Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140625
Banca
FCC
Órgão
SESAPI
Ano
2026
Cargo
Farm ( )
Considere o texto abaixo para responder a questão.
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque — a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras — e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não.
Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
(LISPECTOR, Clarice. “Por não estarem distraídos”, Para não esquecer, Rocco, 2020)
No texto, estar distraído significa
Asair à rua embriagado, de maneira inconsequente, sem atentar para os demais.
Bprestar atenção às atrações, ignorando a presença do outro.
Cdeixar de ter consciência de coisas essenciais a ponto de perdê-las.
Destar tomado pela presença do outro a ponto de não se aperceber.
Edivertir-se com a beleza do mundo, esquecendo-se dos problemas.
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GabaritoD — estar tomado pela presença do outro a ponto de não se aperceber.
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O sentido de "estar distraído" no texto de Clarice Lispector
Gabarito: letra D. No texto, "estar distraído" significa estar tomado pela presença do outro a ponto de não se aperceber — ou seja, é um estado de entrega total ao momento compartilhado, em que a consciência reflexiva se suspende. A passagem que ancora essa leitura está no segundo parágrafo: "Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham." O texto opõe, de forma explícita, "prestar atenção" (que arruína a relação) a "estar distraído" (que a preservava).
O comando: o que a questão pede
O enunciado "No texto, estar distraído significa" é uma questão de compreensão/interpretação de sentido contextual: não se pergunta o significado dicionarizado de "distraído" (desatento, alheio), mas o valor que a palavra assume dentro da lógica do texto. Isso muda tudo: a resposta não está na definição literal, e sim na oposição que o próprio texto constrói entre "distraído" e "prestar atenção".
O texto: a tese e o movimento argumentativo
O texto narra a história de um casal que vivia uma alegria plena — "a levíssima embriaguez de andarem juntos" — até que "tudo se transformou em não". O ponto de virada é explicitado: "Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles." O erro não foi a alegria em si, mas o querer tê-la conscientemente, o "prestar atenção" nela. A tese é quase paradoxal: a felicidade do encontro só existe enquanto não é objeto de desejo deliberado; quando se tenta "dar um nome" ou "ter o que já tinham", ela se perde.
A palavra "distraído" aparece exatamente nesse eixo: "Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos." Estar distraído, aqui, é o oposto de "prestar atenção" — e "prestar atenção" é o que os fez "exigentes e duros", querendo "ter o que já tinham". Portanto, "distraído" não é simplesmente "desatento" no sentido comum; é estar imerso na vivência, sem a consciência reflexiva que transforma a experiência em objeto de posse.
A técnica que decide: a oposição como chave de leitura
A armadilha central desta questão é a extrapolação com sentido literal. O candidato lê "distraído" e pensa no significado cotidiano (desatento, alheio, esquecido), e então busca uma alternativa que diga isso. Mas o texto redefine o termo pelo contexto. A técnica é: sempre que uma palavra aparecer em um texto literário, verifique se o autor a usa em sentido próprio ou se ela ganha um valor novo pela oposição/contexto. Aqui, a oposição "distraído × prestar atenção" é a pista mestra.
Observe como o texto descreve o estado inicial do casal: "eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles". Eles não pensavam na alegria; eles eram a alegria. "Como eles admiravam estarem juntos!" — a admiração aqui é contemplativa, não analítica. Quando "quiseram dar um nome" a isso, a magia se quebrou. Estar distraído, portanto, é não se dar conta — é estar tão absorvido pela presença do outro que não há espaço para a consciência que separa, que nomeia, que quer possuir.
"Estar distraído" (sentido contextual): Oposição central do texto (Distraído = imerso na vivência, Prestar atenção = querer possuir); Consequência (Distraído preserva a alegria, Atenção destrói a relação); Paráfrase correta (Tomado pela presença do outro, Sem consciência reflexiva)
Alternativa A — ❌ Incorreta
"sair à rua embriagado, de maneira inconsequente, sem atentar para os demais."
Erro: extrapolação com sentido literal. A alternativa pega a metáfora "levíssima embriaguez" e a transforma em embriaguez real (álcool), e "distraído" em "inconsequente". O texto não fala de bebida nem de irresponsabilidade; fala de um estado de encantamento. Além disso, "sem atentar para os demais" contradiz o texto: os dois estavam inteiramente atentos um ao outro — "eles se tocavam, e ao toque brilhava o brilho da água deles". A distração aqui é não se aperceber da própria alegria, não ignorar o outro.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"prestar atenção às atrações, ignorando a presença do outro."
Erro: contradiz o texto. A alternativa inverte a oposição central. O texto diz que "prestar atenção" foi o que destruiu a relação ("Tudo só porque tinham prestado atenção"), e que "estar distraído" era o estado bom. Além disso, "ignorando a presença do outro" é o oposto do que o texto descreve: os dois estavam absortos um no outro, não em "atrações" externas. A alternativa troca o referente: a atenção aqui não é às atrações, mas à própria relação.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"deixar de ter consciência de coisas essenciais a ponto de perdê-las."
Erro: extrapolação com inversão de causa e efeito. A alternativa diz que a falta de consciência leva à perda. Mas o texto afirma exatamente o contrário: foi o excesso de consciência ("prestar atenção", "quiseram dar um nome") que fez perder a alegria. Estar distraído era o estado que preservava a felicidade; a perda veio quando deixaram de estar distraídos. A alternativa também introduz "coisas essenciais" — o texto fala de uma alegria específica, não de "coisas essenciais" em geral.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"estar tomado pela presença do outro a ponto de não se aperceber."
Correta. Esta é a única alternativa que captura o sentido contextual de "distraído" como absorção total na vivência, sem consciência reflexiva. O texto descreve o estado inicial do casal como uma imersão: "eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles". Eles não se apercebiam da alegria como objeto; eles eram a alegria. A oposição com "prestar atenção" confirma: "Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos." Estar distraído = estar tomado pela presença do outro, sem a consciência que separa e quer possuir. A alternativa D é uma paráfrase fiel dessa ideia.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"divertir-se com a beleza do mundo, esquecendo-se dos problemas."
Erro: tangencia o tema (fuga ao escopo). A alternativa fala de "beleza do mundo" e "problemas", conceitos que não aparecem no texto. O texto não trata de problemas a esquecer nem de uma diversão genérica com o mundo; trata de uma relação específica entre duas pessoas e da alegria de estarem juntas. "Esquecer-se dos problemas" é uma leitura de senso comum que o texto não autoriza — é acrescentar informação de fora.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora o sentido literal de "distraído" (desatento) para fazer o candidato escolher uma alternativa que diga "esquecer" ou "não prestar atenção". A chave é perceber que o texto redefine o termo pela oposição com "prestar atenção": distraído aqui é o estado de entrega total, não de alheamento.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de sentido contextual, grife as oposições do texto. Quando uma palavra aparece em um eixo de contraste (aqui, "distraído × prestar atenção"), o significado é definido por esse contraste, não pelo dicionário.
Conclusão: a resposta é a letra D porque é a única que traduz "estar distraído" como o estado de absorção na presença do outro — exatamente o oposto de "prestar atenção", que o texto aponta como a causa da perda. As demais ou extrapolam o sentido literal, ou invertem a oposição central, ou introduzem temas que o texto não aborda.