Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140548
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ SP
Ano
2026
Cargo
AFRE ( )
Uma escolha para viver
Li em algum lugar uma fábula interessante. Sem ser literal, preservo o sentido que me ficou dela.
Na Criação do mundo, um dos intendentes do Céu foi encarregado de definir o tempo de vida que cada espécie deveria ter.
Disse o intendente para a Tartaruga: – Você se dá bem com essa couraça, com essa neutralidade, com essa indiferença aos homens… Vai durar muitos e muitos anos.
Diante do Papagaio, sentenciou: – Essa ideia de plagiar os humanos, imitando-os e gozando-os, divertindo-os e divertindo-se, faz de você um malandrão… Bem merece uma vida longa.
E assim foi seguindo o intendente, dotando as criaturas da longevidade que lhe parecia justa, a partir do critério adotado.
Chegou a vez do Cachorro. O intendente, surpreso, olhou bem nos olhos dele, avaliou seu temperamento, reconheceu suas intenções e não teve dúvida:
– Quer dizer que você já decidiu ser amigo incondicional dos homens? Permanecerá como companheiro fiel até dos que pouco venham a se importar com você? E seguirá os andarilhos nas estradas, se estreitará com os miseráveis nos cantos e nos becos, irá morar com os viciados sob as pontes? Pois então vou te aquinhoar com uns poucos anos: que tua virtude valha teu sacrifício.
Assim sentenciado, o Cachorro abanou o rabo e olhou em volta, irrequieto, à procura de um amigo humano. Dispunha-se a ficar ao lado dele, fosse quem fosse: iria consolá-lo das aflições que viesse a sentir, compartilharia com ele as pequenas alegrias, enfrentaria com ele as chateações deste mundo.
(Alarico Valado, a editar)
Para responder à questão baseie-se no texto seguinte. O critério que norteia o intendente do Céu em seu encargo específico consiste em, para cada espécie,
Adefinir a expectativa de vida conforme sua assumida disposição para o convívio com outra determinada espécie.
Bavaliar a durabilidade de cada uma consoante a convicção de quem se define por sua estrita independência.
Cdeterminar sua longevidade segundo o sacrifício imposto pelo exercício pleno de sua virtude original.
Dacrescer ao seu tempo de vida uma espécie de bônus que faça jus ao cumprimento de sua vocação.
Erecalcular a durabilidade da vida no caso de eventuais inconstâncias em seu modo de avaliar outra espécie.
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GabaritoA — definir a expectativa de vida conforme sua assumida disposição para o convívio com outra determinada espécie.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
O critério do intendente: longevidade como prêmio à disposição de convívio
Gabarito: letra A. O critério que norteia o intendente do Céu é definir a expectativa de vida de cada espécie conforme sua assumida disposição para o convívio com outra determinada espécie — no caso, a relação de cada animal com os homens. A passagem que ancora essa leitura é a fala sobre o Cachorro: o intendente o aquinhoa com poucos anos justamente porque ele "já decidiu ser amigo incondicional dos homens", enquanto a Tartaruga, marcada pela "indiferença aos homens", ganha vida longa. A alternativa A é a única que generaliza corretamente esse padrão: a longevidade é proporcional ao tipo de relação que a espécie assume com outra.
O comando pede compreensão ("O critério que norteia o intendente... consiste em"), ou seja, exige localizar e parafrasear uma informação que o texto sustenta — não inferir algo além dele. A resposta certa precisa resumir o princípio que o intendente aplica a todas as espécies, e não apenas descrever um caso isolado. Vejamos como o texto constrói esse princípio.
O narrador afirma que o intendente foi "dotando as criaturas da longevidade que lhe parecia justa, a partir do critério adotado". Esse critério aparece em cada caso: à Tartaruga, ele concede muitos anos por causa da "indiferença aos homens"; ao Papagaio, vida longa porque "plagiar os humanos... faz de você um malandrão"; ao Cachorro, poucos anos porque ele decidiu ser "amigo incondicional dos homens". Em todos os exemplos, o que decide a longevidade é a postura da espécie diante dos homens — ou seja, sua disposição de convívio com outra espécie. A alternativa A captura exatamente esse eixo.
A armadilha central da questão é a generalização indevida: as distratoras pegam um detalhe de um caso específico (o sacrifício do Cachorro, a virtude, a vocação) e o transformam no critério geral, quando o texto mostra que o critério é mais amplo — a relação com outra espécie. A letra A é a única que não restringe o princípio a um único animal.
"Chegou a vez do Cachorro. O intendente, surpreso, olhou bem nos olhos dele, avaliou seu temperamento, reconheceu suas intenções e não teve dúvida: – Quer dizer que você já decidiu ser amigo incondicional dos homens? ... Pois então vou te aquinhoar com uns poucos anos: que tua virtude valha teu sacrifício."
Aqui está a prova: o intendente avalia o temperamento e as intenções do Cachorro — sua disposição de convívio com os homens — e, com base nisso, define a longevidade. O mesmo padrão se repete com a Tartaruga ("indiferença aos homens" → vida longa) e com o Papagaio ("plagiar os humanos" → vida longa). A alternativa A sintetiza esse critério sem acrescentar nada de fora.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que o critério é "definir a expectativa de vida conforme sua assumida disposição para o convívio com outra determinada espécie". Isso é uma paráfrase fiel do texto: o intendente observa como cada espécie se relaciona com os homens (convívio, indiferença, imitação) e, a partir disso, define os anos de vida. A palavra "assumida" encontra eco em "você já decidiu ser amigo incondicional dos homens" — o Cachorro assumiu uma postura. Nada aqui extrapola o texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "convicção de quem se define por sua estrita independência". O texto não menciona independência como critério — pelo contrário, a Tartaruga ganha vida longa por sua indiferença, não por independência, e o Cachorro ganha poucos anos por sua dependência afetiva dos homens. A alternativa inverte o eixo: o critério não é a independência da espécie, mas o tipo de relação que ela estabelece com outra. Erro de troca de conceito.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Segundo o sacrifício imposto pelo exercício pleno de sua virtude original" — essa é uma leitura restrita ao caso do Cachorro. O texto diz "que tua virtude valha teu sacrifício", mas isso se aplica apenas ao Cachorro, não à Tartaruga (que não tem virtude de sacrifício) nem ao Papagaio (cuja "virtude" é a malandragem). A alternativa restringe o critério geral a um único exemplo, cometendo generalização indevida ao transformar o caso particular em regra universal.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Acrescer ao seu tempo de vida uma espécie de bônus que faça jus ao cumprimento de sua vocação" — o texto não fala em "bônus" nem em "vocação". O intendente não acrescenta nada; ele define a longevidade desde o início, com base na disposição da espécie. A palavra "bônus" sugere um prêmio adicional, o que não está no texto. A alternativa extrapola ao introduzir a ideia de acréscimo e de vocação, que não aparecem em nenhum trecho.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Recalcular a durabilidade da vida no caso de eventuais inconstâncias em seu modo de avaliar outra espécie" — o texto não menciona recalcular nem inconstâncias. O intendente define a longevidade uma única vez, sem revisões. A alternativa inventa um mecanismo de reavaliação que não existe na fábula. Erro de extrapolação pura: acrescenta informação que o texto não autoriza.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a generalização indevida — pega o caso do Cachorro (sacrifício, virtude) e o apresenta como critério geral, quando o texto mostra que o critério é a relação com outra espécie. A letra A é a única que não restringe o princípio a um único animal.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?". Se a alternativa só funciona para um exemplo, ela não pode ser o critério geral.