Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140565
Banca
FCC
Órgão
MPE AP
Ano
2026
Cargo
Ana Min ( )
A cabeça do caboclo é muito diferente da cabeça de quem mora na cidade e vive exposto aos meios de comunicação de massa. Caboclo é a gente mais real-fantasiosa que há. Ao mesmo tempo que é desconfiado, como seus ancestrais indígenas, é também muito crédulo. Admira a retórica na boca de gente elegante e enganadora. Concebe-se como o matuto não merecedor de privilégios dos entendidos. São sonhadores, mas sabem como ninguém que sonho é só para se sonhar e deve ficar sempre somente na cabeça. Caboclo gosta mesmo é da orgia da mata, com a excelsa cantoria da passarinhada, de insetos, de répteis e de mamíferos selvagens ou domesticados. Embebeda-se com o cheiro das plantas nativas e capins ou árvores plantadas. Reverencia a água, uma de suas maiores fontes de alimentação. A natureza é sua maior sedutora e musa inspiradora. Caboclo não se casa. Junta-se. E comunga tudo com a(o) companheira(o): trabalho, esperança, sonhos, pesares, ignorâncias, enfados, boia, pirão, alegrias e prazeres caboclos. E nem precisa de cartório para legalizar as coisas. Vale a palavra de honra do caboclo. Cartório é coisa para o citadino, que deve se precaver do calote civilizado. Mas caboclo também não é santo. Mente. E quando mente, jura por todos os santos que está falando a verdade. Cruel é o coração que não lhe acredita. A mulher cabocla não engravida. Embucha. Fica de barriga. Emprenha. No mato, esta não sofre dos melindres da mulher urbana. Tudo o que vier a sentir faz parte da trama da multiplicação.
(Adaptado de: SANTOS Janete. Ideologia cabocla. 61 cronistas do Amapá, 2020)
Atenção: Para responder à questão, leia o texto abaixo.
A inversão sintática em “Cruel é o coração que não lhe acredita” tem como efeito principal:
Aenfatizar o verbo, que se torna o núcleo semântico da proposição.
Bocultar o sujeito, com o objetivo de generalizar a ação e evitar o julgamento.
Cvalorizar o predicativo, dando ao enunciado ênfase afetiva.
Dneutralizar o sentido avaliativo, tornando a frase mais objetiva e impessoal.
Esimplificar o ritmo sintático, aproximando a fala da linguagem coloquial.
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GabaritoC — valorizar o predicativo, dando ao enunciado ênfase afetiva.
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Inversão sintática e ênfase no predicativo
Gabarito: letra C. A inversão em “Cruel é o coração que não lhe acredita” desloca o predicativo “Cruel” para o início da oração, e esse deslocamento tem como efeito principal valorizar o predicativo, dando ao enunciado ênfase afetiva — exatamente o que afirma a alternativa C. A ordem direta seria “O coração que não lhe acredita é cruel”; ao antepor o adjetivo, o autor projeta a qualidade para o primeiro plano, carregando-a de emoção e julgamento. Como se lê no texto, a frase vem logo após “Mas caboclo também não é santo. Mente. E quando mente, jura por todos os santos que está falando a verdade.”, contexto em que a inversão intensifica a reprovação afetiva do narrador.
O comando: o que a questão pede
O enunciado pergunta qual é o efeito principal da inversão sintática. Isso não é uma questão de localizar informação explícita, nem de inferir algo além do texto: é uma questão de análise sintática aplicada ao sentido. Você precisa reconhecer a função sintática do termo deslocado (predicativo do sujeito) e saber que a anteposição de um termo, em português, serve para destacá-lo, conferindo-lhe proeminência informativa e, muitas vezes, carga expressiva.
O texto: onde mora a resposta
No trecho, o autor descreve o caboclo de forma ambivalente: é desconfiado e crédulo, sonhador e realista, e “também não é santo. Mente. E quando mente, jura por todos os santos que está falando a verdade.” É nesse ponto que surge a frase em análise. A inversão não é gratuita: ela reforça a indignação do narrador diante da mentira do caboclo. Ao colocar “Cruel” em primeiro lugar, o autor faz o leitor sentir a dureza do julgamento antes mesmo de saber a quem se refere. A ordem direta (“O coração que não lhe acredita é cruel”) seria informativa, mas perderia a força expressiva.
A técnica: o que é inversão sintática e por que ela enfatiza
Em português, a ordem canônica da oração é sujeito + verbo + complemento/predicativo. Quando um termo é deslocado dessa ordem, ele ganha destaque — é o que chamamos de inversão sintática ou anástrofe. No caso, o predicativo “Cruel” foi anteposto ao verbo “é”. Esse deslocamento tem dois efeitos combinados:
Ênfase informativa: o termo deslocado vira o foco da frase — é a informação nova e relevante.
Ênfase afetiva: a anteposição de um adjetivo avaliativo (“Cruel”) carrega a frase de emoção e julgamento — o autor não apenas informa, mas condena.
A alternativa C capta exatamente isso: “valorizar o predicativo, dando ao enunciado ênfase afetiva”.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar uma inversão, pergunte: qual termo foi deslocado? Se for o predicativo (adjetivo), o efeito é de ênfase na qualidade; se for o objeto, o efeito pode ser de destaque no complemento. O termo deslocado é sempre o foco.
Análise das alternativas
Inversão sintática (anástrofe): Ordem direta (Sujeito + verbo + predicativo); Termo deslocado (Vira o foco da frase, Ganha proeminência); Efeitos (Ênfase informativa, Ênfase afetiva (adjetivo avaliativo)); Caso do texto (Predicativo "Cruel" anteposto, Condenação emocional do narrador)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: troca de termo enfatizado. A inversão não enfatiza o verbo “é”. O verbo de ligação é um elemento de ligação entre sujeito e predicativo; ele não carrega o núcleo semântico da proposição. O núcleo semântico aqui é o predicativo “Cruel”, que expressa a qualidade atribuída ao sujeito. A banca tenta confundir o aluno que sabe que a inversão dá ênfase, mas erra o alvo: não é o verbo, é o predicativo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto e a sintaxe. A inversão não oculta o sujeito; o sujeito “o coração que não lhe acredita” está explícito na oração. Além disso, o efeito não é generalizar a ação nem evitar julgamento — muito pelo contrário: a frase é um julgamento explícito e afetivo (“Cruel é...”). A alternativa B inverte o sentido real da construção.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A inversão valoriza o predicativo, dando ênfase afetiva. Como vimos, “Cruel” é o predicativo do sujeito e foi anteposto ao verbo. Esse deslocamento projeta a qualidade para o primeiro plano, carregando-a de emoção e julgamento. No contexto, a frase condena o coração que não acredita no caboclo — uma reprovação afetiva, não uma constatação neutra. A alternativa C é a única que nomeia corretamente o termo deslocado (predicativo) e o efeito (ênfase afetiva).
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A inversão não neutraliza o sentido avaliativo; ela o intensifica. A frase “Cruel é o coração...” é altamente avaliativa e subjetiva — o adjetivo “Cruel” é um juízo de valor. A alternativa D afirma o oposto do que a inversão faz: em vez de objetividade e impessoalidade, temos subjetividade e emoção.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: tangencia o tema. A inversão não tem como efeito principal simplificar o ritmo sintático nem aproximar a fala da linguagem coloquial. Na verdade, a inversão é um recurso estilístico que pode até tornar a frase mais formal ou literária, não mais coloquial. A alternativa E fala de um efeito que não é o principal e que não se sustenta no texto.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de relacionar sintaxe e sentido. A inversão desloca o predicativo “Cruel” para o início, e esse deslocamento tem como efeito principal valorizar o predicativo, dando ênfase afetiva — letra C. Ao resolver, identifique o termo deslocado e pergunte: qual efeito isso produz? Se for um adjetivo avaliativo, o efeito é de ênfase emocional.