Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140562
Banca
FCC
Órgão
MPE AP
Ano
2026
Cargo
Ana Min ( )
A cabeça do caboclo é muito diferente da cabeça de quem mora na cidade e vive exposto aos meios de comunicação de massa. Caboclo é a gente mais real-fantasiosa que há. Ao mesmo tempo que é desconfiado, como seus ancestrais indígenas, é também muito crédulo. Admira a retórica na boca de gente elegante e enganadora. Concebe-se como o matuto não merecedor de privilégios dos entendidos. São sonhadores, mas sabem como ninguém que sonho é só para se sonhar e deve ficar sempre somente na cabeça. Caboclo gosta mesmo é da orgia da mata, com a excelsa cantoria da passarinhada, de insetos, de répteis e de mamíferos selvagens ou domesticados. Embebeda-se com o cheiro das plantas nativas e capins ou árvores plantadas. Reverencia a água, uma de suas maiores fontes de alimentação. A natureza é sua maior sedutora e musa inspiradora. Caboclo não se casa. Junta-se. E comunga tudo com a(o) companheira(o): trabalho, esperança, sonhos, pesares, ignorâncias, enfados, boia, pirão, alegrias e prazeres caboclos. E nem precisa de cartório para legalizar as coisas. Vale a palavra de honra do caboclo. Cartório é coisa para o citadino, que deve se precaver do calote civilizado. Mas caboclo também não é santo. Mente. E quando mente, jura por todos os santos que está falando a verdade. Cruel é o coração que não lhe acredita. A mulher cabocla não engravida. Embucha. Fica de barriga. Emprenha. No mato, esta não sofre dos melindres da mulher urbana. Tudo o que vier a sentir faz parte da trama da multiplicação.
(Adaptado de: SANTOS Janete. Ideologia cabocla. 61 cronistas do Amapá, 2020)
Atenção: Para responder à questão, leia o texto abaixo.
A caracterização do caboclo no texto revela uma construção identitária que:
Aapresenta o campo como espaço arcaico e rústico, sem relação com a vida moderna e civilizada.
Bexalta o homem da cidade como modelo de civilização e padrão de comportamento sociocultural.
Creforça a inferioridade do meio rural campestre diante do progresso da cultura citadina e urbana.
Ddescreve o caboclo de forma neutra e singela, sem juízos de valor ou posicionamento ideológico.
Ecombina traços de simplicidade e sabedoria, contrapondo-se à artificialidade do mundo urbano.
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GabaritoE — combina traços de simplicidade e sabedoria, contrapondo-se à artificialidade do mundo urbano.
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A construção identitária do caboclo: simplicidade e sabedoria em oposição à artificialidade urbana
Gabarito: letra E. A caracterização do caboclo no texto revela uma identidade que combina traços de simplicidade e sabedoria, contrapondo-se à artificialidade do mundo urbano — como se lê na passagem em que o autor afirma que o caboclo é "a gente mais real-fantasiosa que há" e que "sabem como ninguém que sonho é só para se sonhar", enquanto o cartório é "coisa para o citadino, que deve se precaver do calote civilizado". A alternativa E é a única que sintetiza essa dualidade (simplicidade + sabedoria) e a contraposição ao mundo urbano, sem acrescentar juízo de valor que o texto não sustenta.
O comando: o que a questão pede
O enunciado pergunta o que a caracterização do caboclo revela — ou seja, pede uma interpretação (inferência ancorada no texto), não uma mera localização de informação explícita. A resposta não está literalmente escrita em uma única frase; ela emerge da soma de pistas que o autor deixa ao longo do texto. Por isso, o método é: identificar o tema (a identidade do caboclo), a tese (o caboclo é um ser complexo, que une simplicidade e sabedoria, em contraste com o citadino) e os argumentos que a sustentam (a relação com a natureza, a desconfiança, a credulidade, a palavra de honra, a rejeição ao cartório).
O texto: tema, tese e movimento argumentativo
O texto é uma crônica (gênero híbrido, com traços descritivos e argumentativos) que constrói a identidade do caboclo por meio de oposições constantes com o mundo urbano. O autor não descreve o caboclo de forma neutra: ele o valoriza, ainda que reconheça defeitos ("caboclo também não é santo. Mente."). A tese central é que o caboclo possui uma sabedoria própria, enraizada na natureza e na simplicidade, que o diferencia do citadino, marcado pela artificialidade (cartório, "calote civilizado", "melindres").
Veja as pistas que sustentam a alternativa E:
"Caboclo é a gente mais real-fantasiosa que há."
Aqui, o autor já anuncia a dualidade: "real" (simplicidade, pragmatismo) e "fantasiosa" (imaginação, sonho). Essa combinação é o núcleo da identidade cabocla.
"São sonhadores, mas sabem como ninguém que sonho é só para se sonhar e deve ficar sempre somente na cabeça."
A conjunção mas marca a oposição entre sonhar e saber que o sonho não se confunde com a realidade — uma sabedoria prática que o autor admira.
"A natureza é sua maior sedutora e musa inspiradora."
A natureza é apresentada como fonte de inspiração e prazer, não como espaço de atraso.
"Cartório é coisa para o citadino, que deve se precaver do calote civilizado."
Aqui está a contraposição explícita: o cartório (símbolo da burocracia urbana) é associado ao "calote civilizado", ou seja, à artificialidade e desonestidade do mundo urbano. O caboclo, por sua vez, "nem precisa de cartório para legalizar as coisas. Vale a palavra de honra do caboclo." — uma sabedoria moral que dispensa a formalidade.
"No mato, esta não sofre dos melindres da mulher urbana."
A mulher cabocla é descrita como mais natural e menos afetada que a urbana, reforçando a oposição entre autenticidade e artificialidade.
A técnica que decide: inferência com pista, não extrapolação
A alternativa E é uma síntese interpretativa — ela não repete uma frase do texto, mas condensa o que o texto diz. Isso é legítimo porque cada elemento da alternativa encontra ancoragem em passagens específicas:
"simplicidade" → "gente mais real", "sonhadores", "palavra de honra", "junta-se" (sem cartório);
"sabedoria" → "sabem como ninguém que sonho é só para se sonhar", "Reverencia a água", "A natureza é sua maior sedutora e musa inspiradora";
"contrapondo-se à artificialidade do mundo urbano" → "Cartório é coisa para o citadino, que deve se precaver do calote civilizado", "melindres da mulher urbana".
A armadilha central da questão é a generalização indevida: as alternativas A, B e C tentam fazer o candidato projetar no texto uma visão negativa do campo ou positiva da cidade, que o texto não sustenta. O texto não diz que o campo é arcaico, nem que a cidade é modelo de civilização, nem que o caboclo é inferior. Pelo contrário, o autor valoriza o caboclo e critica a artificialidade urbana.
Análise das alternativas
Caracterização do caboclo: Simplicidade ("Gente mais real", Palavra de honra, Dispensa cartório); Sabedoria (Sonho só para sonhar, Reverencia a natureza); Contraposição ao urbano (Cartório = "calote civilizado", "Melindres da mulher urbana")
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (fora do escopo). O texto não apresenta o campo como "espaço arcaico e rústico, sem relação com a vida moderna e civilizada". Pelo contrário, o campo é descrito com admiração: "Caboclo gosta mesmo é da orgia da mata, com a excelsa cantoria da passarinhada". A palavra "arcaico" e a ideia de "sem relação com a vida moderna" são acréscimos que o texto não autoriza. O texto apenas contrasta o modo de vida caboclo com o citadino, sem hierarquizar como "atrasado".
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O texto não exalta o homem da cidade como modelo de civilização. Pelo contrário, a cidade é associada à artificialidade e à desonestidade: "Cartório é coisa para o citadino, que deve se precaver do calote civilizado". O autor critica o mundo urbano, não o elogia. A alternativa B inverte a posição do autor.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto / extrapolação. O texto não reforça a inferioridade do meio rural diante do progresso citadino. A palavra "inferioridade" é um juízo de valor que o autor não emite. Pelo contrário, o caboclo é descrito com superioridade moral em alguns aspectos: "Vale a palavra de honra do caboclo", enquanto o citadino precisa de cartório para "se precaver do calote civilizado". A alternativa C projeta uma hierarquia que o texto não estabelece.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto / opinião embutida. O texto não é neutro. O autor emite juízos de valor o tempo todo: "Caboclo é a gente mais real-fantasiosa que há" (elogio), "Cruel é o coração que não lhe acredita" (defesa), "Cartório é coisa para o citadino, que deve se precaver do calote civilizado" (crítica). A descrição é subjetiva e valorativa, não "neutra e singela". A alternativa D tenta fazer o candidato acreditar que o texto é imparcial, o que é falso.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A única inteiramente sustentada pelo texto. A alternativa E combina os dois polos da identidade cabocla — simplicidade ("gente mais real", "palavra de honra", "junta-se") e sabedoria ("sabem como ninguém que sonho é só para se sonhar", "Reverencia a água") — e os contrapõe à artificialidade urbana ("Cartório é coisa para o citadino", "melindres da mulher urbana"). Essa síntese é exatamente o que o texto constrói: um retrato valorativo do caboclo como ser autêntico e sábio, em contraste com o mundo urbano artificial.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de interpretação, desconfie de alternativas que generalizam ("arcaico", "inferior", "modelo de civilização") ou que negam o tom do texto ("neutra"). O texto tem tese e juízo de valor; a resposta correta é a que sintetiza o que o autor defende, sem acrescentar nem suprimir.