Questão de Português — Denotação e Conotação — FCC 2026
Português›Denotação e Conotação
Código
fc140563
Banca
FCC
Órgão
MPE AP
Ano
2026
Cargo
Ana Min ( )
A cabeça do caboclo é muito diferente da cabeça de quem mora na cidade e vive exposto aos meios de comunicação de massa. Caboclo é a gente mais real-fantasiosa que há. Ao mesmo tempo que é desconfiado, como seus ancestrais indígenas, é também muito crédulo. Admira a retórica na boca de gente elegante e enganadora. Concebe-se como o matuto não merecedor de privilégios dos entendidos. São sonhadores, mas sabem como ninguém que sonho é só para se sonhar e deve ficar sempre somente na cabeça. Caboclo gosta mesmo é da orgia da mata, com a excelsa cantoria da passarinhada, de insetos, de répteis e de mamíferos selvagens ou domesticados. Embebeda-se com o cheiro das plantas nativas e capins ou árvores plantadas. Reverencia a água, uma de suas maiores fontes de alimentação. A natureza é sua maior sedutora e musa inspiradora. Caboclo não se casa. Junta-se. E comunga tudo com a(o) companheira(o): trabalho, esperança, sonhos, pesares, ignorâncias, enfados, boia, pirão, alegrias e prazeres caboclos. E nem precisa de cartório para legalizar as coisas. Vale a palavra de honra do caboclo. Cartório é coisa para o citadino, que deve se precaver do calote civilizado. Mas caboclo também não é santo. Mente. E quando mente, jura por todos os santos que está falando a verdade. Cruel é o coração que não lhe acredita. A mulher cabocla não engravida. Embucha. Fica de barriga. Emprenha. No mato, esta não sofre dos melindres da mulher urbana. Tudo o que vier a sentir faz parte da trama da multiplicação.
(Adaptado de: SANTOS Janete. Ideologia cabocla. 61 cronistas do Amapá, 2020)
Atenção: Para responder à questão, leia o texto abaixo.
Na expressão “gente mais real-fantasiosa que há”, o autor
Acria um contraste expressivo, unindo realidade e imaginação como traços da identidade.
Bindica uma incongruência gramatical, sem função semântica relevante no contexto.
Creforça a ideia de fantasia, utilizando a contradição apenas como efeito ornamental.
Dconfere ao caboclo um sentido pejorativo, aproximando-o da ingenuidade e da ilusão.
Eexpressa uma ironia velada, que aponta a fragilidade intelectual da população rural.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoA — cria um contraste expressivo, unindo realidade e imaginação como traços da identidade.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
A antítese "real-fantasiosa": identidade, não ironia
Gabarito: letra A. A expressão "gente mais real-fantasiosa que há" cria um contraste expressivo — a antítese entre "real" e "fantasiosa" — que o autor usa para caracterizar a identidade do caboclo, unindo traços aparentemente opostos. A passagem que sustenta isso está logo no início do texto, quando o autor afirma que o caboclo é "a gente mais real-fantasiosa que há" e, em seguida, desenvolve essa dualidade: "Ao mesmo tempo que é desconfiado, como seus ancestrais indígenas, é também muito crédulo."
"Caboclo é a gente mais real-fantasiosa que há. Ao mesmo tempo que é desconfiado, como seus ancestrais indígenas, é também muito crédulo."
A alternativa A é a única que capta o efeito de sentido da expressão: não se trata de erro gramatical, nem de mero ornamento, nem de ironia ou depreciação — mas de um recurso expressivo que aproxima polos opostos para definir quem é o caboclo.
O comando: interpretar o efeito de sentido
A questão pede que você diga o que o autor faz ao usar a expressão "gente mais real-fantasiosa que há". Isso é uma tarefa de interpretação — não de localização literal, mas de compreensão do efeito expressivo que a combinação de palavras produz no contexto. A banca quer que você reconheça a figura de linguagem (antítese) e sua função no texto.
O texto: a construção da identidade do caboclo
O texto é uma crônica que descreve o caboclo de forma elogiosa e poética, destacando sua relação com a natureza, sua desconfiança e credulidade, sua palavra de honra, entre outros traços. A expressão "real-fantasiosa" aparece logo no início e funciona como uma síntese dessa identidade: o caboclo é ao mesmo tempo aterrado à realidade (desconfiado, prático) e imerso em fantasia (sonhador, crédulo). O autor não está criticando nem ironizando; está celebrando essa dualidade como algo positivo e característico.
A técnica: antítese e efeito de sentido
A antítese é a figura de linguagem que aproxima palavras ou ideias de sentido oposto para criar um efeito expressivo. Aqui, "real" e "fantasiosa" são antônimos, mas o autor os une com o hífen, formando um termo composto que expressa uma síntese: o caboclo é real e fantasioso ao mesmo tempo. Isso não é contradição lógica, mas complementaridade — o texto mostra que esses traços coexistem na mesma pessoa. A função é caracterizar o caboclo, não depreciá-lo.
PEGA ESSA DICA!
Ao ver uma expressão com palavras opostas unidas por hífen (como "real-fantasiosa"), pergunte-se: o autor está criticando ou elogiando? No texto, o tom é de admiração, então a antítese tem valor positivo.
Análise das alternativas
Antítese "real-fantasiosa"
1Efeito de sentido
Contraste expressivo
União de opostos
Caracteriza identidade
2O que NÃO é
Incongruência gramatical
Mero ornamento
Sentido pejorativo
Ironia velada
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A afirma que o autor "cria um contraste expressivo, unindo realidade e imaginação como traços da identidade". Isso é exatamente o que a expressão faz: "real" e "fantasiosa" são opostos, e o autor os une para descrever o caboclo. O texto confirma essa dualidade em várias passagens, como "Ao mesmo tempo que é desconfiado... é também muito crédulo" e "São sonhadores, mas sabem como ninguém que sonho é só para se sonhar". A expressão é, portanto, uma antítese que sintetiza a identidade do caboclo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B diz que há "incongruência gramatical, sem função semântica relevante". Isso é falso: a expressão é gramaticalmente correta (adjetivo composto) e tem função semântica clara — caracterizar o caboclo. O erro é contradizer o texto, pois a expressão é intencional e significativa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C afirma que o autor "reforça a ideia de fantasia, utilizando a contradição apenas como efeito ornamental". Isso restringe o sentido: a antítese não é mero ornamento, mas constitutiva da identidade do caboclo. O texto mostra que a dualidade é essencial, não decorativa.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D diz que a expressão "confere ao caboclo um sentido pejorativo, aproximando-o da ingenuidade e da ilusão". Isso é extrapolação: o texto não tem tom pejorativo; pelo contrário, é elogioso. A palavra "fantasiosa" aqui não significa "ilusória" no sentido negativo, mas "imaginativa, sonhadora" — algo positivo no contexto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E fala em "ironia velada, que aponta a fragilidade intelectual da população rural". Isso é contradizer o texto e acrescentar opinião: não há ironia, e o texto não sugere fragilidade intelectual. O autor admira o caboclo, não o ridiculariza.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de reconhecer o efeito de sentido de uma figura de linguagem. A alternativa A é a única que capta a antítese e sua função de caracterizar a identidade do caboclo. As demais ou extrapolam (D), restringem (C), contradizem (B, E) ou acrescentam opinião (E).
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta fazer você cair na ideia de que "fantasiosa" é algo negativo (ingenuidade, ilusão) ou que há ironia. Mas o texto é claramente elogioso — a fantasia aqui é imaginação, não engano.