Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — FCC 2026
Português›Significação de Vocábulo e Expressões
Código
fc140566
Banca
FCC
Órgão
MPE AP
Ano
2026
Cargo
Ana Min ( )
A cabeça do caboclo é muito diferente da cabeça de quem mora na cidade e vive exposto aos meios de comunicação de massa. Caboclo é a gente mais real-fantasiosa que há. Ao mesmo tempo que é desconfiado, como seus ancestrais indígenas, é também muito crédulo. Admira a retórica na boca de gente elegante e enganadora. Concebe-se como o matuto não merecedor de privilégios dos entendidos. São sonhadores, mas sabem como ninguém que sonho é só para se sonhar e deve ficar sempre somente na cabeça. Caboclo gosta mesmo é da orgia da mata, com a excelsa cantoria da passarinhada, de insetos, de répteis e de mamíferos selvagens ou domesticados. Embebeda-se com o cheiro das plantas nativas e capins ou árvores plantadas. Reverencia a água, uma de suas maiores fontes de alimentação. A natureza é sua maior sedutora e musa inspiradora. Caboclo não se casa. Junta-se. E comunga tudo com a(o) companheira(o): trabalho, esperança, sonhos, pesares, ignorâncias, enfados, boia, pirão, alegrias e prazeres caboclos. E nem precisa de cartório para legalizar as coisas. Vale a palavra de honra do caboclo. Cartório é coisa para o citadino, que deve se precaver do calote civilizado. Mas caboclo também não é santo. Mente. E quando mente, jura por todos os santos que está falando a verdade. Cruel é o coração que não lhe acredita. A mulher cabocla não engravida. Embucha. Fica de barriga. Emprenha. No mato, esta não sofre dos melindres da mulher urbana. Tudo o que vier a sentir faz parte da trama da multiplicação.
(Adaptado de: SANTOS Janete. Ideologia cabocla. 61 cronistas do Amapá, 2020)
Atenção: Para responder à questão, leia o texto abaixo.
No trecho “Tudo o que vier a sentir faz parte da trama da multiplicação”, o verbo “vier” está empregado no modo subjuntivo para:
Aexpressar eventualidade e incerteza, projetando ações futuras de caráter hipotético.
Bindicar ação habitual e certa, situada no plano da experiência concreta.
Cmarcar uma relação temporal de anterioridade em relação ao verbo principal.
Dapresentar valor imperativo, associado à expressão de conselho e ordem.
Efuncionar como auxiliar modal, que reforça o tom afirmativo da oração.
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GabaritoA — expressar eventualidade e incerteza, projetando ações futuras de caráter hipotético.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
O valor do futuro do subjuntivo em “vier”
Gabarito: letra A. No trecho “Tudo o que vier a sentir faz parte da trama da multiplicação”, o verbo vier está no futuro do subjuntivo, e esse modo verbal serve exatamente para expressar eventualidade e incerteza, projetando ações futuras de caráter hipotético — como se lê no próprio texto: a mulher cabocla “não sofre dos melindres da mulher urbana”, e tudo o que vier a sentir (isto é, o que porventura sentir) integra a “trama da multiplicação”. A alternativa A é a única que descreve com precisão o valor semântico do futuro do subjuntivo.
O comando da questão
A questão pede que você identifique para que serve o emprego do modo subjuntivo no verbo “vier”. Não se trata de interpretação de texto, mas de gramática aplicada ao contexto: você precisa reconhecer o valor semântico que o modo verbal imprime à frase. O comando é direto: “o verbo ‘vier’ está empregado no modo subjuntivo para...”. Ou seja, a banca quer que você saiba o que o subjuntivo comunica — e não que decore a conjugação.
O texto e o trecho em análise
O texto fala da visão do caboclo sobre a natureza e a vida. No trecho final, a autora afirma que a mulher cabocla “não engravida. Embucha. Fica de barriga. Emprenha.” E conclui: “No mato, esta não sofre dos melindres da mulher urbana. Tudo o que vier a sentir faz parte da trama da multiplicação.”
Aqui, “vier” está no futuro do subjuntivo, tempo que se usa para expressar fatos eventuais, hipotéticos, que podem ou não ocorrer no futuro. A oração “Tudo o que vier a sentir” equivale a “tudo o que porventura sentir”, “tudo o que acaso sentir”. Não é uma certeza, é uma possibilidade.
A técnica que decide
O modo subjuntivo é o modo da irrealidade, da dúvida, da hipótese, do desejo. O futuro do subjuntivo (vier, fizer, puder, quiser) é usado justamente para projetar ações futuras de caráter hipotético ou eventual, geralmente em orações condicionais ou temporais futuras. Compare:
Indicativo: “Tudo o que sinto faz parte...” (certeza, fato real)
Subjuntivo: “Tudo o que vier a sentir faz parte...” (hipótese, eventualidade)
A diferença é exatamente o que a alternativa A descreve: eventualidade e incerteza.
Análise das alternativas
Modo subjuntivo: Valor semântico (Irrealidade, Dúvida, Hipótese, Desejo); Futuro do subjuntivo (Projeta ação futura hipotética, Eventualidade e incerteza, Ex.: "vier", "fizer", "puder"); Contraste com indicativo (Indicativo: certeza, fato real, Subjuntivo: possibilidade, hipótese)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A afirma que o subjuntivo serve para “expressar eventualidade e incerteza, projetando ações futuras de caráter hipotético”. Isso é exatamente o valor do futuro do subjuntivo. No trecho, “vier” indica uma ação que pode acontecer no futuro, mas não é certa. A autora não diz “tudo o que sente” (certeza), mas “tudo o que vier a sentir” (hipótese). A passagem do texto que sustenta isso é a própria construção: “Tudo o que vier a sentir faz parte da trama da multiplicação”. O uso do subjuntivo, em contraste com o indicativo, marca a possibilidade, não a realidade.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B diz que o subjuntivo indica “ação habitual e certa, situada no plano da experiência concreta”. Isso é o oposto do subjuntivo. Ação habitual e certa é própria do presente do indicativo (ex.: “Tudo o que sinto faz parte...”). O subjuntivo, como vimos, marca incerteza e hipótese, não certeza. A banca tenta atrair o candidato que não percebe a diferença entre os modos. Erro: contradiz o valor do subjuntivo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C afirma que o subjuntivo marca “relação temporal de anterioridade em relação ao verbo principal”. No trecho, “vier” indica posterioridade (futuro), não anterioridade. O futuro do subjuntivo expressa ação futura em relação ao momento da fala. Não há qualquer ideia de anterioridade. Erro: troca o valor temporal (futuro por passado).
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D diz que o subjuntivo apresenta “valor imperativo, associado à expressão de conselho e ordem”. O imperativo é outro modo, usado para dar ordens, conselhos, pedidos (ex.: “Faça isso!”). No trecho, não há ordem nem conselho; há uma constatação hipotética. O verbo “vier” não está no imperativo, e o contexto não sugere qualquer tom de comando. Erro: confunde subjuntivo com imperativo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E afirma que “vier” funciona como “auxiliar modal, que reforça o tom afirmativo da oração”. “Vier” é o verbo principal da oração “Tudo o que vier a sentir” (equivale a “sentir”), não um auxiliar. Além disso, o subjuntivo não reforça tom afirmativo; pelo contrário, atenua a afirmação, tornando-a hipotética. Erro: classifica erroneamente a função sintática e o valor semântico.
Conclusão
A questão testa se você sabe o que o modo subjuntivo comunica. A alternativa A é a única que descreve corretamente o valor de eventualidade e incerteza do futuro do subjuntivo. As demais ou invertem o valor (B), ou erram o tempo (C), ou confundem com outro modo (D), ou atribuem função inexistente (E).
PEGA ESSA DICA!
Ao ver um verbo no subjuntivo, pergunte-se: “isso é fato certo ou possibilidade?”. Se for possibilidade, o valor é de hipótese/eventualidade. E lembre: futuro do subjuntivo (vier, fizer, puder) sempre projeta futuro hipotético.