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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140613
Banca
FCC
Órgão
SESAPI
Ano
2026
Cargo
Farm ( )

Considere o texto abaixo para responder a questão.

 

A Grécia clássica experimentou uma deificação da saúde: Higeia, filha de Asclépio, o deus da medicina, personificava a dádiva do pai, como deusa da saúde, limpeza e sanidade, e seu culto foi introduzido em Atenas por volta do ano 420 a.C.

 

Higeia sugeria misteriosamente a escolha dos alimentos necessários à existência e os remédios apropriados aos males. Ela também sustentava a força dos mortais, prevenindo as doenças. Não estamos propondo que a criação do mito de Higeia foi influenciada pela medicina dietética ou vice-versa. Para fazer tal afirmação, precisaríamos saber com certeza a data do surgimento de cada um deles. Mas parece que a Grécia dos séculos V e IV a.C. foi também a “Grécia da saúde”.

 

A medicina dietética, com suas técnicas de prevenção da saúde, estendeu seu poder de influência em diversas áreas da vida humana: alimentação, relações sexuais, banhos e exercícios. A dietética foi propícia para se construir uma medicina social que interagiu nos costumes com o pretexto de curar as enfermidades. No Corpus hippocraticum, a palavra diaita aparece com o sentido de “tratamento”, mas a dietética não possuiria somente fins terapêuticos: ela serviria para preservação e promoção da saúde, bem como a prevenção das doenças.

 

A vida do homem estava então “medicalizada”, a ponto de trocar a prática da virtude e da política pelo cuidado com a saúde. De acordo com Platão, o advento da medicina dietética fez o rico se tornar “nosotrófico”. Platão cunha a palavra “nosotrofia”, isto é, o ato de criar ou alimentar as doenças. Segundo ele, os ricos abandonaram suas obrigações com a pólis para cuidar de sua saúde, esquivando-se de responsabilidades: *[...] é o que se observa principalmente com esse cuidado excessivo do corpo, que vai muito além dos exercícios usuais de ginástica. Prejudica até mesmo os trabalhos de casa, o serviço nas campanhas militares e as obrigações civis em tempo de paz” (Platão, República, 407b).

 

Hoje, de formas diferentes, o culto à saúde continua. As estratégias de marketing das empresas farmacêuticas almejam as pessoas saudáveis. Qualquer queixa é transformada em sintoma. “O rolo compressor das campanhas publicitárias [...) transforma as pessoas saudáveis em doentes preocupados”, segundo Moynihan e Wasmes. Ainda hoje, a medicina busca certa primazia sobre a vida do ser humano, mesmo que ele não esteja doente. O pano de fundo é, de certo modo, semelhante ao da Grécia clássica.

 

(Adaptado de: MATSUI, Sussumo. “O mito de Higeia e a medicina dietética..." Revista Estética Semiótica, v. 6, n. 2, 2016)

Entre a medicina dietética na Antiguidade e a medicina nos dias atuais, o autor do texto
  1. Aestabelece um paralelo entre a nosotrofia, louvada por Platão, e o culto à saúde que, na atualidade, restabelece o cuidado antigo com o corpo.
  2. Bencontra uma semelhança, o cuidado exagerado com a saúde, antes descrito como a “nutrição da doença”, agora, estimulado pela indústria farmacêutica.
  3. Cconsidera que se deve aprender com os antigos o cuidado cotidiano com a saúde, ao contrário da medicalização estimulada pela indústria farmacêutica atual.
  4. Dtraz uma diferença de abordagem em relação à saúde, uma vez que a nosotrofia hoje não seria possível dado o marketing da indústria farmacêutica.
  5. Ebusca traçar a origem de um comportamento de nossa época, o culto à saúde, para que seja mais bem compreendido e dele se exclua a mercantilização promovida pelas empresas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — encontra uma semelhança, o cuidado exagerado com a saúde, antes descrito como a “nutrição da doença”, agora, estimulado pela indústria farmacêutica.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A semelhança entre a medicina antiga e a atual: o cuidado exagerado com a saúde

Gabarito: letra B. O autor do texto encontra uma semelhança entre a medicina dietética da Antiguidade e a medicina atual: o cuidado exagerado com a saúde — antes descrito como “nosotrofia” (a “nutrição da doença”, segundo Platão) e, hoje, estimulado pela indústria farmacêutica. Essa leitura é autorizada pelo 4º e 5º parágrafos, como se vê nos trechos citados abaixo.

O comando pede que você identifique o que o autor faz ao relacionar a medicina antiga e a atual: se estabelece um paralelo, uma diferença, uma crítica etc. Isso é uma questão de compreensão — a resposta está explícita no texto, não exige inferência profunda. Basta localizar as passagens que comparam os dois momentos e ver qual alternativa as parafraseia fielmente.

O texto desenvolve uma comparação entre a Grécia clássica e os dias de hoje. No 4º parágrafo, o autor apresenta a nosotrofia — o “ato de criar ou alimentar as doenças” — atribuída a Platão, que criticava os ricos por abandonarem a pólis para cuidar da saúde. No 5º parágrafo, ele afirma que “Hoje, de formas diferentes, o culto à saúde continua” e que “As estratégias de marketing das empresas farmacêuticas almejam as pessoas saudáveis”. A semelhança está no exagero do cuidado com o corpo, que antes era criticado por Platão e hoje é estimulado pela indústria farmacêutica.

A técnica decisiva aqui é testar cada alternativa contra o texto: a correta é a única que não acrescenta nada — ela apenas reescreve o que está dito. As erradas, em geral, extrapolam (acrescentam opiniões ou julgamentos que o autor não emite) ou contradizem o texto (invertem relações, como dizer que Platão “louvava” a nosotrofia).

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora extrapolar com um fato verdadeiro que o texto não traz. Por exemplo, dizer que Platão “louvava” a nosotrofia — o texto diz exatamente o contrário: Platão a criticava. Fique atento a palavras como “louvada”, “deve-se aprender”, “exclua” — elas embutem juízos que o autor não externou.

Comparação medicina antiga × atual
  • 1Semelhança
    • Cuidado exagerado com a saúde
    • Antes: nosotrofia (Platão criticava)
    • Hoje: estimulado pela indústria farmacêutica
  • 2Erros comuns
    • Extrapolar (juízo que o autor não emite)
    • Contradizer o texto (inverter relações)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor estabelece um paralelo entre a nosotrofia “louvada por Platão” e o culto à saúde atual. O texto, porém, diz o oposto: Platão criticava a nosotrofia, chamando-a de “ato de criar ou alimentar as doenças”. O trecho “os ricos abandonaram suas obrigações com a pólis para cuidar de sua saúde, esquivando-se de responsabilidades” mostra a reprovação de Platão. A alternativa contradiz o texto ao trocar “criticada” por “louvada”.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa B é uma paráfrase fiel do texto. Ela diz que o autor encontra uma semelhança — o cuidado exagerado com a saúde — antes descrito como “nutrição da doença” (nosotrofia) e agora estimulado pela indústria farmacêutica. Isso está explícito nos trechos:

“Platão cunha a palavra ‘nosotrofia’, isto é, o ato de criar ou alimentar as doenças.”

“As estratégias de marketing das empresas farmacêuticas almejam as pessoas saudáveis.”

A alternativa não acrescenta nada — apenas reescreve o que o texto diz, mantendo a relação de semelhança entre os dois períodos.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que o autor “considera que se deve aprender com os antigos o cuidado cotidiano com a saúde”. O texto não faz essa recomendação — ele apenas descreve a semelhança entre os dois momentos, sem emitir juízo de valor ou sugerir que devemos imitar os antigos. Isso é uma extrapolação: o autor não diz que devemos aprender com eles, apenas compara.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D afirma que o autor traz uma diferença de abordagem e que a nosotrofia “hoje não seria possível”. O texto, porém, diz o contrário: “Hoje, de formas diferentes, o culto à saúde continua” — ou seja, a nosotrofia continua possível, apenas de forma diferente. A alternativa contradiz o texto ao afirmar que ela “não seria possível”.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E afirma que o autor busca traçar a origem do culto à saúde “para que dele se exclua a mercantilização promovida pelas empresas”. O texto não propõe excluir a mercantilização — ele apenas constata que ela existe e que o pano de fundo é semelhante ao da Grécia. A alternativa extrapola ao atribuir ao autor uma intenção que ele não declara.

Conclusão: a questão testa sua capacidade de não extrapolar. A alternativa correta é a que apenas parafraseia o texto, sem acrescentar opiniões ou inverter relações. Lembre-se: se a alternativa diz algo que o texto não diz — mesmo que pareça razoável — ela está errada.

Gabarito: letra B.

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