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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140537
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ SP
Ano
2026
Cargo
AFRE ( )

Escrever é verbo que briga com o sujeito

 

No ofício da literatura, linguagem é mais do que meio: é princípio e fim. A literatura cria, à medida que é escrita, as regras pelas quais exigirá ser lida. É por isso que o terreno nunca vai estar inteiramente mapeado; o risco é parte inseparável do jogo. Se há algo de “universal” aí, é negativo: uma permanente insatisfação parece ser comum a gente de variadas épocas e escolas. O raciocínio não se aplica a quem lida com a linguagem como mero instrumento. “Profissionais do texto” que miram um objeto existente fora do mundo da linguagem podem se sentir plenos ao informar, relatar, dissertar, argumentar, resumir, requerer, inventariar etc. Não por acaso, são essas as funções da escrita em que a IA já se tornou competente.

 

Na escrita criativa não se tem a mesma sorte. A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, “escritor” e “escrever”. É provável que exista um núcleo disfuncional em tudo isso, aquilo que bota o motor para rodar. Qualquer que seja o fenômeno psíquico que leva alguém à escrita, será informação de interesse para quem escreve, mas irrelevante para quem lê. O propósito terapêutico que possa ser extraído do conhecimento da ferida anímica que provoca o texto não importa no mundo do texto.

 

O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele. Olha para o lado oposto: para fora do sujeito, para o mundo das palavras. Então os escritores são todos uns neuróticos? O romancista americano E. L. Doctorow tem uma frase famosa que sugere distúrbio mais grave: “Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia”. Nesse ponto cabe ter cautela. Como metáfora, a coisa tem sua utilidade — quem escreve pode mesmo “ouvir” vozes dentro da cabeça. Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos, heroicos, messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional, boca torta do cachimbo. Embora possa parecer, nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura. Escrever é só um ofício entre tantos, mas em certos aspectos não se assemelha a nenhum outro — o que é natural.

 

(RODRIGUES, Sérgio. Folha de S. Paulo. 20 ago. 2025)

Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.     Diante da afirmativa do romancista americano E. L. Doctorow, o autor do texto
  1. Ajulga-a equívoca, uma vez que nenhuma arte que problematiza a vida é aceita socialmente.
  2. Bconsidera-a oportuna, por considerar que a arte literária deve ser aceita como uma proposta messiânica.
  3. Crecusa-a de todo, por julgá-la uma metáfora improcedente no caso dos grandes escritores.
  4. Dreferenda-a, uma vez que ela se aplica exemplarmente ao caso dos escritores de índole romântica.
  5. Erelativiza-a de pronto, por não aceitar que se tome a arte literária como sintoma de desajuste psíquico.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — relativiza-a de pronto, por não aceitar que se tome a arte literária como sintoma de desajuste psíquico.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A postura do autor diante da frase de Doctorow

Gabarito: letra E. O autor relativiza a afirmativa de Doctorow, aceitando-a apenas como metáfora útil, mas recusando que a arte literária seja tomada como sintoma de desajuste psíquico. A passagem que ancora essa leitura está no 3º parágrafo: "Como metáfora, a coisa tem sua utilidade — quem escreve pode mesmo 'ouvir' vozes dentro da cabeça. Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura". A alternativa E é a única que capta esse movimento duplo: reconhece o valor metafórico, mas nega a leitura patológica.

O comando pede compreensão — "Diante da afirmativa... o autor do texto" —, ou seja, exige localizar a posição do autor expressa no texto, sem inferências livres. A tarefa é identificar como o autor avalia a frase de Doctorow, e não o que a frase significa isoladamente. Isso muda a resolução: você precisa buscar os verbos e conectivos que revelam o julgamento do autor, não apenas o conteúdo da citação.

O texto desenvolve uma tese sobre a escrita literária: ela é um ofício que "briga com o sujeito", marcado por insatisfação permanente. Quando o autor cita Doctorow — "Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia" —, ele imediatamente modula a recepção: primeiro concede que a metáfora tem utilidade, depois impõe uma ressalva com o conectivo "Contudo". Essa estrutura concessiva (concede algo, mas restringe o alcance) é a chave da questão. O autor não aceita a frase integralmente, nem a rejeita por completo: ele a relativiza.

A técnica decisiva é rastrear os operadores argumentativos. O trecho "Como metáfora, a coisa tem sua utilidade" autoriza a parte positiva da alternativa E ("relativiza-a de pronto"); o trecho "deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura" autoriza a parte negativa ("por não aceitar que se tome a arte literária como sintoma de desajuste psíquico"). A alternativa E é uma paráfrase fiel desse duplo movimento. As demais ou extrapolam, ou contradizem, ou restringem indevidamente o alcance da posição do autor.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a generalização indevida — alternativas que transformam a ressalva do autor em adesão total ou rejeição total. A correta é a única que preserva o movimento concessivo (aceita a metáfora, recusa a patologia).

Posição do autor
  • 1Concessão
    • Metáfora tem utilidade
    • Quem escreve "ouve vozes"
  • 2Ressalva ("Contudo")
    • Evitar associar arte e loucura
    • Sem ares malditos, heroicos ou messiânicos
    • Sem visão romântica
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor julga a frase "equívoca, uma vez que nenhuma arte que problematiza a vida é aceita socialmente". Há dois erros. Primeiro, o autor não julga a frase equívoca — ele a considera útil como metáfora. Segundo, a justificativa é uma extrapolação: o texto não afirma que "nenhuma arte que problematiza a vida é aceita socialmente". Essa ideia não está em nenhuma passagem; foi acrescentada pelo examinador. O texto apenas diz que a escrita é "uma forma socialmente aceita" na fala de Doctorow, sem discutir a aceitação social de outras artes.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o autor considera a frase "oportuna, por considerar que a arte literária deve ser aceita como uma proposta messiânica". O erro está na palavra "messiânica". O texto faz exatamente o oposto: "deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos, heroicos, messiânicos ou mágicos". O autor rejeita qualquer visão messiânica da arte. A alternativa contradiz o texto ao atribuir ao autor uma posição que ele explicitamente combate.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor "recusa-a de todo, por julgá-la uma metáfora improcedente no caso dos grandes escritores". O erro está em "recusa-a de todo" e em "metáfora improcedente". O autor não recusa a frase por completo — ele diz que "Como metáfora, a coisa tem sua utilidade". Além disso, o texto não faz distinção entre "grandes escritores" e outros; essa restrição é uma extrapolação. A alternativa contradiz a concessão explícita do autor.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o autor "referenda-a, uma vez que ela se aplica exemplarmente ao caso dos escritores de índole romântica". Há dois problemas. Primeiro, o autor não referenda a frase integralmente — ele a relativiza. Segundo, o texto não menciona "escritores de índole romântica"; aliás, o autor afirma que "nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura". A alternativa contradiz o texto ao inserir uma categoria (românticos) que o autor explicitamente afasta.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que o autor "relativiza-a de pronto, por não aceitar que se tome a arte literária como sintoma de desajuste psíquico". Isso é uma paráfrase fiel do 3º parágrafo:

"Como metáfora, a coisa tem sua utilidade — quem escreve pode mesmo 'ouvir' vozes dentro da cabeça. Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura"

O verbo "relativizar" capta o movimento concessivo: o autor reconhece o valor da metáfora ("tem sua utilidade"), mas impõe uma ressalva ("Contudo"). A segunda parte da alternativa — "por não aceitar que se tome a arte literária como sintoma de desajuste psíquico" — é sustentada por "deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura". A alternativa não acrescenta nada de fora do texto; ela apenas reorganiza o que está dito.

Gabarito: letra E. A regra de ouro: quando o autor usa uma estrutura concessiva ("como metáfora... contudo"), a resposta correta precisa preservar os dois movimentos — a concessão e a ressalva. Alternativas que optam por um só lado (recusa total ou adesão total) sempre erram.

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