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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140630
Banca
FCC
Órgão
SESAPI
Ano
2026
Cargo
Tec

Considere o texto abaixo para responder a questão.

 

Certos medos e angústias não têm relação com a idade e são universais

 

Anos atrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Claro que não tinha a pretensão de resolver as contradições do mundo, muito menos a de decifrar os mistérios da condição humana, mas achava que estaria livre das angústias e dos desacertos existenciais que me atormentavam.

 

Eu estava enganado. Os medos, a ansiedade, as frustrações e perdas atribuídas ao envelhecimento são universais, não importa se você tem 40 ou 70, ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos:

 

"Meus dias estão nas folhas amarelas! As flores e frutos do amor se foram! O verme, a doença, e o luto! São somente meus".

 

A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da velhice não fazia o menor sentido. Assolados por doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas.

 

Embora sempre tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis que se referiam à velhice como fonte inesgotável de dores, limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.

 

Montaigne escreveu há mais de 450 anos: "Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida pela idade avançada... Uma vez que essa é a mais rara das mortes... Nós a chamamos de natural, como se fosse contrário à natureza ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia... Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros."

 

Desde Montaigne, a expectativa de vida aumentou devagar. Num de seus textos, Machado de Assis se refere a um "velho gaiteiro de 50 anos". Anos atrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No início da carreira, ao ouvir uma paciente dizer que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei que lhe faltasse autocrítica.

 

Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: "Já tendo chegado aos 60 anos, penso com frequência na morte... Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia. Outras vezes penso no desejo de mais tempo: para terminar outro livro, o fim de outro tirano para ser celebrado. As pessoas se iludem supondo que a fome de viver tenha alguma validade objetiva."

 

Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: "O que farei com este absurdo! Oh coração, Oh coração atormentado – esta caricatura/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/ Como a cauda num cachorro?"

 

Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos constituiriam a faixa etária que mais cresce. Se eles tivessem chegado a essa idade no Brasil de hoje, teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.

 

Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de "fazer repouso", o desafio agora é envelhecer com sabedoria, o que implica em aceitar as limitações impostas pelo corpo, sem abandonar a atividade física e o desejo de experimentar o novo. É combater a vontade de desistir, de isolar-se, de achar que não vale a pena viver, de se queixar de tudo e de todos, o tempo inteiro.

 

E não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou de terceira idade? Pior ainda quando dizem que temos cabeça de jovem. Como você se sentiria aos 30 se lhe dissessem que sua cabeça é de 15?

 

Bernard Shaw escreveu aos 92 anos: "É mais difícil lidar com o envelhecimento do que com a morte... Acreditar na imortalidade genuína é acreditar no horror inimaginável".

 

Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a impressão de que quem passou a existência sem fé religiosa, como eu, aceita com mais naturalidade a ideia do eterno não-ser. Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha vida segundo a filosofia do poeta: "Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure". Ou, de acordo com a linguagem simples de seu José Araújo, carcereiro do antigo Carandiru: "Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa".

 

Feliz Ano-Novo.

 

(Adaptado de: VARELLA, Drauzio. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella/2025/12/certos-medos-e-angustias-nao-tem-relacao-com-a-idade-e-sao-universais.shtml. Publicado em: 31 de dez. de 2025. Acesso em: 05 de jan. de 2026)

Leia as seguintes afirmações sobre as citações presentes no texto:

 

I. Em Meus dias estão nas folhas amarelas/ As flores e frutos do amor se foram/ O verme, a doença, e o luto/ São somente meus (parágrafo 3), Lord Byron associa sua vida às estações do ano e lamenta suas perdas.

 

II. Em Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida pela idade avançada... Uma vez que essa é a mais rara das mortes... Nós a chamamos de natural, como se fosse contrário à natureza ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia... Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros (parágrafo 6), Montaigne concorda com a noção de morte natural como aquela que acontece de forma suave, após o indivíduo ter desfrutado de uma vida longa.

 

III. Em É mais difícil lidar com o envelhecimento do que com a morte... Acreditar na imortalidade genuína é acreditar no horror inimaginável (parágrafo 13), Bernard Shaw critica a imortalidade, pois, para ele, envelhecer seria pior do que morrer propriamente.

 

É correto o que se afirma APENAS em:

  1. AI e III.
  2. BII e III.
  3. CI.
  4. DII.
  5. EIII.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — I e III.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação de citações: o que o autor realmente quis dizer

Gabarito: letra A (I e III). A questão pede que você julgue se as paráfrases das citações de Byron, Montaigne e Shaw estão fiéis ao sentido original. A única que distorce o texto é a II: Montaigne critica a noção de "morte natural", não concorda com ela. As afirmações I e III estão corretas, pois captam o sentido das citações de Byron e Shaw. A passagem que prova o erro da II está no parágrafo 6: Montaigne chama a morte por velhice de "a mais rara das mortes" e diz que é "menos natural do que os outros" — exatamente o oposto do que a afirmação II sustenta.

O comando: compreensão e inferência sobre citações

O enunciado pede que você avalie afirmações interpretativas sobre três citações. Isso é uma questão de compreensão (o que está escrito) combinada com inferência (o que o autor quis dizer). A técnica é: para cada citação, volte ao texto, leia o trecho original e compare com a paráfrase da afirmação. Pergunte: a paráfrase mantém o sentido ou inverte? A banca adora trocar um conectivo ou um verbo que muda tudo — aqui, o erro está em "concorda" quando o texto diz "critica".

O texto: a tese de Drauzio Varella

O texto defende que os medos e angústias do envelhecimento são universais e não dependem da idade. Para provar isso, o autor cita vários poetas e escritores que, em idades diferentes, expressaram as mesmas preocupações. Cada citação serve como evidência da tese. Ao interpretar cada uma, você deve considerar o contexto em que ela aparece: Byron aos 36, Montaigne aos 50 e poucos, Shaw aos 92. A questão testa se você consegue extrair a ideia central de cada citação sem se prender ao sentido literal.

A técnica: como testar cada afirmação

Para cada afirmação, faça três perguntas:

  1. O que a citação diz literalmente?

  2. O que o autor quis dizer com isso? (inferência)

  3. A paráfrase da afirmação mantém esse sentido?

Se a paráfrase acrescenta algo que não está no texto, restringe o alcance ou inverte o sentido, ela está errada. No caso da II, a paráfrase diz que Montaigne "concorda com a noção de morte natural como aquela que acontece de forma suave, após o indivíduo ter desfrutado de uma vida longa". Mas o texto mostra o contrário: Montaigne ironiza essa noção, chamando a morte por velhice de "a mais rara das mortes" e "menos natural do que os outros". A palavra-chave é "menos natural" — se é menos natural, não é a morte natural que ele defende.

1I. Byron
Associa vida às estações
Lamenta perdas
2II. Montaigne
Critica a "morte natural"
Chama velhice de "a mais rara das mortes"
3III. Shaw
Envelhecer é pior que morrer
Critica a imortalidade
Citações interpretadas
LEVELsoulevel.com.br
Citações interpretadas: I. Byron (Associa vida às estações, Lamenta perdas); II. Montaigne (Critica a "morte natural", Chama velhice de "a mais rara das mortes"); III. Shaw (Envelhecer é pior que morrer, Critica a imortalidade)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A afirmação I está correta: Byron associa sua vida às estações do ano ("folhas amarelas") e lamenta perdas ("As flores e frutos do amor se foram"). A afirmação III também está correta: Shaw critica a imortalidade ("Acreditar na imortalidade genuína é acreditar no horror inimaginável") e afirma que envelhecer é pior que morrer ("É mais difícil lidar com o envelhecimento do que com a morte"). Portanto, a alternativa A é a única que reúne as duas afirmações corretas.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Inclui a afirmação II, que é falsa. Montaigne não concorda com a noção de morte natural; ele a critica. A banca inverteu o sentido da citação. O erro é de contradição com o texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Afirma que apenas I é correta, mas III também é. A alternativa restringe o conjunto correto, deixando de fora uma afirmação verdadeira.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirma que apenas II é correta, mas II é falsa. A alternativa contradiz o texto ao validar uma interpretação invertida.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Afirma que apenas III é correta, mas I também é. A alternativa restringe o conjunto correto, deixando de fora uma afirmação verdadeira.

NÃO CAIA NESSA!

A banca inverte o sentido da citação de Montaigne. Ela diz que ele "concorda" com a morte natural, mas o texto mostra que ele a critica. Fique atento a verbos como "concordar", "criticar", "defender" — eles mudam tudo.

PEGA ESSA DICA!

Ao interpretar citações, sublinhe os conectivos e verbos que indicam a atitude do autor (concordar, criticar, ironizar). Eles são a chave para não cair em inversões de sentido.

Conclusão: a questão testa sua capacidade de parafrasear sem inverter o sentido. A afirmação II é a única que falha, pois atribui a Montaigne uma opinião que ele não tem. As afirmações I e III estão corretas, pois captam o sentido das citações. Gabarito: letra A.

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