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Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — FCC 2026

PortuguêsOutras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
fc140626
Banca
FCC
Órgão
SESAPI
Ano
2026
Cargo
Farm ( )

Considere o texto abaixo para responder a questão.

 

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque — a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras — e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não.

 

Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

 

(LISPECTOR, Clarice. “Por não estarem distraídos”, Para não esquecer, Rocco, 2020)

Considere as seguintes afirmações sobre o texto.

 

I. Os segmentos quiseram ter o que já tinham e quiseram ser, eles que eram (2º parágrafo) são paradoxos que ilustram o descompasso de duas pessoas que estão em momentos distintos da relação.

 

II. O verbo “errar” (2º parágrafo) é usado em seus dois sentidos, de equivocar-se e de perambular — correlatos, respectivamente, de erro e errância.

 

III. O uso do “se” em como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta (1º parágrafo), presta-se a indeterminar o sujeito, de modo a expressar uma ideia geral, na qual se enquadra o comportamento do casal.

 

Está correto o que consta APENAS de

  1. AI e III.
  2. B I.
  3. CI e II.
  4. DIII.
  5. EII e III.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — II e III.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Paradoxo, polissemia e o valor do "se" no texto de Clarice

Gabarito: letra E. Estão corretas apenas as afirmações II e III. A afirmação I falha ao atribuir aos paradoxos um sentido de "descompasso de duas pessoas em momentos distintos da relação" — o texto não sustenta essa leitura; o paradoxo expressa a contradição de querer ter o que já se tem e querer ser o que já se é, uma crítica à perda da espontaneidade, e não um descompasso entre os dois. As afirmações II e III, por sua vez, encontram apoio direto no texto: o verbo "errar" é usado tanto no sentido de equivocar-se quanto no de perambular, e o "se" indetermina o sujeito, generalizando a experiência.

O comando

A questão pede que se julgue a validade de três afirmações sobre o texto e se assinale a combinação correta. Isso exige, para cada item, verificar se a leitura proposta encontra ancoragem no texto — seja por paráfrase direta (compreensão) ou por inferência legítima (com pista textual). Não se trata de avaliar se a afirmação é "bonita" ou "plausível", mas se o texto a autoriza.

O texto

O conto de Clarice Lispector narra a passagem de um estado de harmonia espontânea (a "levíssima embriaguez" de andarem juntos) para um estado de ruptura ("tudo se transformou em não"). A tese central é a de que a consciência excessiva — "prestar atenção", "querer dar um nome", "querer ter o que já tinham" — destrói a experiência vivida. O 2º parágrafo é a chave para a questão: explica o porquê da transformação, e é nele que estão os paradoxos e o verbo "errar".

A técnica que decide

Cada afirmação deve ser testada contra o texto:

  • Afirmação I: fala em "descompasso de duas pessoas que estão em momentos distintos da relação". O texto, porém, não diz que um está num momento e o outro em outro. O paradoxo "quiseram ter o que já tinham" e "quiseram ser, eles que eram" aponta para a contradição interna do desejo — querer algo que já se possui —, e não para uma diferença entre os dois. A afirmação extrapola ao introduzir a ideia de "momentos distintos".

  • Afirmação II: o verbo "errar" aparece em "a grande dança dos erros" (substantivo, mas ligado ao verbo) e em "quanto mais erravam". No contexto, "errar" significa tanto equivocar-se (errar o alvo, desacertar) quanto perambular (errar pelas ruas, como em "a grande poeira das ruas"). A afirmação está correta.

  • Afirmação III: o "se" em "como quando se sente a garganta um pouco seca" e "se vê que por admiração se estava de boca entreaberta" é índice de indeterminação do sujeito. O texto generaliza a experiência: não é só o casal que sente a garganta seca, mas qualquer um que admire. A afirmação está correta.

1I. Paradoxos
"Descompasso entre os dois" (extrapolação)
Contradição do desejo: querer o que já se tem
2II. Verbo "errar"
Equivocar-se (erro)
Perambular (errância)
3III. Valor do "se"
Indetermina o sujeito
Generaliza a experiência
Análise das afirmações
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Análise das afirmações: I. Paradoxos ("Descompasso entre os dois" (extrapolação), Contradição do desejo: querer o que já se tem); II. Verbo "errar" (Equivocar-se (erro), Perambular (errância)); III. Valor do "se" (Indetermina o sujeito, Generaliza a experiência)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Inclui a afirmação I, que é falsa. O texto não fala em "descompasso" entre os dois; o paradoxo é sobre a contradição do desejo de possuir o que já se tem. A alternativa extrapola ao acrescentar a ideia de "momentos distintos da relação".

Alternativa B — ❌ Incorreta

Contém apenas a afirmação I, que é falsa. O paradoxo não ilustra um descompasso entre os dois, mas a perda da espontaneidade pelo excesso de consciência. A alternativa contradiz o texto ao atribuir-lhe uma leitura que ele não sustenta.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Reúne as afirmações I e II. A II é verdadeira, mas a I é falsa, o que invalida a combinação. O erro está em aceitar a leitura de "descompasso" que o texto não autoriza.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Contém apenas a afirmação III, que é verdadeira, mas deixa de fora a II, também verdadeira. A alternativa é incompleta.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Reúne as afirmações II e III, ambas verdadeiras. A II se prova no trecho "a grande dança dos erros" e "quanto mais erravam", em que "errar" assume os sentidos de equivocar-se e perambular. A III se prova no uso do "se" indeterminador em "como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta", que generaliza a experiência.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar afirmações sobre um texto, pergunte-se sempre: "o texto diz isso, ou eu estou completando com o que acho que ele diz?". A afirmação I é o típico caso de extrapolação — a leitura é sedutora, mas não está no texto.

Gabarito: letra E — apenas as afirmações II e III são corretas.

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