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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140536
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ SP
Ano
2026
Cargo
AFRE ( )

Escrever é verbo que briga com o sujeito

 

No ofício da literatura, linguagem é mais do que meio: é princípio e fim. A literatura cria, à medida que é escrita, as regras pelas quais exigirá ser lida. É por isso que o terreno nunca vai estar inteiramente mapeado; o risco é parte inseparável do jogo. Se há algo de “universal” aí, é negativo: uma permanente insatisfação parece ser comum a gente de variadas épocas e escolas. O raciocínio não se aplica a quem lida com a linguagem como mero instrumento. “Profissionais do texto” que miram um objeto existente fora do mundo da linguagem podem se sentir plenos ao informar, relatar, dissertar, argumentar, resumir, requerer, inventariar etc. Não por acaso, são essas as funções da escrita em que a IA já se tornou competente.

 

Na escrita criativa não se tem a mesma sorte. A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, “escritor” e “escrever”. É provável que exista um núcleo disfuncional em tudo isso, aquilo que bota o motor para rodar. Qualquer que seja o fenômeno psíquico que leva alguém à escrita, será informação de interesse para quem escreve, mas irrelevante para quem lê. O propósito terapêutico que possa ser extraído do conhecimento da ferida anímica que provoca o texto não importa no mundo do texto.

 

O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele. Olha para o lado oposto: para fora do sujeito, para o mundo das palavras. Então os escritores são todos uns neuróticos? O romancista americano E. L. Doctorow tem uma frase famosa que sugere distúrbio mais grave: “Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia”. Nesse ponto cabe ter cautela. Como metáfora, a coisa tem sua utilidade — quem escreve pode mesmo “ouvir” vozes dentro da cabeça. Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos, heroicos, messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional, boca torta do cachimbo. Embora possa parecer, nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura. Escrever é só um ofício entre tantos, mas em certos aspectos não se assemelha a nenhum outro — o que é natural.

 

(RODRIGUES, Sérgio. Folha de S. Paulo. 20 ago. 2025)

Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.

   

A justificativa da afirmação que dá título ao texto - Escrever é verbo que briga com o sujeito - expressa-se

  1. Aao se reconhecer que o objetivo estético da literatura é o apaziguamento das tensões íntimas.
  2. Bno fato de que a ameaça de uma esquizofrenia bloqueia as iniciativas do escritor.
  3. Cquando se considera o caso de escritores cuja linguagem se apoia num mundo mapeado.
  4. Dno sintoma do descontentamento do escritor criativo após buscar um nexo intenso com suas palavras.
  5. Ena constatação de que informações pessoais do escritor são sedutoras para quem lê.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — no sintoma do descontentamento do escritor criativo após buscar um nexo intenso com suas palavras.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A justificativa do título: a insatisfação do escritor criativo

Gabarito: letra D. A afirmação que dá título ao texto — Escrever é verbo que briga com o sujeito — justifica-se pelo sintoma do descontentamento do escritor criativo, que busca um nexo intenso com suas palavras. O texto ancora essa leitura no 2º parágrafo, ao afirmar que "A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, 'escritor' e 'escrever'", e no 1º parágrafo, ao dizer que "uma permanente insatisfação parece ser comum a gente de variadas épocas e escolas". A alternativa D é a única que captura exatamente essa relação: o descontentamento (a "briga") surge da busca por um vínculo profundo com a linguagem.

O comando pede que se identifique a justificativa da afirmação-título. Isso é uma tarefa de compreensão (localizar a ideia que sustenta a tese), não de inferência livre. A resposta precisa estar ancorada em passagens explícitas do texto. O título é uma metáfora: "verbo" representa o ato de escrever, e "sujeito" representa o escritor. A "briga" é o conflito, o desajuste entre quem escreve e o que escreve. O texto desenvolve essa ideia ao longo dos três parágrafos, mas a justificativa central está na noção de insatisfação permanente do escritor criativo.

A técnica decisiva aqui é não extrapolar: cada alternativa errada acrescenta uma ideia que o texto não autoriza, ou inverte o que ele diz. A correta, por outro lado, é uma paráfrase fiel do que está escrito. Vejamos como o texto constrói a justificativa:

"Se há algo de 'universal' aí, é negativo: uma permanente insatisfação parece ser comum a gente de variadas épocas e escolas."

"A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, 'escritor' e 'escrever'."

Essas duas passagens, juntas, formam o núcleo da justificativa: a "briga" entre sujeito e verbo é a insatisfação eterna do escritor criativo, que busca um nexo intenso com suas palavras. A alternativa D parafraseia isso com precisão.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com fatos que parecem plausíveis, mas que o texto não afirma. A letra A, por exemplo, inverte o propósito estético (o texto diz que ele é o contrário do propósito clínico); a letra B transforma uma metáfora em ameaça real; a letra C contradiz o texto ao falar de "mundo mapeado"; a letra E troca o foco do escritor para o leitor.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que o objetivo estético da literatura é o "apaziguamento das tensões íntimas". O texto diz exatamente o oposto:

"O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele."

O propósito estético "olha para o lado oposto: para fora do sujeito, para o mundo das palavras". Não há apaziguamento de tensões íntimas; há um movimento para fora do sujeito. A alternativa inverte a direção do propósito estético.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa diz que a "ameaça de uma esquizofrenia bloqueia as iniciativas do escritor". O texto menciona a frase de Doctorow — "Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia" — mas a trata como metáfora:

"Como metáfora, a coisa tem sua utilidade — quem escreve pode mesmo 'ouvir' vozes dentro da cabeça."

O texto não diz que a esquizofrenia é uma ameaça real que bloqueia o escritor. Pelo contrário, ele adverte contra "a tentação de associar arte e loucura". A alternativa transforma uma metáfora em um fato patológico, o que é uma extrapolação clara.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa fala de "escritores cuja linguagem se apoia num mundo mapeado". O texto afirma o oposto sobre a literatura criativa:

"A literatura cria, à medida que é escrita, as regras pelas quais exigirá ser lida. É por isso que o terreno nunca vai estar inteiramente mapeado."

O texto diz que o terreno nunca está mapeado. A alternativa inverte essa ideia ao falar de um "mundo mapeado". Além disso, o texto associa o "mundo mapeado" aos "profissionais do texto" que usam a linguagem como instrumento — não aos escritores criativos.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A justificativa correta. A alternativa parafraseia a tese central do texto. O "descontentamento do escritor criativo" é a "insatisfação eterna" mencionada no 2º parágrafo; a "busca por um nexo intenso com suas palavras" é o "ajuste precário entre sujeito e verbo". O texto diz:

"A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, 'escritor' e 'escrever'."

A "briga" do título é exatamente esse ajuste precário, essa insatisfação que move o escritor criativo. A alternativa D é a única que não acrescenta nem contradiz nada: ela apenas reescreve com outras palavras o que o texto afirma.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: troca de foco (tangencia o tema). A alternativa diz que "informações pessoais do escritor são sedutoras para quem lê". O texto afirma o contrário sobre o interesse do leitor:

"Qualquer que seja o fenômeno psíquico que leva alguém à escrita, será informação de interesse para quem escreve, mas irrelevante para quem lê."

O texto diz que o fenômeno psíquico é irrelevante para quem lê, não sedutor. A alternativa inverte a relação e desvia o foco da justificativa do título, que está no escritor, não no leitor.

Conclusão: a questão testa a capacidade de localizar a tese e sua justificativa sem extrapolar. A letra D é a única que se sustenta integralmente no texto, pois traduz a "insatisfação eterna" e o "ajuste precário entre sujeito e verbo" em uma paráfrase fiel. As demais ou contradizem o texto (A, C), ou extrapolam uma metáfora (B), ou invertem o foco (E).

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de "justificativa do título", procure no texto a passagem que explica a metáfora do título. Aqui, a chave está em "insatisfação eterna" e "ajuste precário entre sujeito e verbo". Se a alternativa não conversa diretamente com essas expressões, ela está fora do alvo.

Gabarito: letra D

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