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Questão de Português — Denotação e Conotação — FCC 2026

PortuguêsDenotação e Conotação
Código
fc140632
Banca
FCC
Órgão
SESAPI
Ano
2026
Cargo
Tec

Considere o texto abaixo para responder a questão.

 

Certos medos e angústias não têm relação com a idade e são universais

 

Anos atrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Claro que não tinha a pretensão de resolver as contradições do mundo, muito menos a de decifrar os mistérios da condição humana, mas achava que estaria livre das angústias e dos desacertos existenciais que me atormentavam.

 

Eu estava enganado. Os medos, a ansiedade, as frustrações e perdas atribuídas ao envelhecimento são universais, não importa se você tem 40 ou 70, ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos:

 

"Meus dias estão nas folhas amarelas! As flores e frutos do amor se foram! O verme, a doença, e o luto! São somente meus".

 

A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da velhice não fazia o menor sentido. Assolados por doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas.

 

Embora sempre tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis que se referiam à velhice como fonte inesgotável de dores, limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.

 

Montaigne escreveu há mais de 450 anos: "Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida pela idade avançada... Uma vez que essa é a mais rara das mortes... Nós a chamamos de natural, como se fosse contrário à natureza ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia... Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros."

 

Desde Montaigne, a expectativa de vida aumentou devagar. Num de seus textos, Machado de Assis se refere a um "velho gaiteiro de 50 anos". Anos atrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No início da carreira, ao ouvir uma paciente dizer que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei que lhe faltasse autocrítica.

 

Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: "Já tendo chegado aos 60 anos, penso com frequência na morte... Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia. Outras vezes penso no desejo de mais tempo: para terminar outro livro, o fim de outro tirano para ser celebrado. As pessoas se iludem supondo que a fome de viver tenha alguma validade objetiva."

 

Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: "O que farei com este absurdo! Oh coração, Oh coração atormentado – esta caricatura/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/ Como a cauda num cachorro?"

 

Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos constituiriam a faixa etária que mais cresce. Se eles tivessem chegado a essa idade no Brasil de hoje, teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.

 

Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de "fazer repouso", o desafio agora é envelhecer com sabedoria, o que implica em aceitar as limitações impostas pelo corpo, sem abandonar a atividade física e o desejo de experimentar o novo. É combater a vontade de desistir, de isolar-se, de achar que não vale a pena viver, de se queixar de tudo e de todos, o tempo inteiro.

 

E não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou de terceira idade? Pior ainda quando dizem que temos cabeça de jovem. Como você se sentiria aos 30 se lhe dissessem que sua cabeça é de 15?

 

Bernard Shaw escreveu aos 92 anos: "É mais difícil lidar com o envelhecimento do que com a morte... Acreditar na imortalidade genuína é acreditar no horror inimaginável".

 

Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a impressão de que quem passou a existência sem fé religiosa, como eu, aceita com mais naturalidade a ideia do eterno não-ser. Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha vida segundo a filosofia do poeta: "Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure". Ou, de acordo com a linguagem simples de seu José Araújo, carcereiro do antigo Carandiru: "Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa".

 

Feliz Ano-Novo.

 

(Adaptado de: VARELLA, Drauzio. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella/2025/12/certos-medos-e-angustias-nao-tem-relacao-com-a-idade-e-sao-universais.shtml. Publicado em: 31 de dez. de 2025. Acesso em: 05 de jan. de 2026)

É não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos infantilizam. (parágrafo 12)

 

Como na frase acima, há também eufemismo em:

  1. AÉ mais difícil lidar com o envelhecimento do que com a morte... (parágrafo 13)
  2. BEnquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha vida seguindo a filosofia do poeta [...]. (parágrafo 14)
  3. CAssolados por doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas. (parágrafo 4)
  4. DMorrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros. (parágrafo 6)
  5. EAlgumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia. (parágrafo 8)
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GabaritoB — Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha vida seguindo a filosofia do poeta [...]. (parágrafo 14)

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Eufemismo: a arte de suavizar o que incomoda

Gabarito: letra B. A alternativa B é a única que repete o mesmo mecanismo do trecho-base: substituir uma palavra dura por uma expressão mais amena. No texto, "velhos" vira "terceira idade, melhor idade e idoso"; na alternativa B, a morte é chamada de "a indesejável senhora". A passagem que ancora a resposta está no parágrafo 14: "Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora". As demais alternativas ou usam linguagem literal, ou empregam outras figuras (metáfora, hipérbole), mas nenhuma suaviza um termo tabu como faz o eufemismo.

O comando: reconhecer a figura, não interpretar o texto

A questão pede que você identifique a mesma figura de linguagem presente no trecho-base. Não se trata de compreender o sentido global do texto, nem de inferir algo — é uma questão de reconhecimento de figura de linguagem (eufemismo). O comando "há também eufemismo em" exige que você compare o mecanismo do trecho-base com o das alternativas. A técnica é: isole a figura do trecho-base e teste cada alternativa contra ela.

O texto: o eufemismo como crítica social

No parágrafo 12, o autor critica o uso de eufemismos para se referir aos velhos: "terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos infantilizam". O eufemismo aqui é explícito e nomeado — o autor aponta que essas palavras são usadas para suavizar a palavra "velho", que carrega uma conotação negativa. O mecanismo é claro: substituir um termo considerado desagradável por outro mais suave. É esse mecanismo que você deve procurar nas alternativas.

A técnica: o que é eufemismo e o que não é

O eufemismo é uma figura de pensamento que consiste em substituir uma palavra ou expressão considerada desagradável, grosseira ou tabu por outra mais suave, agradável ou polida. O objetivo é amenizar o impacto do que se diz. Exemplos clássicos: "ele partiu" (em vez de "morreu"), "ela está em uma situação financeira difícil" (em vez de "está pobre").

A pegadinha central desta questão é confundir eufemismo com metáfora. A metáfora também usa uma palavra em sentido figurado, mas não tem a função de suavizar — ela cria uma comparação implícita para dar expressividade. No eufemismo, a intenção é atenuar o desconforto; na metáfora, é criar uma imagem. Veja a diferença:

Critério

Eufemismo

Metáfora

Função

Suavizar um termo tabu/desagradável

Criar uma imagem expressiva

Exemplo

"partiu" por "morreu"

"a vida é uma estrada"

Intenção

Atenuar o impacto

Embelezar/expressar

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

"É mais difícil lidar com o envelhecimento do que com a morte..."

Aqui não há substituição de um termo por outro mais suave. A frase é literal: compara diretamente o envelhecimento e a morte, sem usar nenhuma palavra para amenizar o impacto. Não há eufemismo — há apenas uma constatação direta. A alternativa tangencia o tema (fala de morte, que é um tema tabu, mas não a suaviza).

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha vida seguindo a filosofia do poeta [...]."

Aqui está o eufemismo. O autor evita dizer a palavra "morte" e a substitui por "a visita da indesejável senhora". A morte é personificada como uma "senhora" — uma forma de suavizar o tabu da morte, tornando-a menos assustadora. O mecanismo é idêntico ao do trecho-base: substituir um termo duro por uma expressão mais amena. A passagem que prova está no parágrafo 14.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Assolados por doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas."

Aqui há uma hipérbole (exagero) e uma ironia (chamar de "privilégio" algo que era raro por causa da morte precoce). Não há substituição de um termo tabu por outro mais suave. A palavra "privilégio" é usada em sentido irônico, não para suavizar. A alternativa contradiz o mecanismo do eufemismo: em vez de amenizar, ela exagera a dureza da realidade.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros."

A frase é literal e direta: usa a palavra "morrer" sem nenhuma substituição. Não há eufemismo. A alternativa não apresenta nenhum mecanismo de suavização — é uma constatação objetiva sobre a morte. A palavra "morrer" é usada em seu sentido denotativo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia."

Aqui há uma metáfora: "flechada no peito" e "ranger nos ossos" são imagens para descrever dores físicas. O autor não suaviza a dor — ele a expressa de forma vívida e imagética. A metáfora cria uma imagem, mas não tem a função de atenuar um termo tabu. A alternativa confunde metáfora com eufemismo.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre eufemismo e metáfora. A alternativa E é a mais sedutora, pois usa linguagem figurada, mas a função é expressiva, não atenuadora. O eufemismo sempre suaviza um termo que causa desconforto; a metáfora apenas cria uma imagem.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar eufemismo, pergunte: "qual palavra dura ou tabu foi substituída por uma mais suave?". Se não houver substituição, não é eufemismo. Na dúvida, compare com o trecho-base: "velhos" → "terceira idade" é a mesma lógica de "morte" → "a indesejável senhora".

Conclusão: a questão testa o reconhecimento do eufemismo como figura de atenuação. A alternativa B é a única que repete o mecanismo do trecho-base: substituir um termo tabu (morte) por uma expressão suave ("a indesejável senhora"). As demais ou usam linguagem literal (A, D), ou empregam outras figuras como hipérbole/ironia (C) e metáfora (E).

Gabarito: letra B

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