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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140609
Banca
FCC
Órgão
SESAPI
Ano
2026
Cargo
Farm ( )

Considere o texto abaixo para responder a questão.

 

A Grécia clássica experimentou uma deificação da saúde: Higeia, filha de Asclépio, o deus da medicina, personificava a dádiva do pai, como deusa da saúde, limpeza e sanidade, e seu culto foi introduzido em Atenas por volta do ano 420 a.C.

 

Higeia sugeria misteriosamente a escolha dos alimentos necessários à existência e os remédios apropriados aos males. Ela também sustentava a força dos mortais, prevenindo as doenças. Não estamos propondo que a criação do mito de Higeia foi influenciada pela medicina dietética ou vice-versa. Para fazer tal afirmação, precisaríamos saber com certeza a data do surgimento de cada um deles. Mas parece que a Grécia dos séculos V e IV a.C. foi também a “Grécia da saúde”.

 

A medicina dietética, com suas técnicas de prevenção da saúde, estendeu seu poder de influência em diversas áreas da vida humana: alimentação, relações sexuais, banhos e exercícios. A dietética foi propícia para se construir uma medicina social que interagiu nos costumes com o pretexto de curar as enfermidades. No Corpus hippocraticum, a palavra diaita aparece com o sentido de “tratamento”, mas a dietética não possuiria somente fins terapêuticos: ela serviria para preservação e promoção da saúde, bem como a prevenção das doenças.

 

A vida do homem estava então “medicalizada”, a ponto de trocar a prática da virtude e da política pelo cuidado com a saúde. De acordo com Platão, o advento da medicina dietética fez o rico se tornar “nosotrófico”. Platão cunha a palavra “nosotrofia”, isto é, o ato de criar ou alimentar as doenças. Segundo ele, os ricos abandonaram suas obrigações com a pólis para cuidar de sua saúde, esquivando-se de responsabilidades: *[...] é o que se observa principalmente com esse cuidado excessivo do corpo, que vai muito além dos exercícios usuais de ginástica. Prejudica até mesmo os trabalhos de casa, o serviço nas campanhas militares e as obrigações civis em tempo de paz” (Platão, República, 407b).

 

Hoje, de formas diferentes, o culto à saúde continua. As estratégias de marketing das empresas farmacêuticas almejam as pessoas saudáveis. Qualquer queixa é transformada em sintoma. “O rolo compressor das campanhas publicitárias [...) transforma as pessoas saudáveis em doentes preocupados”, segundo Moynihan e Wasmes. Ainda hoje, a medicina busca certa primazia sobre a vida do ser humano, mesmo que ele não esteja doente. O pano de fundo é, de certo modo, semelhante ao da Grécia clássica.

 

(Adaptado de: MATSUI, Sussumo. “O mito de Higeia e a medicina dietética..." Revista Estética Semiótica, v. 6, n. 2, 2016)

Acerca da frase Mas parece que a Grécia dos séculos V e IV a.C. foi também a “Grécia da saúde” (2º parágrafo), considere:

 

I. opõe-se à discussão sobre a precedência do mito ou da dietética, concluindo com um argumento mais genérico.

 

II. introduz uma hipótese mais provável, amparada por textos como a República de Platão.

 

III. opõe-se tanto à medicina dietética como ao mito de Higeia, buscando, mais à frente, respaldo na República de Platão.

 

Está correto o que consta APENAS de

  1. AI e II.
  2. BII e III.
  3. C I.
  4. DI e III.
  5. EIII.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — I e II.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A função do "Mas parece que" no 2º parágrafo

Gabarito: letra A (I e II). A frase "Mas parece que a Grécia dos séculos V e IV a.C. foi também a 'Grécia da saúde'" cumpre duas funções: opõe-se à discussão sobre a precedência do mito ou da dietética (o "Mas" marca a oposição à incerteza anterior) e introduz uma hipótese mais provável (o "parece" indica probabilidade), que é amparada, mais adiante, por textos como a República de Platão. O item III erra ao afirmar que a frase se opõe "tanto à medicina dietética como ao mito de Higeia" — ela não se opõe a esses elementos, mas sim à discussão sobre qual veio primeiro.

O comando

A questão pede que você analise a função discursiva de uma frase específica do 2º parágrafo. Não se trata de localizar uma informação explícita (compreensão), mas de interpretar o papel que a frase desempenha na argumentação do autor: o que ela faz no texto? A que ela se opõe? O que ela introduz? Para isso, é preciso observar os conectivos ("Mas") e os verbos modais ("parece"), que são as pistas linguísticas da intenção do autor.

O texto e o movimento argumentativo

No 2º parágrafo, o autor apresenta o mito de Higeia e, em seguida, faz uma ressalva importante:

"Não estamos propondo que a criação do mito de Higeia foi influenciada pela medicina dietética ou vice-versa. Para fazer tal afirmação, precisaríamos saber com certeza a data do surgimento de cada um deles."

O autor recusa entrar na discussão sobre qual veio primeiro (o mito ou a dietética), pois não há dados suficientes. É exatamente aí que entra a frase em análise:

"Mas parece que a Grécia dos séculos V e IV a.C. foi também a 'Grécia da saúde'."

O "Mas" opõe essa nova afirmação à discussão anterior (a da precedência). O autor não quer saber quem veio primeiro; ele quer afirmar algo mais genérico: que a Grécia daquele período foi uma "Grécia da saúde". O verbo "parece" indica que se trata de uma hipótese, não de uma certeza. E essa hipótese é amparada no parágrafo seguinte, quando o autor cita Platão:

"De acordo com Platão, o advento da medicina dietética fez o rico se tornar 'nosotrófico'."

E, mais adiante, transcreve um trecho da República (407b) para comprovar a tese de que a vida do homem estava "medicalizada".

A técnica que decide

A chave para resolver é identificar o referente da oposição e o valor do verbo "parecer":

  1. "Mas" = conjunção adversativa. O que ela opõe? O que vem antes (a discussão sobre a precedência) e o que vem depois (a afirmação genérica sobre a Grécia). Não se opõe à dietética nem ao mito em si — opõe-se à discussão sobre eles.

  2. "Parece" = verbo que expressa probabilidade, hipótese. Não é uma certeza, é uma suposição fundamentada.

  3. "Também" = indica que a Grécia clássica, além de outras coisas, foi a "Grécia da saúde".

Análise dos itens

  1. 1Autor recusa discutir precedência
  2. 2Mas = oposição à discussão
  3. 3Parece = hipótese provável
  4. 4Respaldo em Platão (República)
LEVEL · soulevel.com.br

Item I — ✅ Correto

"opõe-se à discussão sobre a precedência do mito ou da dietética, concluindo com um argumento mais genérico."

O item está correto. O "Mas" opõe a frase à discussão anterior sobre qual veio primeiro (mito ou dietética). O autor não quer resolver essa questão; ele quer concluir com uma afirmação mais ampla: a Grécia dos séculos V e IV a.C. foi a "Grécia da saúde". Isso é um argumento mais genérico, pois não depende de saber a data exata de cada um.

Item II — ✅ Correto

"introduz uma hipótese mais provável, amparada por textos como a República de Platão."

O item está correto. O verbo "parece" marca a hipótese (algo provável, não certo). E essa hipótese é amparada no 3º e 4º parágrafos, quando o autor usa Platão e a República para mostrar que a vida do homem estava "medicalizada". O texto diz:

"A vida do homem estava então 'medicalizada', a ponto de trocar a prática da virtude e da política pelo cuidado com a saúde. De acordo com Platão..."

A citação da República (407b) é a evidência que sustenta a hipótese lançada no 2º parágrafo.

Item III — ❌ Incorreto

"opõe-se tanto à medicina dietética como ao mito de Higeia, buscando, mais à frente, respaldo na República de Platão."

O item está incorreto por dois motivos:

  1. Erro de referência da oposição: a frase não se opõe "à medicina dietética" nem "ao mito de Higeia". Ela se opõe à discussão sobre a precedência entre eles. O autor não está contra a dietética nem contra o mito; ele apenas não quer entrar naquela disputa.

  2. Erro de valor do "Mas": o item diz que a frase se opõe "tanto a um como a outro", mas o texto mostra que a oposição é apenas à discussão ("Não estamos propondo que...").

A segunda parte do item ("buscando respaldo na República") está correta, mas o erro na primeira parte invalida o item como um todo.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de ler os conectivos e os verbos modais como pistas da intenção do autor. O "Mas" não se opõe a elementos do texto, mas a uma discussão; o "parece" não afirma, mas hipotetiza. Fique atento: quando o item diz que algo se opõe "a X e a Y", pergunte-se: o texto realmente coloca X e Y como opostos, ou a oposição é a outra coisa? Aqui, a oposição é à discussão sobre a precedência, não aos elementos em si.

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca o referente da oposição. O item III diz que a frase se opõe "à medicina dietética" e "ao mito de Higeia", mas o texto mostra que a oposição é à discussão sobre qual veio primeiro. É uma troca de termo clássica: o conectivo "Mas" continua sendo adversativo, mas o alvo da oposição é outro.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar a função de uma frase, identifique o que ela retoma (o referente) e o que ela introduz (a novidade). O "Mas" sempre aponta para uma quebra de expectativa — pergunte: quebra em relação a quê? A resposta está no período anterior.

Gabarito: letra A (itens I e II corretos).

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