Questão de Português — Concordância (Verbal e Nominal) — FCC 2026
Português›Concordância (Verbal e Nominal)
Código
fc140547
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ SP
Ano
2026
Cargo
AFRE ( )
Uma escolha para viver
Li em algum lugar uma fábula interessante. Sem ser literal, preservo o sentido que me ficou dela.
Na Criação do mundo, um dos intendentes do Céu foi encarregado de definir o tempo de vida que cada espécie deveria ter.
Disse o intendente para a Tartaruga: – Você se dá bem com essa couraça, com essa neutralidade, com essa indiferença aos homens… Vai durar muitos e muitos anos.
Diante do Papagaio, sentenciou: – Essa ideia de plagiar os humanos, imitando-os e gozando-os, divertindo-os e divertindo-se, faz de você um malandrão… Bem merece uma vida longa.
E assim foi seguindo o intendente, dotando as criaturas da longevidade que lhe parecia justa, a partir do critério adotado.
Chegou a vez do Cachorro. O intendente, surpreso, olhou bem nos olhos dele, avaliou seu temperamento, reconheceu suas intenções e não teve dúvida:
– Quer dizer que você já decidiu ser amigo incondicional dos homens? Permanecerá como companheiro fiel até dos que pouco venham a se importar com você? E seguirá os andarilhos nas estradas, se estreitará com os miseráveis nos cantos e nos becos, irá morar com os viciados sob as pontes? Pois então vou te aquinhoar com uns poucos anos: que tua virtude valha teu sacrifício.
Assim sentenciado, o Cachorro abanou o rabo e olhou em volta, irrequieto, à procura de um amigo humano. Dispunha-se a ficar ao lado dele, fosse quem fosse: iria consolá-lo das aflições que viesse a sentir, compartilharia com ele as pequenas alegrias, enfrentaria com ele as chateações deste mundo.
(Alarico Valado, a editar)
Para responder à questão baseie-se no texto seguinte. As normas de concordância verbal estão plenamente observadas na frase:
AO que mais sobressaem nas virtudes com que se compromete o Cachorro é a incondicionalidade de que se nutrem.
BNão interessam à Tartaruga e ao Papagaio, diferentemente do Cachorro, mostrar-se compassivos com o Homem.
CAvulta, entre as qualidades do Cachorro, a associação de virtudes como a generosidade, a empatia e o estoicismo.
DSão de rigor haver nos moldes clássicos de uma fábula passagens simbólicas de que resultam sua moralidade.
ENão haverá de primar por justiça, tal como ocorre nessa fábula, critérios que abonem uma inclinação egoísta.
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GabaritoC — Avulta, entre as qualidades do Cachorro, a associação de virtudes como a generosidade, a empatia e o estoicismo.
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Concordância verbal: o verbo e o sujeito, mesmo de longe
Gabarito: letra C. A frase "Avulta, entre as qualidades do Cachorro, a associação de virtudes como a generosidade, a empatia e o estoicismo" é a única em que o verbo avulta concorda corretamente com o núcleo do sujeito "a associação" (singular), ignorando os termos intercalados "entre as qualidades do Cachorro" e a enumeração "generosidade, empatia e estoicismo". A banca testa exatamente a habilidade de localizar o núcleo do sujeito quando ele vem depois do verbo e cercado de outros elementos — a pegadinha clássica de distanciar o sujeito do verbo.
O comando pede a frase em que "as normas de concordância verbal estão plenamente observadas". Isso significa que devemos testar, em cada alternativa, se o verbo está flexionado em número e pessoa de acordo com o sujeito a que se liga — e não com qualquer outro termo da frase. É uma questão de concordância verbal, não de interpretação: a resposta mora na sintaxe, não no sentido do texto. O texto-base (a fábula da tartaruga, do papagaio e do cachorro) serve apenas de pano de fundo; o que decide é a estrutura gramatical de cada frase.
A técnica central é achar o sujeito antes de julgar o verbo. Em frases com ordem inversa (verbo antes do sujeito), o candidato tende a "concordar" com o termo mais próximo — e é aí que a banca arma. A regra de ouro: o verbo concorda com o núcleo do sujeito, não com adjuntos, complementos ou apostos que apareçam pelo caminho. Veja o caso da alternativa C: o verbo avulta vem primeiro; o sujeito é "a associação de virtudes", cujo núcleo é "associação" (singular). Tudo o que está entre vírgulas — "entre as qualidades do Cachorro" — é adjunto adverbial deslocado, e a enumeração "generosidade, empatia e estoicismo" é apenas um aposto explicativo do termo "virtudes". Nenhum desses elementos pode puxar o verbo para o plural.
A FCC adora esse padrão: distanciar o sujeito do verbo com termos intercalados para ver se o candidato se perde. A defesa é sempre a mesma: sublinhe o verbo, pergunte "quem?" ou "o quê?" antes dele, e ignore o que estiver entre vírgulas ou preposicionado. Se o sujeito for uma oração subordinada substantiva, o verbo da principal fica na 3ª pessoa do singular — como em "É fundamental que os alunos façam as atividades" (o sujeito é a oração "que os alunos façam...", por isso o verbo "é" fica no singular).
Outro ponto que a banca explora: verbos como haver (no sentido de existir) e fazer (indicando tempo) são impessoais e ficam sempre no singular, mesmo em locuções verbais — "Deve haver normas" (e não "devem haver"). Já o verbo existir é pessoal e concorda com o sujeito: "Devem existir normas". Essa distinção é clássica e aparece em várias questões de concordância.
Alternativa
Verbo analisado
Sujeito correto
Erro de concordância
A
"sobressaem"
"O" (pronome demonstrativo, singular)
Verbo no plural, deveria ser "sobressai"
B
"interessam"
Oração subordinada substantiva ("mostrar-se...")
Verbo no plural, deveria ser "interessa"
C
"avulta"
"a associação" (núcleo singular)
Nenhum — concordância correta
D
"São"
Oração subordinada substantiva ("haver...")
Verbo no plural, deveria ser "É"
E
"haverá" (locução "haverá de primar")
"critérios" (plural)
Verbo no singular, deveria ser "haverão"
Concordância verbal: Sujeito simples (Núcleo no singular → verbo singular, Núcleo no plural → verbo plural); Sujeito composto (Anteposto → verbo plural, Posposto → concorda com o mais próximo); Sujeito oracional (Verbo na 3ª pessoa do singular); Verbos impessoais (Haver (existir) → sempre singular, Fazer (tempo) → sempre singular); Pronome relativo "que" (Verbo concorda com o antecedente)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A frase: "O que mais sobressaem nas virtudes com que se compromete o Cachorro é a incondicionalidade de que se nutrem."
O erro está em "sobressaem". O sujeito de "sobressaem" é o pronome relativo "que", cujo antecedente é "O" (pronome demonstrativo, singular). Portanto, o verbo deveria estar no singular: "O que mais sobressai...". A banca tenta confundir fazendo o verbo concordar com "virtudes" (plural), que é apenas o termo da locução "nas virtudes" — um adjunto, não o sujeito. Além disso, há um segundo problema: o verbo "é" deveria concordar com o sujeito "O que mais sobressai" (oração subordinada substantiva), o que está correto, mas o primeiro erro já invalida a frase. Erro: contradiz a regra de concordância com o pronome relativo "que".
Alternativa B — ❌ Incorreta
A frase: "Não interessam à Tartaruga e ao Papagaio, diferentemente do Cachorro, mostrar-se compassivos com o Homem."
Aqui o sujeito é a oração "mostrar-se compassivos com o Homem" (uma oração subordinada substantiva reduzida de infinitivo). Quando o sujeito é uma oração, o verbo da principal fica na 3ª pessoa do singular: "Não interessa à Tartaruga e ao Papagaio...". O plural "interessam" está errado, pois o verbo não pode concordar com os complementos "à Tartaruga e ao Papagaio". A banca arma fazendo o verbo concordar com os termos que vêm antes, mas o sujeito oracional exige singular. Erro: contradiz a regra de concordância com sujeito oracional.
Alternativa C — ✅ Correta
A frase: "Avulta, entre as qualidades do Cachorro, a associação de virtudes como a generosidade, a empatia e o estoicismo."
O verbo "avulta" está no singular e concorda com o núcleo do sujeito "a associação" (singular). Os termos "entre as qualidades do Cachorro" (adjunto adverbial) e a enumeração "generosidade, empatia e estoicismo" (aposto explicativo) não interferem na concordância. A ordem inversa (verbo antes do sujeito) é a pegadinha, mas a regra é clara: o verbo concorda com o núcleo do sujeito, que aqui é "associação". Correta: concorda com o núcleo do sujeito, ignorando os termos intercalados.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A frase: "São de rigor haver nos moldes clássicos de uma fábula passagens simbólicas de que resultam sua moralidade."
O problema está em "São de rigor". O sujeito é a oração "haver nos moldes clássicos de uma fábula passagens simbólicas..." (oração subordinada substantiva subjetiva). Quando o sujeito é uma oração, o verbo da principal fica no singular: "É de rigor haver...". Além disso, o verbo "haver" é impessoal (no sentido de existir) e deveria ficar no singular — "haver" já está correto, mas o "São" inicial quebra a concordância. A banca mistura dois casos especiais para confundir. Erro: contradiz a regra de concordância com sujeito oracional e verbo impessoal.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A frase: "Não haverá de primar por justiça, tal como ocorre nessa fábula, critérios que abonem uma inclinação egoísta."
O verbo "haverá" está no singular, mas aqui ele faz parte da locução verbal "haverá de primar", cujo sujeito é "critérios" (plural). O correto seria "Não haverão de primar... critérios". A banca explora a confusão com o verbo "haver" impessoal, mas neste caso "haver" é auxiliar de uma locução e deve concordar com o sujeito "critérios". Erro: contradiz a regra de concordância do verbo auxiliar com o sujeito.
NÃO CAIA NESSA!
A FCC adora distanciar o sujeito do verbo com termos intercalados (adjuntos, apostos, orações) para testar se você localiza o núcleo. A defesa é sempre a mesma: sublinhe o verbo, pergunte "quem?" ou "o quê?" e ignore o que estiver entre vírgulas ou preposicionado.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de concordância, desconfie de verbos no plural quando o sujeito parece ser uma oração ou quando há termos entre vírgulas. Teste sempre: "quem pratica a ação?" — a resposta é o sujeito, e é com ele que o verbo deve concordar.
Gabarito: letra C — a única frase em que o verbo concorda corretamente com o núcleo do sujeito, ignorando os termos intercalados.