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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140521
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ SP
Ano
2026
Cargo
AFRE ( )

Arrependimentos

 

Pentimento é a palavra italiana para arrependimento, mas designa, em muitas línguas, uma pintura, um desenho ou um esboço encoberto pela versão final de um quadro. Às vezes, com o passar do tempo, a tinta deixa transparecer uma composição em cima da qual o artista pintou uma nova versão. Outras vezes, os raios X dos restauradores desvendam opções anteriores, que permaneceram debaixo da obra final. Esses esboços ou pinturas, que o artista rejeitou e encobriu, são os pentimentos, que foram descartados sem ser propriamente apagados.

 

Visível ou não, o pentimento faz parte do quadro, assim como fazem parte da nossa vida muitas tentações e muitos projetos dos quais desistimos. São restos do passado que, escondidos e não apagados, transparecem no presente, como potencialidades que não foram realizadas, mas que, mesmo assim, integram a nossa história.

 

A vida é abarrotada de caminhos que deixamos de trilhar; são todos pentimentos encobertos, histórias que não se realizaram.

 

Por que não se realizaram? Em geral, pensamos que nos faltou coragem: não soubemos renunciar às coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance. E é verdade que, quase sempre, desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas: por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo.

 

O problema dos pentimentos é que eles esvaziam a vida que temos. O passado que não se realizou funciona como a miragem da felicidade que teria sido possível se tivéssemos feito a escolha “certa”. Diante disso, de que adianta qualquer experiência presente? Os pentimentos podem ser maus conselheiros, até porque muitas vezes nós os inventamos como desculpas para os fracassos do presente. Hoje, é fácil esbarrar em espectros do passado: as redes sociais proporcionam reencontros improváveis e, com isso, criam pentimentos artificiais. Por conta da ação das redes, uma história que foi realmente apagada da memória (não apenas encoberta) pode renascer, como se representasse uma grande potencialidade à qual teríamos renunciado. Os falsos pentimentos, revisitados, são pequenas receitas para o desastre.

 

(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Aproveitar a vida e suas dores. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, pp. 25–27, passim)

Para responder à questão, baseia-se no texto seguinte.

   

A afirmação por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo reflete a enganosa crença de que

  1. Aos sacrifícios a se fazer são prescindíveis para a nossa plena realização.
  2. Bo acesso às paixões e aos sonhos nossos é reconhecidamente custoso.
  3. Ca busca de uma idealidade plena compensa com sobras o saldo da desilusão.
  4. Datingimos a plenitude de uma conquista quando nos submetemos aos nossos limites.
  5. Eabandonamos nossos caminhos para o sucesso por falta de perseverança.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — os sacrifícios a se fazer são prescindíveis para a nossa plena realização.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A crença enganosa de que não precisamos sacrificar nada

Gabarito: letra A. A frase "por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo" reflete a crença enganosa de que os sacrifícios são prescindíveis para a nossa plena realização, pois o texto afirma que "desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas". A alternativa A é a única que capta essa ilusão de que seria possível realizar-se sem abrir mão de nada.

O comando da questão

O enunciado pede que identifiquemos qual crença enganosa está por trás da afirmação "por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo". Isso é uma questão de compreensão/inferência: precisamos entender o que o autor quer dizer com essa frase e qual visão de mundo ela revela. Não se trata de localizar uma informação literal, mas de depreender a ideia implícita — a crença de que seria possível alcançar a realização sem fazer sacrifícios.

O texto e a tese

O texto de Contardo Calligaris discute os "pentimentos" — projetos e desejos que abandonamos. No 4º parágrafo, o autor explica por que não realizamos esses projetos:

"desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas: por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo."

Aqui está o núcleo da questão: a crença enganosa é a de que poderíamos realizar tudo sem abrir mão de nada. O autor critica exatamente essa ilusão — achar que os sacrifícios são dispensáveis. A alternativa A traduz essa ideia: acreditar que "os sacrifícios a se fazer são prescindíveis para a nossa plena realização".

A técnica que decide

A pegadinha central é a extrapolação. As alternativas B, C, D e E apresentam ideias que parecem relacionadas ao texto, mas que acrescentam informações ou invertem o sentido do que está escrito. O método é testar cada uma perguntando: "o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora?".

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que soam plausíveis, mas que extrapolam o texto — especialmente a E, que inverte a causa: o texto não diz que falta perseverança, mas que falta aceitar as perdas.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A afirma que a crença enganosa é a de que "os sacrifícios a se fazer são prescindíveis para a nossa plena realização". Isso é exatamente o que o texto diz: acreditamos que poderíamos nos realizar sem perder nada, quando na verdade "nada se realiza sem perdas". A palavra prescindíveis (dispensáveis, desnecessários) capta perfeitamente a ilusão criticada pelo autor. É a única alternativa que não extrapola e que traduz fielmente a ideia central do trecho.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B diz que "o acesso às paixões e aos sonhos nossos é reconhecidamente custoso". O texto afirma que "desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas" — ou seja, o custo (a perda) é algo que não aceitamos, não algo "reconhecidamente" aceito. A alternativa inverte a relação: o texto diz que temos dificuldade em aceitar o custo, não que o reconhecemos. Erro: contradiz o texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que "a busca de uma idealidade plena compensa com sobras o saldo da desilusão". O texto diz o oposto: os pentimentos "esvaziam a vida que temos" e funcionam como "miragem da felicidade". Não há nenhuma ideia de que a busca compensa a desilusão — pelo contrário, o autor critica essa busca como algo que nos faz perder o presente. Erro: contradiz o texto e extrapola.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D diz que "atingimos a plenitude de uma conquista quando nos submetemos aos nossos limites". O texto não fala em "submeter-se aos limites" como caminho para a plenitude. Essa é uma ideia inventada — o texto fala em aceitar perdas, não em submeter-se a limites. Erro: extrapolação (acrescenta conceito que não está no texto).

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E afirma que "abandonamos nossos caminhos para o sucesso por falta de perseverança". O texto diz explicitamente que não é por falta de coragem que abandonamos os projetos:

"Em geral, pensamos que nos faltou coragem: não soubemos renunciar às coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance."

O autor refuta essa explicação — diz que "pensamos" que faltou coragem, mas a verdade é que não aceitamos as perdas. A alternativa E contradiz diretamente o texto. Erro: contradiz o texto.

Conclusão

A questão testa a capacidade de identificar a tese implícita em uma frase. A crença enganosa é a de que poderíamos realizar tudo sem sacrificar nada — exatamente o que a alternativa A afirma. As demais ou invertem o sentido (B, E), ou extrapolam com ideias que não estão no texto (C, D).

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de interpretação, desconfie de alternativas que soam "bonitas" ou "filosóficas" mas que não têm ancoragem direta no texto. A correta é sempre a que parafraseia uma ideia presente, sem acrescentar nada de fora.

Gabarito: letra A

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