternativa não extrapola: ela se limita a caracterizar os hábitos, sem afirmar que são reais ou fáceis. É a única que não contradiz o texto e não acrescenta informação de fora.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de interpretação, grife os tempos verbais. O futuro do pretérito ("seríamos", "trocaríamos") marca hipótese; o pretérito perfeito ("nos vimos") marca fato. Isso separa o imaginado do real e elimina as alternativas que tratam a fantasia como verdade.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que tratam o imaginado como real (A, B, C) ou que restringem o alcance do texto (D). A correta (E) é a única que não depende de distinguir o real do imaginado — ela fala de hábitos que estão descritos no texto, mesmo que dentro da projeção.

Conclusão: A resposta é a letra E, pois é a única que se sustenta inteiramente no texto: o narrador descreve hábitos de uma classe social (jantar, vinho, happy hour, compras) dentro de uma amizade imaginada. As demais extrapolam (A, C), contradizem (B) ou restringem (D) o que está escrito.

Gabarito: letra E

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