Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140554
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ SP
Ano
2026
Cargo
AFRE ( )
Mas o grande perigo da crítica é um dedutivismo ingênuo que, partindo de uma pré-noção, acha no seu campo de pesquisas apenas aquilo que procura. Veja-se, por exemplo, o caso de Taine. Já Edmond Schérer, num dos seus “estudos” mais felizes, apontava os lados fracos da interpretação tainiana da arte ou da história literária. Em vez de proceder por indução, Taine deduz forçosamente de uma ideia preconcebida as componentes que deverão formar o caráter de uma época ou o espírito de uma literatura.
Sem dúvida, o crítico não pode prescindir de uma hipótese, como o cientista, para abrir uma picada no mato virgem dos fatos. Mas também não deve esquecer que, além da clareira mensurável, começa a exuberância das probabilidades, como uma floresta de interrogações. Respeitar o outro lado provável das coisas, admitir em tudo a parte do indeterminado é uma boa tática para quem não gosta de tropeçar em surpresas irônicas.
(Adaptado de: MEYER, Augusto. “Mas…”. Machado de Assis (1935–1958). Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2008, p. 65)
Considere o texto a seguir para responder à questão. Acerca das estratégias de argumentação no texto,
Ao contraexemplo da mata virgem, opondo-se ao exemplo de Taine, no segundo parágrafo, é utilizado para ilustrar a escolha do autor pelo raciocínio indutivo.
Bno segmento “Respeitar o outro lado provável das coisas”, corrobora-se o compromisso com uma teoria a partir da qual se devem deduzir as características de uma obra de arte.
Ca analogia com o cientista, no segundo parágrafo, é argumento que reitera o caráter ingênuo do uso da dedução na análise literária.
Do primeiro parágrafo argumenta por meio do exemplo de Taine, alicerçado, por sua vez, em um argumento de autoridade, com a menção a Edmond Schérer.
Eo exemplo de Taine presta-se, enquanto argumento, para descartar o raciocínio dedutivo como método de compreensão no contexto das obras literárias.
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GabaritoD — o primeiro parágrafo argumenta por meio do exemplo de Taine, alicerçado, por sua vez, em um argumento de autoridade, com a menção a Edmond Schérer.
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Estratégias de argumentação: o exemplo de Taine e o argumento de autoridade
Gabarito: letra D. O primeiro parágrafo argumenta por meio do exemplo de Taine, e esse exemplo é alicerçado em um argumento de autoridade, com a menção a Edmond Schérer — como se lê no trecho: "Já Edmond Schérer, num dos seus 'estudos' mais felizes, apontava os lados fracos da interpretação tainiana da arte ou da história literária". A alternativa D é a única que descreve com precisão essa dupla estratégia: o autor usa o caso de Taine como exemplo e recorre à autoridade de Schérer para sustentar a crítica.
O comando pede que você identifique as estratégias de argumentação empregadas no texto. Isso é uma questão de compreensão (recorrência): a resposta está explicitamente construída no texto, ainda que parafraseada. Não se trata de inferir algo implícito, mas de reconhecer como o autor organiza seus argumentos: ele apresenta uma tese (o perigo do dedutivismo ingênuo), ilustra com um exemplo (Taine) e reforça esse exemplo com a opinião de um especialista (Schérer).
O texto é um trecho de dissertação argumentativa: o autor defende que o crítico não deve cair no "dedutivismo ingênuo", mas também não pode prescindir de hipóteses. No primeiro parágrafo, ele critica Taine por deduzir "forçosamente de uma ideia preconcebida" as características de uma época ou literatura. Para dar peso a essa crítica, cita Schérer, que já havia apontado "os lados fracos" da interpretação tainiana. No segundo parágrafo, ele faz uma ressalva: o crítico pode usar hipóteses, como o cientista, desde que respeite "o outro lado provável das coisas".
A técnica para resolver é identificar a função de cada elemento citado. O exemplo de Taine serve para ilustrar o dedutivismo ingênuo criticado. A menção a Schérer é um argumento de autoridade: o autor não se apoia apenas na própria opinião, mas na de um crítico reconhecido. Já a analogia com o cientista (segundo parágrafo) serve para relativizar a crítica: mostra que a hipótese é necessária, desde que não se torne uma camisa de força. A alternativa D capta exatamente essa estrutura.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o papel do exemplo de Taine (ilustrar o erro) com o da analogia do cientista (mostrar a necessidade da hipótese). Quem não percebe a diferença pode cair na letra C, que inverte o sentido da analogia.
Estratégias de argumentação: Exemplo de Taine (Ilustra o dedutivismo ingênuo, Apoiado em argumento de autoridade (Schérer)); Analogia com o cientista (Hipótese é necessária, Respeitar o indeterminado); Metáfora da mata virgem (Abrir picada nos fatos)
Alternativa A — ❌ Incorreta
O texto não apresenta o "contraexemplo da mata virgem" como oposição ao exemplo de Taine. A imagem da mata virgem aparece no segundo parágrafo como metáfora da necessidade de hipóteses: "o crítico não pode prescindir de uma hipótese, como o cientista, para abrir uma picada no mato virgem dos fatos". Ela não se opõe ao exemplo de Taine; apenas ilustra a função da hipótese. Além disso, o autor não "escolhe" o raciocínio indutivo — ele apenas critica o dedutivismo ingênuo, mas admite o uso de hipóteses. Erro: extrapolação (atribui ao texto uma oposição e uma escolha que não existem).
Alternativa B — ❌ Incorreta
O trecho "Respeitar o outro lado provável das coisas" não corrobora o compromisso com uma teoria da qual se deduzem características de obras. Pelo contrário: o autor defende "admitir em tudo a parte do indeterminado", ou seja, não deduzir tudo de uma teoria. A alternativa inverte o sentido do texto. Erro: contradiz o texto (troca a defesa da abertura ao provável por um compromisso com a dedução).
Alternativa C — ❌ Incorreta
A analogia com o cientista não reitera o caráter ingênuo da dedução; ela mostra que a hipótese é legítima: "Sem dúvida, o crítico não pode prescindir de uma hipótese, como o cientista". O autor não diz que a dedução é ingênua em si, mas que o dedutivismo ingênuo (deduzir de uma pré-noção sem respeitar o indeterminado) é perigoso. A analogia serve para relativizar a crítica, não para reforçá-la. Erro: troca de conceito (confunde a crítica ao dedutivismo com a rejeição de toda dedução).
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O primeiro parágrafo argumenta com o exemplo de Taine, e esse exemplo é sustentado pela autoridade de Schérer. O texto diz: "Já Edmond Schérer, num dos seus 'estudos' mais felizes, apontava os lados fracos da interpretação tainiana". O autor não apenas afirma que Taine erra; ele cita um crítico respeitado que já havia apontado o problema. Isso é exatamente um argumento de autoridade a serviço do exemplo. A alternativa D descreve com fidelidade essa estratégia.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O exemplo de Taine não serve para "descartar o raciocínio dedutivo como método". O autor critica o dedutivismo ingênuo, mas no segundo parágrafo admite que o crítico "não pode prescindir de uma hipótese" — e a hipótese, no método científico, envolve dedução. O texto não descarta a dedução; apenas alerta para o perigo de deduzir de uma pré-noção sem considerar o indeterminado. Erro: generalização indevida (transforma a crítica a um uso específico em rejeição total do método).
Conclusão: a questão testa sua capacidade de reconhecer as estratégias argumentativas do texto. A letra D é a única que identifica corretamente o uso do exemplo de Taine com o apoio de autoridade de Schérer. As demais ou extrapolam, ou invertem o sentido, ou confundem os papéis dos elementos. Lembre-se: em questões de compreensão, a resposta está no texto — não acrescente ideias de fora.