Questão de Português — Figuras de Linguagem — FCC 2026
Português›Figuras de Linguagem
Código
fc140564
Banca
FCC
Órgão
MPE AP
Ano
2026
Cargo
Ana Min ( )
A cabeça do caboclo é muito diferente da cabeça de quem mora na cidade e vive exposto aos meios de comunicação de massa. Caboclo é a gente mais real-fantasiosa que há. Ao mesmo tempo que é desconfiado, como seus ancestrais indígenas, é também muito crédulo. Admira a retórica na boca de gente elegante e enganadora. Concebe-se como o matuto não merecedor de privilégios dos entendidos. São sonhadores, mas sabem como ninguém que sonho é só para se sonhar e deve ficar sempre somente na cabeça. Caboclo gosta mesmo é da orgia da mata, com a excelsa cantoria da passarinhada, de insetos, de répteis e de mamíferos selvagens ou domesticados. Embebeda-se com o cheiro das plantas nativas e capins ou árvores plantadas. Reverencia a água, uma de suas maiores fontes de alimentação. A natureza é sua maior sedutora e musa inspiradora. Caboclo não se casa. Junta-se. E comunga tudo com a(o) companheira(o): trabalho, esperança, sonhos, pesares, ignorâncias, enfados, boia, pirão, alegrias e prazeres caboclos. E nem precisa de cartório para legalizar as coisas. Vale a palavra de honra do caboclo. Cartório é coisa para o citadino, que deve se precaver do calote civilizado. Mas caboclo também não é santo. Mente. E quando mente, jura por todos os santos que está falando a verdade. Cruel é o coração que não lhe acredita. A mulher cabocla não engravida. Embucha. Fica de barriga. Emprenha. No mato, esta não sofre dos melindres da mulher urbana. Tudo o que vier a sentir faz parte da trama da multiplicação.
(Adaptado de: SANTOS Janete. Ideologia cabocla. 61 cronistas do Amapá, 2020)
Atenção: Para responder à questão, leia o texto abaixo.
Na frase “Caboclo gosta mesmo é da orgia da mata”, a linguagem assume um tom de:
Ahipérbole – destaque exagerado à ausência de civilidade e contenção moral.
Bironia – expressão de desprezo pelo modo de vida rústico do homem rural.
Ccomparação – relação explícita de semelhança entre floresta e desordem moral.
Dmetáfora – associação simbólica da natureza ao prazer e à plenitude dos sentidos.
Eeufemismo – suavização do contato físico com o ambiente natural.
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GabaritoD — metáfora – associação simbólica da natureza ao prazer e à plenitude dos sentidos.
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A metáfora em "orgia da mata" e o tom do texto
Gabarito: letra D. Na frase "Caboclo gosta mesmo é da orgia da mata", a linguagem assume tom de metáfora, pois "orgia" é empregada em sentido figurado para associar simbolicamente a natureza ao prazer e à plenitude dos sentidos — não há exagero, ironia, comparação explícita ou suavização, como se lê no contexto em que o autor descreve a relação sensual e reverente do caboclo com a mata.
O comando: identificar a figura de linguagem e seu efeito
A questão pede que você reconheça qual figura de linguagem está presente na frase e, mais importante, que tom ela produz. Isso exige dois passos: (1) identificar o recurso estilístico (metáfora, hipérbole, ironia etc.) e (2) verificar se a descrição da alternativa corresponde ao efeito de sentido que o recurso cria no texto. Não basta saber a definição decorada — é preciso ancorar a interpretação no contexto.
O texto: a relação sensual e reverente do caboclo com a natureza
O texto descreve o caboclo como alguém "real-fantasioso", que "gosta mesmo é da orgia da mata". Logo em seguida, o autor explica o que isso significa: "Embebeda-se com o cheiro das plantas nativas e capins ou árvores plantadas. Reverencia a água... A natureza é sua maior sedutora e musa inspiradora." Ou seja, a "orgia" não é uma festa literal, mas uma metáfora para a entrega total dos sentidos à natureza — o prazer, a embriaguez, a sedução. O tom é de exaltação, não de crítica ou desprezo.
A metáfora é uma comparação implícita, sem conectivo, em que uma palavra é usada fora do seu sentido básico para criar uma associação simbólica. Aqui, "orgia" (que denota festa desregrada, excesso) é transferida para o campo da relação com a mata, criando a imagem de uma entrega sensual e plena. Não há conectivo comparativo (como "como", "tal qual"), o que descarta a comparação/símile. Não há exagero intencional (hipérbole), nem dizer o contrário do que se pensa (ironia), nem suavização de algo desagradável (eufemismo).
O gancho: teste cada alternativa perguntando "o texto autoriza isto?"
A correta é a única que se sustenta integralmente no texto: a metáfora de "orgia" para a natureza, confirmada pelas passagens que falam em "embebedar-se", "sedutora" e "musa inspiradora". As demais ou extrapolam (atribuem crítica onde há exaltação), ou restringem (exigem conectivo que não existe), ou contradizem o tom do texto.
Figuras de linguagem: Metáfora (Comparação implícita (sem conectivo), Sentido figurado, Ex.: "orgia da mata"); Comparação (Conectivo explícito (como, tal qual)); Hipérbole (Exagero intencional); Ironia (Dizer o contrário do que se pensa); Eufemismo (Suavização de ideia desagradável)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Hipérbole é o exagero intencional. A frase não exagera; ela transfere o sentido de "orgia" para a natureza. Além disso, a alternativa afirma que o destaque é à "ausência de civilidade e contenção moral" — o texto não faz esse juízo negativo; ao contrário, exalta a relação do caboclo com a mata. Erro: extrapolação (acrescenta uma avaliação moral que o texto não faz) e troca de figura (hipérbole por metáfora).
Alternativa B — ❌ Incorreta
Ironia consiste em dizer o contrário do que se quer comunicar, com tom crítico ou humorístico. O texto não critica o caboclo nem seu modo de vida; a passagem "A natureza é sua maior sedutora e musa inspiradora" revela admiração, não desprezo. Erro: contradiz o texto (inverte o tom elogioso em crítico).
Alternativa C — ❌ Incorreta
Comparação/símile exige conectivo comparativo explícito (como, tal qual, assim como). Na frase não há conectivo; a relação entre "orgia" e "mata" é implícita, característica da metáfora. Além disso, a alternativa fala em "desordem moral", o que novamente introduz um juízo negativo ausente do texto. Erro: troca de figura (comparação por metáfora) e extrapolação (juízo moral).
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A metáfora é a figura correta: "orgia" é usada em sentido figurado para associar simbolicamente a natureza ao prazer e à plenitude dos sentidos. O texto confirma: "Embebeda-se com o cheiro das plantas nativas... A natureza é sua maior sedutora e musa inspiradora." A "orgia" aqui é a entrega sensual e total à mata — uma associação simbólica, não literal. A alternativa descreve exatamente o efeito da metáfora no contexto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Eufemismo é a suavização de uma ideia desagradável ou pesada. "Orgia" não suaviza nada; pelo contrário, intensifica a ideia de prazer e excesso. Não há nada de desagradável a ser atenuado na relação com a natureza. Erro: troca de figura (eufemismo por metáfora).
PEGA ESSA DICA!
Para distinguir metáfora de comparação, procure o conectivo. Se não há "como", "tal qual", "assim como", é metáfora. E para identificar o tom, pergunte: o autor elogia, critica ou apenas descreve? Aqui, ele exalta a relação do caboclo com a natureza.