Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140549
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ SP
Ano
2026
Cargo
AFRE ( )
Uma escolha para viver
Li em algum lugar uma fábula interessante. Sem ser literal, preservo o sentido que me ficou dela.
Na Criação do mundo, um dos intendentes do Céu foi encarregado de definir o tempo de vida que cada espécie deveria ter.
Disse o intendente para a Tartaruga: – Você se dá bem com essa couraça, com essa neutralidade, com essa indiferença aos homens… Vai durar muitos e muitos anos.
Diante do Papagaio, sentenciou: – Essa ideia de plagiar os humanos, imitando-os e gozando-os, divertindo-os e divertindo-se, faz de você um malandrão… Bem merece uma vida longa.
E assim foi seguindo o intendente, dotando as criaturas da longevidade que lhe parecia justa, a partir do critério adotado.
Chegou a vez do Cachorro. O intendente, surpreso, olhou bem nos olhos dele, avaliou seu temperamento, reconheceu suas intenções e não teve dúvida:
– Quer dizer que você já decidiu ser amigo incondicional dos homens? Permanecerá como companheiro fiel até dos que pouco venham a se importar com você? E seguirá os andarilhos nas estradas, se estreitará com os miseráveis nos cantos e nos becos, irá morar com os viciados sob as pontes? Pois então vou te aquinhoar com uns poucos anos: que tua virtude valha teu sacrifício.
Assim sentenciado, o Cachorro abanou o rabo e olhou em volta, irrequieto, à procura de um amigo humano. Dispunha-se a ficar ao lado dele, fosse quem fosse: iria consolá-lo das aflições que viesse a sentir, compartilharia com ele as pequenas alegrias, enfrentaria com ele as chateações deste mundo.
(Alarico Valado, a editar)
Para responder à questão baseie-se no texto seguinte.
Dirigindo-se ao Cachorro, diz o intendente que tua virtude valha teu sacrifício, frase com a qual acentua sua
Aincredulidade diante de quem se mostra tão incapaz de reconhecer seus limites.
Brazão para ser cético diante de quem conta com a solidariedade dos outros.
Cadmiração por quem é capaz de se contrapor à sua própria natureza.
Dirritabilidade com quem tão bem dissimula a fragilidade natural de seu ser.
Econvicção quanto a uma desejável articulação entre valores morais.
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GabaritoE — convicção quanto a uma desejável articulação entre valores morais.
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A convicção do intendente diante da virtude do Cachorro
Gabarito: letra E. A frase "que tua virtude valha teu sacrifício" expressa a convicção do intendente de que há uma articulação desejável entre valores morais — a virtude (lealdade) compensa o sacrifício (vida curta). Isso se ancora no trecho em que o intendente, após reconhecer a decisão do Cachorro de ser "amigo incondicional dos homens", sentencia: "Pois então vou te aquinhoar com uns poucos anos: que tua virtude valha teu sacrifício." A alternativa E é a única que capta esse sentido de aprovação e reconhecimento sem acrescentar juízos negativos ou distorcer o tom do texto.
O comando: interpretação de sentido contextual
O enunciado pede que se identifique o que a frase "que tua virtude valha teu sacrifício" acentua — ou seja, qual efeito de sentido ela produz no contexto. Isso é uma questão de interpretação (inferência), não de mera localização literal. Você precisa perceber o tom e a intenção do intendente ao proferir a frase, e não apenas decodificar as palavras.
O texto: a fábula e o julgamento do Cachorro
Na fábula, o intendente do Céu define o tempo de vida de cada espécie com base em um critério: a conduta de cada animal. Para a Tartaruga, ele concede vida longa por sua "neutralidade" e "indiferença"; para o Papagaio, por sua capacidade de "plagiar os humanos". Já o Cachorro é descrito como aquele que "já decidiu ser amigo incondicional dos homens", que seguirá os andarilhos, se estreitará com os miseráveis e morará com os viciados. O intendente, então, reconhece essa virtude (lealdade, solidariedade) e, paradoxalmente, concede-lhe poucos anos de vida, justificando: "que tua virtude valha teu sacrifício".
A frase é uma bênção ou reconhecimento: o sacrifício (vida curta) é compensado pela virtude (lealdade). O intendente não está sendo irônico ou crítico — ele está afirmando que a virtude do Cachorro é tão grande que vale a pena o sacrifício. Isso revela sua convicção de que valores morais como a lealdade são superiores à longevidade.
A técnica: como distinguir convicção de admiração
A pegadinha central está entre as alternativas C e E. A admiração (C) é um sentimento de respeito ou encantamento; a convicção (E) é uma certeza ou crença em algo. O texto mostra o intendente reconhecendo a virtude do Cachorro e afirmando que ela vale o sacrifício — isso é mais do que admiração: é uma declaração de princípios. A frase "que tua virtude valha teu sacrifício" tem valor de desejo ou bênção, mas também de constatação — o intendente está convencido de que a virtude é um valor que justifica o sacrifício.
Além disso, as alternativas A, B e D introduzem juízos negativos (incredulidade, ceticismo, irritabilidade) que não têm respaldo no texto. O intendente não demonstra desconfiança ou irritação; pelo contrário, ele "olhou bem nos olhos dele, avaliou seu temperamento, reconheceu suas intenções e não teve dúvida" — ou seja, ele confia no Cachorro e aprova sua escolha.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
Incredulidade diante de quem se mostra tão incapaz de reconhecer seus limites.
O texto não sugere incredulidade. O intendente "não teve dúvida" ao avaliar o Cachorro, o que indica certeza, não descrença. Além disso, a ideia de "incapaz de reconhecer seus limites" é uma extrapolação: o texto não diz que o Cachorro é incapaz de reconhecer limites; pelo contrário, ele escolhe conscientemente ser amigo dos homens, mesmo sabendo do sacrifício. A alternativa contradiz o tom de aprovação do intendente.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Razão para ser cético diante de quem conta com a solidariedade dos outros.
O texto não apresenta o intendente como cético. Ele reconhece a virtude do Cachorro e a recompensa com uma bênção. A ideia de "contar com a solidariedade dos outros" é uma distorção: o Cachorro não conta com a solidariedade alheia; ele oferece solidariedade aos outros ("irá consolá-lo das aflições"). A alternativa inverte o sentido da relação: o Cachorro é quem dá, não quem recebe.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Admiração por quem é capaz de se contrapor à sua própria natureza.
A alternativa C é tentadora, pois o intendente claramente admira a lealdade do Cachorro. No entanto, o texto não fala em "se contrapor à própria natureza" — o Cachorro não age contra sua natureza; ele age de acordo com sua natureza leal. A expressão "contrapor-se à própria natureza" é uma extrapolação que não encontra respaldo no texto. Além disso, a frase em questão acentua mais a convicção (E) do que a mera admiração, pois expressa um julgamento de valor sobre a virtude.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Irritabilidade com quem tão bem dissimula a fragilidade natural de seu ser.
Não há qualquer indício de irritabilidade no texto. O intendente age com serenidade e justiça, avaliando cada espécie. A ideia de "dissimular a fragilidade" é uma invenção: o Cachorro não dissimula nada; ele é transparente em sua lealdade ("abanou o rabo e olhou em volta, irrequieto, à procura de um amigo humano"). A alternativa contradiz o texto e projeta um sentimento negativo que não existe.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Convicção quanto a uma desejável articulação entre valores morais.
A frase "que tua virtude valha teu sacrifício" expressa a convicção do intendente de que a virtude (lealdade, solidariedade) é um valor tão alto que justifica o sacrifício (vida curta). Isso é uma articulação entre valores morais: a virtude compensa o sacrifício. O texto confirma isso ao mostrar o intendente reconhecendo as intenções do Cachorro e, em seguida, proferindo a frase como uma bênção ou reconhecimento. A alternativa E capta exatamente esse sentido de certeza e aprovação moral.
"Pois então vou te aquinhoar com uns poucos anos: que tua virtude valha teu sacrifício."
Aqui, o intendente afirma que a virtude do Cachorro é tão grande que vale a pena o sacrifício — uma convicção sobre a importância dos valores morais.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de inferir o efeito de sentido de uma frase no contexto. A alternativa E é a única que se sustenta integralmente no texto, pois expressa a convicção do intendente sobre a articulação entre virtude e sacrifício. As demais ou extrapolam (C), contradizem o texto (A, B, D) ou invertem a relação (B).
PEGA ESSA DICA!
Ao interpretar uma frase, pergunte-se: qual é o tom do autor? Ele está aprovando, criticando ou duvidando? No texto, o intendente aprova a virtude do Cachorro, o que elimina as alternativas com tom negativo (A, B, D).