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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140608
Banca
FCC
Órgão
SESAPI
Ano
2026
Cargo
Farm ( )

Considere o texto abaixo para responder a questão.

 

A Grécia clássica experimentou uma deificação da saúde: Higeia, filha de Asclépio, o deus da medicina, personificava a dádiva do pai, como deusa da saúde, limpeza e sanidade, e seu culto foi introduzido em Atenas por volta do ano 420 a.C.

 

Higeia sugeria misteriosamente a escolha dos alimentos necessários à existência e os remédios apropriados aos males. Ela também sustentava a força dos mortais, prevenindo as doenças. Não estamos propondo que a criação do mito de Higeia foi influenciada pela medicina dietética ou vice-versa. Para fazer tal afirmação, precisaríamos saber com certeza a data do surgimento de cada um deles. Mas parece que a Grécia dos séculos V e IV a.C. foi também a “Grécia da saúde”.

 

A medicina dietética, com suas técnicas de prevenção da saúde, estendeu seu poder de influência em diversas áreas da vida humana: alimentação, relações sexuais, banhos e exercícios. A dietética foi propícia para se construir uma medicina social que interagiu nos costumes com o pretexto de curar as enfermidades. No Corpus hippocraticum, a palavra diaita aparece com o sentido de “tratamento”, mas a dietética não possuiria somente fins terapêuticos: ela serviria para preservação e promoção da saúde, bem como a prevenção das doenças.

 

A vida do homem estava então “medicalizada”, a ponto de trocar a prática da virtude e da política pelo cuidado com a saúde. De acordo com Platão, o advento da medicina dietética fez o rico se tornar “nosotrófico”. Platão cunha a palavra “nosotrofia”, isto é, o ato de criar ou alimentar as doenças. Segundo ele, os ricos abandonaram suas obrigações com a pólis para cuidar de sua saúde, esquivando-se de responsabilidades: *[...] é o que se observa principalmente com esse cuidado excessivo do corpo, que vai muito além dos exercícios usuais de ginástica. Prejudica até mesmo os trabalhos de casa, o serviço nas campanhas militares e as obrigações civis em tempo de paz” (Platão, República, 407b).

 

Hoje, de formas diferentes, o culto à saúde continua. As estratégias de marketing das empresas farmacêuticas almejam as pessoas saudáveis. Qualquer queixa é transformada em sintoma. “O rolo compressor das campanhas publicitárias [...) transforma as pessoas saudáveis em doentes preocupados”, segundo Moynihan e Wasmes. Ainda hoje, a medicina busca certa primazia sobre a vida do ser humano, mesmo que ele não esteja doente. O pano de fundo é, de certo modo, semelhante ao da Grécia clássica.

 

(Adaptado de: MATSUI, Sussumo. “O mito de Higeia e a medicina dietética..." Revista Estética Semiótica, v. 6, n. 2, 2016)

De acordo com o texto, o culto de Higeia
  1. Adecorre da crescente atenção à saúde em uma sociedade que já não necessitava preocupar-se com a política e a virtude.
  2. Bcoincide com a expansão da medicina dietética na Grécia, a ponto de interferir na vida pública dos cidadãos.
  3. Cé uma resposta religiosa ao surgimento da medicina dietética na Grécia, em harmonia com a ciência da época.
  4. Dsurge na Grécia dos séculos V e IV a.C. e protagoniza o início da medicina dietética, ocorrido entre as classes mais abastadas.
  5. Eé consequência direta da ingerência da medicina na vida da população, servindo-lhe como suporte mítico.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — coincide com a expansão da medicina dietética na Grécia, a ponto de interferir na vida pública dos cidadãos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O culto de Higeia e a medicina dietética na Grécia clássica

Gabarito: letra B. O culto de Higeia, conforme o texto, coincide com a expansão da medicina dietética na Grécia, a ponto de interferir na vida pública dos cidadãos. Essa é a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto, que afirma que a dietética "estendeu seu poder de influência em diversas áreas da vida humana" e que "A vida do homem estava então 'medicalizada', a ponto de trocar a prática da virtude e da política pelo cuidado com a saúde". As demais alternativas ou extrapolam o que está escrito, ou contradizem passagens explícitas, ou acrescentam relações de causa e efeito que o autor não estabelece.

O comando: compreensão, não inferência

O enunciado pede o que está "de acordo com o texto". Isso classifica a questão como de compreensão/recorrência: a resposta correta deve ser uma paráfrase fiel de uma informação explícita, sem deduções, sem opiniões do candidato e sem acréscimos de conhecimento de mundo. O método é simples: localizar no texto a passagem que trata do culto de Higeia e da medicina dietética, e testar cada alternativa contra ela. Qualquer alternativa que exija "completar" o texto com algo que não está escrito é, por definição, errada.

O texto: a tese e o movimento argumentativo

O texto parte da deusa Higeia (personificação da saúde) e a relaciona à medicina dietética da Grécia dos séculos V e IV a.C. O autor não afirma que o mito foi influenciado pela medicina ou vice-versa — ele diz explicitamente que não está propondo isso. O que ele sustenta é que a dietética expandiu sua influência sobre a vida humana e que essa influência chegou a afetar a vida pública, com os ricos abandonando a política para cuidar da saúde (a "nosotrofia" de Platão). A resposta mora exatamente nesse ponto: a coincidência entre o culto à saúde e a interferência na vida pública.

A técnica que decide: ancorar cada alternativa no texto

A armadilha central desta questão é a extrapolação: a banca oferece alternativas que soam plausíveis, mas que acrescentam relações de causa e efeito, juízos de valor ou informações que o texto não traz. A alternativa correta (B) é a única que se limita a parafrasear o que está escrito, sem acrescentar nada. Para cada alternativa, a pergunta decisiva é: "o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige que eu acrescente algo de fora?".

"A medicina dietética, com suas técnicas de prevenção da saúde, estendeu seu poder de influência em diversas áreas da vida humana: alimentação, relações sexuais, banhos e exercícios."

"A vida do homem estava então 'medicalizada', a ponto de trocar a prática da virtude e da política pelo cuidado com a saúde."

Essas duas passagens, juntas, provam a alternativa B: a expansão da dietética ("estendeu seu poder de influência") coincide com o culto de Higeia (a "Grécia da saúde") e interfere na vida pública ("trocar a prática da virtude e da política pelo cuidado com a saúde").

1Método
Localizar passagem explícita
Testar cada alternativa contra ela
2Pegadinha: extrapolação
Verbos de causa (decorre, é consequência)
Coincidência ≠ causalidade
3Critério de escolha
Paráfrase fiel do texto
Acréscimo de causa/opinião/informação
Compreensão de texto
LEVELsoulevel.com.br
Compreensão de texto: Método (Localizar passagem explícita, Testar cada alternativa contra ela); Pegadinha: extrapolação (Verbos de causa (decorre, é consequência), Coincidência ≠ causalidade); Critério de escolha (Paráfrase fiel do texto, Acréscimo de causa/opinião/informação)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa diz que o culto "decorre da crescente atenção à saúde em uma sociedade que já não necessitava preocupar-se com a política e a virtude". O texto não diz que a sociedade já não necessitava preocupar-se com política e virtude; diz apenas que a vida foi "medicalizada" a ponto de trocar a prática da virtude e da política pelo cuidado com a saúde. A palavra "já não necessitava" é uma conclusão que o texto não autoriza — ele descreve uma troca, não uma necessidade superada. Além disso, o texto não estabelece que o culto decorre da atenção à saúde; ele apenas os apresenta como fenômenos coincidentes.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A única inteiramente sustentada. O texto afirma que a medicina dietética "estendeu seu poder de influência em diversas áreas da vida humana" e que "A vida do homem estava então 'medicalizada', a ponto de trocar a prática da virtude e da política pelo cuidado com a saúde". A alternativa parafraseia exatamente isso: o culto de Higeia (a "Grécia da saúde") coincide com a expansão da dietética e essa expansão interfere na vida pública (a troca da política pelo cuidado com a saúde). Não há acréscimo, não há dedução — é a leitura direta do texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que o culto é "uma resposta religiosa ao surgimento da medicina dietética". O texto diz o contrário: "Não estamos propondo que a criação do mito de Higeia foi influenciada pela medicina dietética ou vice-versa". Ou seja, o autor explicitamente nega qualquer relação de causa e efeito entre o mito e a medicina. A alternativa também fala em "harmonia com a ciência da época", o que é uma opinião que o texto não externa.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação e restrição. A alternativa diz que o culto "protagoniza o início da medicina dietética, ocorrido entre as classes mais abastadas". O texto não diz que Higeia protagonizou o início da dietética, nem que a dietética ocorreu entre as classes mais abastadas. O que se diz sobre os ricos é que eles abandonaram a política para cuidar da saúde (a "nosotrofia" de Platão), mas isso não equivale a dizer que a dietética começou entre eles. A alternativa restringe indevidamente o alcance do texto e acrescenta uma relação de protagonismo que não existe.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa afirma que o culto é "consequência direta da ingerência da medicina na vida da população, servindo-lhe como suporte mítico". O texto não estabelece essa relação de causa e efeito — pelo contrário, nega explicitamente que o mito tenha sido influenciado pela medicina. Além disso, a ideia de que o mito servia como "suporte mítico" para a medicina é uma interpretação que o autor não faz. A alternativa confunde coincidência com causalidade.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação — oferece alternativas que acrescentam relações de causa e efeito ("decorre", "é consequência direta", "é uma resposta") que o texto explicitamente nega ou não estabelece. A correta (B) é a única que se limita a descrever a coincidência e a interferência, sem inventar causalidade.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, desconfie de verbos que indicam causa ("decorre", "é consequência", "é uma resposta"). O texto pode descrever dois fenômenos que coincidem sem dizer que um causa o outro. Grife o comando ("de acordo com o texto") e teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?".

Gabarito: letra B. A regra de ouro: a resposta correta é a única que o texto sustenta inteiramente — nem mais, nem menos do que ele diz. Qualquer alternativa que acrescente causa, opinião ou informação ausente está errada, ainda que soe plausível.

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