Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140553
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ SP
Ano
2026
Cargo
AFRE ( )
Mas o grande perigo da crítica é um dedutivismo ingênuo que, partindo de uma pré-noção, acha no seu campo de pesquisas apenas aquilo que procura. Veja-se, por exemplo, o caso de Taine. Já Edmond Schérer, num dos seus “estudos” mais felizes, apontava os lados fracos da interpretação tainiana da arte ou da história literária. Em vez de proceder por indução, Taine deduz forçosamente de uma ideia preconcebida as componentes que deverão formar o caráter de uma época ou o espírito de uma literatura.
Sem dúvida, o crítico não pode prescindir de uma hipótese, como o cientista, para abrir uma picada no mato virgem dos fatos. Mas também não deve esquecer que, além da clareira mensurável, começa a exuberância das probabilidades, como uma floresta de interrogações. Respeitar o outro lado provável das coisas, admitir em tudo a parte do indeterminado é uma boa tática para quem não gosta de tropeçar em surpresas irônicas.
(Adaptado de: MEYER, Augusto. “Mas…”. Machado de Assis (1935–1958). Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2008, p. 65)
Considere o texto a seguir para responder à questão.
Considere o seguinte trecho da Ética a Nicômacos, de Aristóteles:
Nossa discussão será apropriada se tiver tanta clareza quanto comporta o assunto, pois não se deve exigir a precisão em todos os raciocínios por igual [...]. E é dentro do mesmo espírito que cada proposição deverá ser recebida, pois é próprio do homem culto buscar a precisão, em cada gênero de coisas, apenas na medida em que a admite a natureza do assunto.
(Adaptado de: Aristóteles. Ética a Nicômacos. Brasília: Editora UnB, 3. ed., 1992, p. 18)
Confrontando o trecho acima com o texto de Augusto Meyer, considere as seguintes afirmativas:
I. Enquanto Aristóteles demonstra conhecer seu objeto o suficiente para estimar o teor de suas proposições, Augusto Meyer considera, em sua abordagem, a possibilidade do novo.
II. Em ambos os textos, busca-se uma adequação entre método e objeto a ser analisado, a qual tem como ponto de partida a consideração das características do objeto.
III. Aristóteles, ao dizer que não se deve exigir a precisão em todos os raciocínios por igual, assemelha-se, quanto ao método, a Taine, que, segundo Augusto Meyer, deduz forçosamente de uma ideia preconcebida as componentes que deverão formar o caráter de uma época.
Está correto o que se afirma em
AII, apenas.
BI e II, apenas.
CIII, apenas.
DI, II e III.
EI e III, apenas.
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GabaritoB — I e II, apenas.
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Confronto entre Aristóteles e Augusto Meyer: método e objeto
Gabarito: letra B (I e II, apenas). A questão pede que se confrontem dois textos — o trecho da Ética a Nicômacos e o texto de Augusto Meyer — e a resposta correta é a que reconhece que I e II são verdadeiras, enquanto III é falsa. O erro de III está em aproximar Aristóteles de Taine: o filósofo grego defende a adequação da precisão à natureza do assunto, enquanto Taine, segundo Meyer, parte de uma ideia preconcebida e deduz forçosamente as componentes — posturas metodológicas opostas, não semelhantes.
O comando: confronto entre textos
O enunciado pede uma comparação entre dois textos: o trecho de Aristóteles e o texto de Augusto Meyer. Não se trata de compreender cada texto isoladamente, mas de estabelecer relações de semelhança e diferença entre as posturas metodológicas de cada autor. A tarefa exige que se leia cada afirmativa e se verifique se ela é sustentada por ambos os textos (ou por um deles, conforme o caso).
O texto de Aristóteles: a precisão proporcional ao assunto
No trecho da Ética a Nicômacos, Aristóteles afirma que "não se deve exigir a precisão em todos os raciocínios por igual" e que "é próprio do homem culto buscar a precisão, em cada gênero de coisas, apenas na medida em que a admite a natureza do assunto". A tese central é clara: o método deve se adequar ao objeto. A precisão não é um valor absoluto; ela deve ser proporcional à natureza do que se estuda. Isso revela que Aristóteles conhece seu objeto o suficiente para saber qual grau de precisão é apropriado — ele não exige o mesmo rigor de uma ética e de uma geometria, por exemplo.
O texto de Augusto Meyer: a crítica ao dedutivismo e a abertura ao novo
O texto de Meyer critica o "dedutivismo ingênuo" que "partindo de uma pré-noção, acha no seu campo de pesquisas apenas aquilo que procura". O exemplo de Taine ilustra o erro: em vez de proceder por indução, Taine "deduz forçosamente de uma ideia preconcebida as componentes que deverão formar o caráter de uma época". Meyer, porém, não nega a hipótese — ele a admite como necessária, mas alerta que o crítico "não deve esquecer que, além da clareira mensurável, começa a exuberância das probabilidades". A postura defendida é a de respeitar o outro lado provável das coisas, admitir em tudo a parte do indeterminado — ou seja, estar aberto ao novo, ao que não estava previsto na hipótese inicial.
A técnica que decide: semelhança e oposição de método
A questão testa a capacidade de comparar posturas metodológicas. A afirmativa I é verdadeira porque Aristóteles demonstra conhecer seu objeto (sabe qual precisão exigir) e Meyer considera a possibilidade do novo (admite o indeterminado). A afirmativa II é verdadeira porque ambos buscam adequar método e objeto: Aristóteles explícita isso ao dizer que a precisão deve seguir a natureza do assunto; Meyer, ao criticar Taine por impor uma ideia preconcebida ao objeto, implicitamente defende que o método deve partir das características do objeto. A afirmativa III é falsa porque inverte a relação: Aristóteles não deduz de uma ideia preconcebida; ele parte do objeto para definir o método. Taine faz o oposto — parte da pré-noção e impõe ao objeto. São métodos opostos, não semelhantes.
Confronto metodológico: Aristóteles (Precisão proporcional ao assunto, Conhece o objeto, Parte do objeto → método); Augusto Meyer (Crítica ao dedutivismo, Admite o indeterminado, Abertura ao novo); Taine (contraponto) (Deduz de ideia preconcebida, Impõe a pré-noção ao objeto)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que apenas II está correta. A afirmativa I também é verdadeira: Aristóteles demonstra conhecer seu objeto ao afirmar que a precisão deve ser proporcional à natureza do assunto — ele sabe o que pode exigir de cada área. Meyer, por sua vez, considera a possibilidade do novo ao defender que se admita "a parte do indeterminado". A alternativa restringe o conjunto correto, deixando de fora uma afirmativa verdadeira.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Afirma que I e II estão corretas. A afirmativa I é verdadeira: Aristóteles demonstra conhecer seu objeto ("buscar a precisão... apenas na medida em que a admite a natureza do assunto") e Meyer considera a possibilidade do novo ("admitir em tudo a parte do indeterminado"). A afirmativa II é verdadeira: ambos buscam adequação entre método e objeto — Aristóteles explicitamente (a precisão segue a natureza do assunto) e Meyer implicitamente (critica Taine por impor uma pré-noção ao objeto, o que implica que o método deveria partir do objeto). A afirmativa III é falsa, como se verá abaixo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que apenas III está correta. A afirmativa III é falsa: Aristóteles não se assemelha a Taine quanto ao método. Taine, segundo Meyer, "deduz forçosamente de uma ideia preconcebida as componentes" — parte da pré-noção e impõe ao objeto. Aristóteles, ao contrário, parte do objeto para definir o grau de precisão: "buscar a precisão... apenas na medida em que a admite a natureza do assunto". São posturas opostas: um impõe a ideia ao objeto; o outro adequa o método ao objeto. A alternativa contradiz o texto de Meyer e o de Aristóteles.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que I, II e III estão corretas. Como III é falsa, a alternativa cai. O erro está em aceitar a falsa semelhança entre Aristóteles e Taine. A alternativa generaliza indevidamente, incluindo uma afirmativa que o texto não sustenta.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que I e III estão corretas. A afirmativa III é falsa, como demonstrado. A alternativa contradiz o texto ao aproximar Aristóteles de Taine, quando na verdade são métodos opostos.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a troca de relação — inverte a direção do método. Taine impõe a ideia ao objeto; Aristóteles adequa o método ao objeto. A afirmativa III os aproxima, mas o texto os opõe.
PEGA ESSA DICA!
Ao confrontar textos, sublinhe a tese de cada um e pergunte: "este autor parte do objeto ou da ideia?". Aristóteles parte do objeto; Taine parte da ideia. São opostos.
Conclusão: a questão testa a comparação de posturas metodológicas. I e II são verdadeiras porque ambos os autores defendem a adequação do método ao objeto (Aristóteles explicitamente, Meyer implicitamente). III é falsa porque inverte a relação: Aristóteles não deduz de uma ideia preconcebida, como Taine. Portanto, Gabarito: letra B.