Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — FCC 2026

PortuguêsConjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
fc140611
Banca
FCC
Órgão
SESAPI
Ano
2026
Cargo
Farm ( )

Considere o texto abaixo para responder a questão.

 

A Grécia clássica experimentou uma deificação da saúde: Higeia, filha de Asclépio, o deus da medicina, personificava a dádiva do pai, como deusa da saúde, limpeza e sanidade, e seu culto foi introduzido em Atenas por volta do ano 420 a.C.

 

Higeia sugeria misteriosamente a escolha dos alimentos necessários à existência e os remédios apropriados aos males. Ela também sustentava a força dos mortais, prevenindo as doenças. Não estamos propondo que a criação do mito de Higeia foi influenciada pela medicina dietética ou vice-versa. Para fazer tal afirmação, precisaríamos saber com certeza a data do surgimento de cada um deles. Mas parece que a Grécia dos séculos V e IV a.C. foi também a “Grécia da saúde”.

 

A medicina dietética, com suas técnicas de prevenção da saúde, estendeu seu poder de influência em diversas áreas da vida humana: alimentação, relações sexuais, banhos e exercícios. A dietética foi propícia para se construir uma medicina social que interagiu nos costumes com o pretexto de curar as enfermidades. No Corpus hippocraticum, a palavra diaita aparece com o sentido de “tratamento”, mas a dietética não possuiria somente fins terapêuticos: ela serviria para preservação e promoção da saúde, bem como a prevenção das doenças.

 

A vida do homem estava então “medicalizada”, a ponto de trocar a prática da virtude e da política pelo cuidado com a saúde. De acordo com Platão, o advento da medicina dietética fez o rico se tornar “nosotrófico”. Platão cunha a palavra “nosotrofia”, isto é, o ato de criar ou alimentar as doenças. Segundo ele, os ricos abandonaram suas obrigações com a pólis para cuidar de sua saúde, esquivando-se de responsabilidades: *[...] é o que se observa principalmente com esse cuidado excessivo do corpo, que vai muito além dos exercícios usuais de ginástica. Prejudica até mesmo os trabalhos de casa, o serviço nas campanhas militares e as obrigações civis em tempo de paz” (Platão, República, 407b).

 

Hoje, de formas diferentes, o culto à saúde continua. As estratégias de marketing das empresas farmacêuticas almejam as pessoas saudáveis. Qualquer queixa é transformada em sintoma. “O rolo compressor das campanhas publicitárias [...) transforma as pessoas saudáveis em doentes preocupados”, segundo Moynihan e Wasmes. Ainda hoje, a medicina busca certa primazia sobre a vida do ser humano, mesmo que ele não esteja doente. O pano de fundo é, de certo modo, semelhante ao da Grécia clássica.

 

(Adaptado de: MATSUI, Sussumo. “O mito de Higeia e a medicina dietética..." Revista Estética Semiótica, v. 6, n. 2, 2016)

O uso dos verbos “serviria” e “possuiria” (3º parágrafo) no futuro do pretérito indica
  1. Auma opinião que não é a do autor, que se restringe ao sentido imediato das palavras, mas sim de Platão, como virá referenciada a seguir.
  2. Buma diferença de ponto de vista, já que, para o autor, a dietética se destinava a “curar enfermidades” e não à “prevenção de doenças”.
  3. Cuma fala atribuída a outro pesquisador veiculando informação com a qual o autor do texto não está plenamente de acordo.
  4. Duma ação inacabada no passado, que poderia ter se completado caso a medicina dietética não se desdobrasse em nosotrofia.
  5. Euma informação não comprovada, ao contrário do verbo “aparece”, na mesma frase, que veicula um dado seguro.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — uma informação não comprovada, ao contrário do verbo “aparece”, na mesma frase, que veicula um dado seguro.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O futuro do pretérito como marca de hipótese não comprovada

Gabarito: letra E. Os verbos “serviria” e “possuiria”, no futuro do pretérito, indicam uma informação não comprovada, uma hipótese do autor, em contraste com o verbo “aparece”, no presente do indicativo, que veicula um dado seguro. A resposta se ancora na oposição entre os dois tempos verbais na mesma frase do 3º parágrafo: enquanto “aparece” afirma um fato (a palavra diaita tem o sentido de “tratamento”), “serviria” e “possuiria” apresentam uma possibilidade, algo que o autor supõe, sem afirmar categoricamente.

O comando da questão é de reconhecimento e emprego dos modos e tempos verbais: não se pede uma inferência sobre o conteúdo, mas a identificação do valor semântico que o futuro do pretérito assume no contexto. Para resolver, é preciso saber que esse tempo verbal, além de expressar um fato futuro em relação a um passado, é usado para indicar hipótese, incerteza, probabilidade ou condição — valor que se confirma pela leitura do trecho.

No 3º parágrafo, o autor escreve:

“No Corpus hippocraticum, a palavra diaita aparece com o sentido de ‘tratamento’, mas a dietética não possuiria somente fins terapêuticos: ela serviria para preservação e promoção da saúde, bem como a prevenção das doenças.”

A oposição é deliberada: “aparece” está no presente do indicativo (modo da certeza, do fato constatado), enquanto “possuiria” e “serviria” estão no futuro do pretérito (modo da hipótese, da possibilidade). O autor não afirma que a dietética tinha esses fins; ele supõe que ela teria. Essa distinção é a chave da questão.

A técnica para questões assim é contrastar os tempos verbais no mesmo trecho: quando o texto alterna presente do indicativo e futuro do pretérito, o primeiro marca fato/certeza e o segundo marca hipótese/incerteza. A banca explora exatamente essa diferença — o candidato que não percebe o contraste tende a escolher uma alternativa que mistura os valores.

Futuro do pretérito
  • 1Valores semânticos
    • Fato futuro em relação ao passado
    • Hipótese/incerteza
    • Probabilidade
    • Condição
  • 2Contraste no texto
    • Presente do indicativo ("aparece")
      • Fato constatado
    • Futuro do pretérito ("serviria"/"possuiria")
      • Informação não comprovada
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que “serviria” e “possuiria” expressam uma opinião de Platão, não do autor. Isso contradiz o texto: a frase em que os verbos aparecem é do próprio autor, que está desenvolvendo seu raciocínio sobre a dietética. A referência a Platão só surge no 4º parágrafo, em outro contexto (a “nosotrofia”). A alternativa extrapola ao atribuir a Platão uma fala que é do autor.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que há uma diferença de ponto de vista, pois o autor acreditaria que a dietética servia para “curar enfermidades” e não para “prevenção de doenças”. Isso inverte o sentido do texto: o autor afirma exatamente o contrário — a dietética não possuiria somente fins terapêuticos, mas também serviria para prevenção. A alternativa contradiz o texto ao trocar o conectivo “não somente... mas também” por uma oposição exclusiva.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que os verbos veiculam uma fala atribuída a outro pesquisador, com a qual o autor não concorda plenamente. Não há base no texto: a frase é do autor, e não há indicação de que ele discorde do que escreve. A alternativa extrapola ao inventar uma fonte externa e um desacordo inexistente.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa diz que os verbos indicam “uma ação inacabada no passado, que poderia ter se completado caso a medicina dietética não se desdobrasse em nosotrofia”. Isso não encontra respaldo no texto: o futuro do pretérito aqui não expressa ação inacabada nem condição ligada à nosotrofia. A alternativa extrapola ao criar uma relação causal que o texto não estabelece.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que “serviria” e “possuiria” indicam informação não comprovada, ao contrário de “aparece”, que veicula dado seguro. Isso é exatamente o que o texto mostra: o contraste entre o presente do indicativo (“aparece” = fato) e o futuro do pretérito (“serviria”/“possuiria” = hipótese) é a marca linguística da incerteza. A alternativa parafraseia corretamente o valor semântico dos tempos verbais no contexto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre os valores do futuro do pretérito. Em vez de reconhecer a hipótese, o candidato pode pensar em “ação inacabada” (D) ou atribuir a fala a Platão (A). O contraste com “aparece” é a pista decisiva.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de tempo verbal, sublinhe todos os verbos do trecho e pergunte: qual está no modo da certeza (indicativo) e qual está no modo da hipótese (futuro do pretérito/subjuntivo)? A resposta quase sempre está nessa oposição.

Gabarito: letra E.

Link permanente: /questoes/fc140611