Questão de Português — Denotação e Conotação — FCC 2026
Português›Denotação e Conotação
Código
fc140561
Banca
FCC
Órgão
MPE AP
Ano
2026
Cargo
Ana Min ( )
Nos poços
Primeiro você cai num Poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.
(Adaptado de: ABREU, Caio Fernando. O ovo apunhalado, 2025)
Atenção: Para responder à questão, leia o texto abaixo.
A materialidade das imagens, referentes a termos como "pedras", "limo", "água", "terra" e "cheiro" assume no texto um valor conotativo que
Asugere neutralidade descritiva, afastando o texto de qualquer caráter simbólico.
Breforça o realismo da narrativa, afastando o texto de qualquer expressão metafórica.
Cdescreve objetivamente o ambiente subterrâneo, sem recorrer à dimensão simbólica.
Dremete a um mergulho simbólico no inconsciente e na regeneração interior.
Eexprime apenas a percepção tátil do espaço, limitando-se à experiência sensorial direta.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoD — remete a um mergulho simbólico no inconsciente e na regeneração interior.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Denotação e conotação: o mergulho simbólico do poço
Gabarito: letra D. A materialidade das imagens — "pedras", "limo", "água", "terra", "cheiro" — assume valor conotativo porque o poço não é um buraco físico: é uma metáfora do mergulho interior, da descida ao inconsciente e da regeneração. O texto autoriza essa leitura em passagens como "A gente morre um pouco em cada poço" e "Morrer é entrar noutra", que só fazem sentido se o poço simbolizar etapas de transformação existencial, não um espaço geológico.
O comando pede que você reconheça o valor conotativo (figurado, simbólico) das imagens materiais. Isso é diferente de pedir o sentido denotativo (literal). A banca quer que você perceba que palavras concretas — pedras, limo, água, terra, cheiro — estão sendo usadas não para descrever um ambiente físico, mas para construir uma alegoria da experiência interior. O texto inteiro é uma reflexão poética sobre cair, morrer e renascer, e o poço é o símbolo central dessa travessia.
A técnica decisiva é testar cada alternativa perguntando: o texto autoriza esta leitura, ou ela exige acrescentar algo de fora? As alternativas A, B, C e E tentam "prender" o texto ao sentido literal, negando o simbolismo. A letra D é a única que abraça a dimensão figurada, que é exatamente o que o texto constrói. Vejamos cada uma.
"A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra."
Esta passagem é a chave: "morrer" aqui não é morte física (denotação), é transformação, passagem para outro estado — sentido claramente conotativo. O poço, portanto, não é um buraco no chão; é o símbolo de uma etapa de vida, de um mergulho interior.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que há "neutralidade descritiva" e ausência de "caráter simbólico". O texto é o oposto: é inteiramente simbólico. A pergunta retórica "no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê" não descreve nada; provoca uma reflexão existencial. Não há neutralidade — há lirismo e subjetividade.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. Dizer que o texto "reforça o realismo" e "afasta qualquer expressão metafórica" é inverter o que está escrito. O texto é uma metáfora estendida: o poço, as pedras, o limo, a água — tudo é símbolo. Não há realismo; há alegoria. A banca troca o sentido figurado pelo literal.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. "Descreve objetivamente o ambiente subterrâneo" — o texto não descreve nada objetivamente. Ele repete "o poço do poço" e "poço do poço do poço do poço", numa progressão que não é espacial, mas interior. A repetição sugere camadas de profundidade psicológica, não um ambiente físico. A dimensão simbólica é o coração do texto.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Acerto: reconhece a conotação. A alternativa capta exatamente o movimento do texto: as imagens materiais (pedras, limo, água, terra, cheiro) são a "materialidade" que reveste um mergulho simbólico no inconsciente e na regeneração interior. O texto fala de cair, sentir medo, morrer um pouco e descobrir algo no fundo — tudo isso é a descrição poética de uma jornada interna de autoconhecimento e renovação. A passagem "Morrer é entrar noutra" confirma: morrer aqui é renascer, é regenerar-se.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: restringe o alcance. A alternativa limita o texto à "percepção tátil" e à "experiência sensorial direta". É verdade que o texto menciona sensações (umidade, cheiro), mas elas não são um fim em si — são o ponto de partida para o simbolismo. Reduzir o texto a sensações físicas é ignorar toda a camada metafórica que o sustenta. A banca restringe o sentido para tentar te enganar.
NÃO CAIA NESSA!
A banca aposta na literalidade — oferece alternativas que "prendem" o texto ao sentido denotativo (neutralidade, realismo, objetividade, sensorialidade) para ver se você percebe que o poço é uma metáfora. A palavra que denuncia a pegadinha é "simbólico": o texto é construído inteiramente sobre símbolos.
PEGA ESSA DICA!
Quando a questão perguntar sobre conotação, procure a passagem em que o sentido literal é impossível. "Morrer não dói" e "morrer é entrar noutra" não podem ser lidos ao pé da letra — é aí que mora a conotação.
Gabarito: letra D. A regra de ouro: conotação é o sentido que depende do contexto e cria simbolismo. O poço de Caio Fernando Abreu não é um buraco; é a alma. Quem leu o texto com atenção viu isso — e quem viu, acertou.