Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140532
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ SP
Ano
2026
Cargo
AFRE ( )
Acerca do pensamento político de Maquiavel
Na Itália do Renascimento, reinava grande confusão. A tirania imperava em pequenos principados. É nesse panorama de crise econômica e política que Nicolau Maquiavel nasceu (1469). De formação erudita, ele deixará como legado principal de seu pensamento o livro O Príncipe, no qual distingue e analisa pragmaticamente as formas objetivas pelas quais se manifesta o poder da política. Até então, o estudo dos assuntos de Estado vinculava-se à moral e à religião, descarnados de uma base mais concreta, impondo-se como modelos ideais do bom governante de uma sociedade justa.
Maquiavel mudou o curso do pensamento político. Passou a vê-lo associado às ações efetivas do poderoso, que deveriam vir à luz longe de qualquer abstração. Assim, seu conceito de virtude distingue, na política, a qualidade do homem que sabe aproveitar o momento exato criado pela fortuna, entendendo-se por esta o momento histórico que propicia a ocasião na qual o homem faz valer sua real inclinação política, conduzindo suas ações com método rigoroso, para alcançar o êxito pretendido: chegar ao poder e mantê-lo. O carisma da virtude é próprio de quem se adapta à natureza de seu tempo, de quem apreende seu sentido e se capacita para realizar na prática a necessidade latente de sua época. Maquiavel oferece aos pleiteantes do poder um modelo pragmático e astucioso de bem orientada ação política.
É lícito discordar das ideias de Maquiavel, mas é difícil demonstrar que o convívio político entre os homens, ao longo dos séculos, tenha sido outro. Se existem boas teorias políticas, a prática é sempre diferente. Maquiavel simplesmente fez da prática uma teoria. O enunciado brutal dos princípios do maquiavelismo, com sua chocante amoralidade, explicitaria a realidade interna do poder político. E isso talvez seja uma contribuição preciosa, até hoje, para a superação desse amoralismo.
(Adaptado de: MARTINS, Carlos Estevam. Encarte a Maquiavel – Os pensadores. São Paulo: Ed. Abril, 1973)
Para responder à questão, baseia-se no texto seguinte. No parágrafo do texto, o autor pondera conclusivamente que as ideias políticas de Maquiavel
Aatraentes e sedutoras, sustentam uma amoralidade que as condena inapelavelmente.
Bprovocadoras em seu tempo, provaram-se equívocas e inoperantes ao longo da História.
Caparentemente irrefutáveis, costumam sucumbir a uma objetiva análise histórica.
Dmesmo descartando uma idealidade abstrata, podem ir além de um pragmatismo estrito.
Eainda que brutais, apoiam-se num fundamento moral de caráter conservador.
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GabaritoD — mesmo descartando uma idealidade abstrata, podem ir além de um pragmatismo estrito.
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A conclusão do autor sobre as ideias políticas de Maquiavel
Gabarito: letra D. No parágrafo final, o autor pondera que, embora as ideias de Maquiavel sejam "brutais" e "chocantemente amorais", elas podem ir além de um pragmatismo estrito, servindo como "contribuição preciosa" para a "superação desse amoralismo". A alternativa D é a única que capta essa dupla dimensão: reconhece o abandono da "idealidade abstrata" (o pragmatismo) e, ao mesmo tempo, aponta para um valor que transcende o mero pragmatismo (a superação do amoralismo).
O comando pede uma interpretação — "o autor pondera conclusivamente" —, ou seja, exige captar a tese que o autor defende no fechamento do texto, não apenas localizar uma informação literal. A resposta mora no último parágrafo, onde o autor faz uma avaliação final sobre o legado de Maquiavel.
No desenvolvimento, o autor explica que Maquiavel "mudou o curso do pensamento político" ao associá-lo "às ações efetivas do poderoso, que deveriam vir à luz longe de qualquer abstração". Isso é o pragmatismo: a política vista como prática concreta, não como modelo ideal. Mas a conclusão acrescenta um passo além: ao "fazer da prática uma teoria", Maquiavel "explicitou a realidade interna do poder político", e isso "talvez seja uma contribuição preciosa, até hoje, para a superação desse amoralismo". Ou seja, o autor não vê o pensamento maquiavélico como mero pragmatismo cínico; vê nele um potencial de superação da amoralidade — algo que vai além do pragmatismo estrito.
A técnica decisiva é não confundir a descrição do pensamento de Maquiavel com a avaliação que o autor faz dele. As alternativas A, B, C e E descrevem aspectos do maquiavelismo (a brutalidade, a amoralidade, a provocação), mas ou o condenam, ou o reduzem a um pragmatismo sem valor, ou lhe atribuem um fundamento moral que o texto não sustenta. A correta, D, é a única que sintetiza a posição conclusiva do autor: Maquiavel descartou a idealidade abstrata (pragmatismo), mas sua obra pode transcender o pragmatismo estrito ao contribuir para a superação do amoralismo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tentação de reduzir Maquiavel a um mero pragmatismo cínico (alternativas A, B, C, E), quando o autor, na conclusão, valoriza sua contribuição para superar o amoralismo. A correta exige captar essa dupla dimensão.
PEGA ESSA DICA!
Ao ler o comando "o autor pondera conclusivamente", grife a tese no último parágrafo. Pergunte: o autor condena ou valoriza Maquiavel? A resposta está em "contribuição preciosa" e "superação desse amoralismo".
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que a amoralidade "condena inapelavelmente" as ideias de Maquiavel. O texto, porém, diz o oposto: a "chocante amoralidade" é vista como algo que "explicitaria a realidade interna do poder político", e isso "talvez seja uma contribuição preciosa, até hoje, para a superação desse amoralismo". Ou seja, o autor não condena; ele vê um valor positivo. A palavra "inapelavelmente" é um absoluto que inverte o sentido.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que as ideias "provaram-se equívocas e inoperantes ao longo da História". O texto, porém, diz que "é difícil demonstrar que o convívio político entre os homens, ao longo dos séculos, tenha sido outro" — ou seja, a prática política sempre foi como Maquiavel descreveu. Além disso, o autor chama a obra de "contribuição preciosa", o que é o oposto de "equívoca e inoperante".
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que as ideias "costumam sucumbir a uma objetiva análise histórica". O texto, porém, diz que "é difícil demonstrar que o convívio político entre os homens, ao longo dos séculos, tenha sido outro" — ou seja, a análise histórica confirma a visão de Maquiavel, não a refuta. A palavra "sucumbir" inverte o sentido.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta. A alternativa sintetiza a tese do autor no parágrafo final. O texto diz que Maquiavel "mudou o curso do pensamento político" ao associá-lo "às ações efetivas do poderoso, que deveriam vir à luz longe de qualquer abstração" — isso é o pragmatismo, o abandono da idealidade abstrata. Mas o autor acrescenta: "E isso talvez seja uma contribuição preciosa, até hoje, para a superação desse amoralismo". Ou seja, a obra de Maquiavel, embora pragmática, pode ir além do pragmatismo estrito, servindo para superar a amoralidade. A alternativa D capta exatamente essa dupla dimensão: "mesmo descartando uma idealidade abstrata" (pragmatismo) "podem ir além de um pragmatismo estrito" (superação do amoralismo).
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa afirma que as ideias "apoiam-se num fundamento moral de caráter conservador". O texto não menciona nenhum fundamento moral conservador; pelo contrário, fala da "chocante amoralidade" do maquiavelismo. Atribuir um fundamento moral conservador é acrescentar informação que não está no texto — é uma extrapolação.
Conclusão: a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a D, pois capta a tese conclusiva do autor: Maquiavel abandonou a idealidade abstrata (pragmatismo), mas sua obra pode transcender o pragmatismo estrito ao contribuir para a superação do amoralismo. As demais ou contradizem o texto (A, B, C) ou extrapolam (E).