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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140535
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ SP
Ano
2026
Cargo
AFRE ( )

Escrever é verbo que briga com o sujeito

 

No ofício da literatura, linguagem é mais do que meio: é princípio e fim. A literatura cria, à medida que é escrita, as regras pelas quais exigirá ser lida. É por isso que o terreno nunca vai estar inteiramente mapeado; o risco é parte inseparável do jogo. Se há algo de “universal” aí, é negativo: uma permanente insatisfação parece ser comum a gente de variadas épocas e escolas. O raciocínio não se aplica a quem lida com a linguagem como mero instrumento. “Profissionais do texto” que miram um objeto existente fora do mundo da linguagem podem se sentir plenos ao informar, relatar, dissertar, argumentar, resumir, requerer, inventariar etc. Não por acaso, são essas as funções da escrita em que a IA já se tornou competente.

 

Na escrita criativa não se tem a mesma sorte. A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, “escritor” e “escrever”. É provável que exista um núcleo disfuncional em tudo isso, aquilo que bota o motor para rodar. Qualquer que seja o fenômeno psíquico que leva alguém à escrita, será informação de interesse para quem escreve, mas irrelevante para quem lê. O propósito terapêutico que possa ser extraído do conhecimento da ferida anímica que provoca o texto não importa no mundo do texto.

 

O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele. Olha para o lado oposto: para fora do sujeito, para o mundo das palavras. Então os escritores são todos uns neuróticos? O romancista americano E. L. Doctorow tem uma frase famosa que sugere distúrbio mais grave: “Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia”. Nesse ponto cabe ter cautela. Como metáfora, a coisa tem sua utilidade — quem escreve pode mesmo “ouvir” vozes dentro da cabeça. Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos, heroicos, messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional, boca torta do cachimbo. Embora possa parecer, nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura. Escrever é só um ofício entre tantos, mas em certos aspectos não se assemelha a nenhum outro — o que é natural.

 

(RODRIGUES, Sérgio. Folha de S. Paulo. 20 ago. 2025)

Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.

   

A afirmação, no contexto do 2º parágrafo, de que O propósito terapêutico […] não importa no mundo do texto ganha reforço argumentativo quando se assevera, no 3º parágrafo, que

  1. Atão somente a arte romântica é capaz de cumprir um desígnio sanitarista.
  2. Ba singularidade da escritura artística está na superação prévia dos traumas psíquicos.
  3. Co projeto estético da arte literária é, de certa forma, oposto a um ocasional intuito clínico.
  4. Dé preciso ser cauteloso na formulação de metáforas para se definir o que é literatura.
  5. Eo ofício de um escritor leva-o a se concentrar nas possibilidades curativas de sua arte.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — o projeto estético da arte literária é, de certa forma, oposto a um ocasional intuito clínico.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A oposição entre propósito estético e propósito clínico na literatura

Gabarito: letra C. A alternativa C é a única que reproduz, com paráfrase fiel, a ideia central do 3º parágrafo: o projeto estético da arte literária é, de certa forma, oposto a um eventual intuito clínico. O texto afirma textualmente: "O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele." Essa passagem é o reforço argumentativo que o enunciado pede: se o propósito terapêutico "não importa no mundo do texto" (2º parágrafo), o 3º parágrafo explica o porquê — o propósito estético olha para fora do sujeito, para o mundo das palavras, e não para a cura da ferida anímica.

O comando da questão

O enunciado pede que você identifique, no 3º parágrafo, a afirmação que reforça a ideia do 2º parágrafo de que o propósito terapêutico "não importa no mundo do texto". Isso é uma questão de compreensão (informação explícita), não de inferência: a resposta está literalmente no texto, apenas reescrita com outras palavras. A banca quer que você perceba a relação de oposição que o autor estabelece entre o propósito estético e o propósito clínico.

O texto e o movimento argumentativo

O texto defende que a literatura é um ofício em que a linguagem é princípio e fim, e que o escritor vive em permanente insatisfação. No 2º parágrafo, o autor afirma que o propósito terapêutico da escrita "não importa no mundo do texto". No 3º parágrafo, ele desenvolve essa ideia: o propósito estético não é apenas desvinculado do clínico, é o contrário dele. Essa oposição é o reforço argumentativo que a questão pede.

A técnica: paráfrase fiel

A alternativa correta é uma paráfrase — reescritura com outras palavras que preserva o sentido original. Veja a correspondência:

Texto original

Paráfrase (alternativa C)

"O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele."

"o projeto estético da arte literária é, de certa forma, oposto a um ocasional intuito clínico"

A troca de "propósito estético" por "projeto estético", "eventual propósito clínico" por "ocasional intuito clínico" e "contrário" por "oposto" mantém o sentido intacto. As demais alternativas ou extrapolam, ou restringem, ou contradizem o texto.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

"tão somente a arte romântica é capaz de cumprir um desígnio sanitarista"

Erro: extrapolação. O texto não menciona "arte romântica" nem "desígnio sanitarista". O autor até nega uma visão romântica da literatura: "nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura". A alternativa inventa uma relação que não existe no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"a singularidade da escritura artística está na superação prévia dos traumas psíquicos"

Erro: contradiz o texto. O autor afirma que o propósito terapêutico "não importa no mundo do texto" e que o propósito estético é o contrário do clínico. A alternativa inverte essa relação, dizendo que a escrita artística supera traumas — exatamente o que o texto nega.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"o projeto estético da arte literária é, de certa forma, oposto a um ocasional intuito clínico"

Paráfrase fiel. O texto diz: "O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele." A alternativa troca "propósito" por "projeto", "eventual" por "ocasional" e "contrário" por "oposto", preservando o sentido. É o reforço argumentativo que o enunciado pede.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"é preciso ser cauteloso na formulação de metáforas para se definir o que é literatura"

Erro: tangencia o tema. O texto menciona cautela em relação à metáfora de Doctorow ("Nesse ponto cabe ter cautela"), mas isso é um parêntese, não o reforço da ideia de que o propósito terapêutico não importa. A alternativa foge ao núcleo da questão.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"o ofício de um escritor leva-o a se concentrar nas possibilidades curativas de sua arte"

Erro: contradiz o texto. O autor afirma que o propósito terapêutico "não importa no mundo do texto" e que o propósito estético é o contrário do clínico. A alternativa afirma exatamente o oposto: que o escritor se concentra nas possibilidades curativas.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de reconhecer a paráfrase fiel de uma ideia central. A alternativa C é a única que reproduz, sem acrescentar nem contradizer, a oposição entre propósito estético e propósito clínico. As demais ou extrapolam, ou contradizem, ou tangenciam o texto.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de compreensão, sublinhe a passagem que contém a ideia central e compare cada alternativa com ela. Pergunte: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?" A correta é a que mantém o sentido, apenas com outras palavras.

Gabarito: letra C

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