Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140637
Banca
FCC
Órgão
ALMS
Ano
2026
Cargo
ALegis ( )

A favor do tédio

 

Alguns livros recentes tratam dos malefícios de nossa constante vontade de encontrar diversões. Como sugere o título de um deles (O vício da distração), de Alex Pange, a vontade de se distrair seria uma forma de dependência. Também já li artigos de revista sobre “os surpreendentes benefícios do tédio”.

 

Os livros não me pareceram imperdíveis. E os artigos nas revistas de grande circulação citam pesquisas por ouvir dizer. Mas tanto faz. O conjunto manifesta um novo clima segundo o qual a necessidade de sermos entretidos e estimulados continuamente não tornaria nossa vida mais rica e variada; ao contrário, é possível que essa disparidade empobreça nossa experiência.

 

Já foi dito por evolucionistas que a sorte de nossa espécie foi sua fraqueza: enquanto passávamos horas a fio escondidos e calados nos arbustos, esperando as feras passarem, a imobilidade e o tédio forçados produziriam o surgimento da consciência, do pensamento e da fantasia. Que tal aplicar essa hipótese no campo da educação? O que é mais “educativo” para as crianças? A diversão? Ou a chance de se entediar?

 

Umberto Eco atribui ao filósofo Benedetto Croce uma frase que ele cita com frequência: “O primeiro dever dos jovens é o de se tornar velhos”. Esse slogan não tem como ser muito popular numa época em que o primeiro dever dos velhos é o de parecerem jovens. De fato, em nossa época os adultos não ajudam os jovens a envelhecer; eles preferem mantê-los na mesma criancice que eles desejam para si.

 

Certo, é preciso estimular as crianças para que elas se desenvolvam na interação com o mundo. Mas o problema é que, sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar para si uma vida interior. E para que serve uma vida interior? Se forem pensamentos aos quais recorremos quando não temos nada para fazer, não é mais simples a gente se manter ocupado e não precisar da tal vida interior?

 

O problema é que há uma boa parte da vida exterior que, sem vida interior, é totalmente insossa. Se não acredita, tente se envolver com as artes, com as amizades ou com o sentimento amoroso levando apenas o ser que você tenha esvaziado. Mesmo entre outras espécies, há lições a observar. Os gatos, por exemplo, são ótimos administradores de seu tédio. Eles sabem se divertir muito bem, quando a ocasião se apresenta, mas também sabem não fazer nada com muita categoria. Nisso, eles batem os cachorros, que sempre parecem aliviados quando finalmente têm algo para fazer.

 

(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Aproveitar a vida e suas dores.

São Paulo: Planeta, 2025. p. 159-162)

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.

   

O título do texto – A favor do tédio – expressa a singular posição do autor, quando ele considera

  1. Aa vontade de se distrair como uma aspiração desejável e legítima dos jovens.
  2. Ba busca obstinada de entretenimento como um empobrecimento de nossas vivências.
  3. Ca diversão sistemática como uma pedagogia positiva a ser aplicada às crianças.
  4. Do envelhecimento uma das inclinações naturais a ser interiorizada pelos adultos.
  5. Eo lazer programado como uma bem-sucedida experiência de amadurecimento.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — a busca obstinada de entretenimento como um empobrecimento de nossas vivências.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A tese de "A favor do tédio"

Gabarito: letra B. O título do texto expressa a posição do autor de que a busca obstinada de entretenimento empobrece nossas vivências — ideia que está literalmente no 2º parágrafo, quando ele afirma que a necessidade de sermos entretidos e estimulados continuamente "não tornaria nossa vida mais rica e variada; ao contrário, é possível que essa disparidade empobreça nossa experiência". A alternativa B é a única que parafraseia fielmente essa tese, sem acrescentar nada de fora.

O comando pede compreensão ("quando ele considera"), ou seja, a resposta deve estar explícita no texto, não ser uma dedução pessoal. Isso muda a estratégia: em vez de inferir, você deve localizar a passagem que resume a posição do autor e comparar cada alternativa com ela, palavra por palavra.

O texto é um artigo de opinião (dissertativo-argumentativo). A tese aparece logo no 2º parágrafo, depois de o autor comentar os livros e artigos sobre o tédio. Ele não concorda plenamente com eles ("Os livros não me pareceram imperdíveis"), mas aproveita o "novo clima" para defender sua própria visão: a necessidade constante de estímulo empobrece a experiência. Nos parágrafos seguintes, ele desenvolve essa ideia com exemplos (a vida interior, os gatos) e uma crítica à época que prefere a criancice ao amadurecimento.

A técnica central aqui é a paráfrase fiel: a alternativa correta reescreve com outras palavras exatamente o que o texto diz, sem mudar o sentido. As distratoras, em geral, extrapolam — pegam um elemento do texto (jovens, crianças, adultos, lazer) e o desenvolvem numa direção que o autor não defende. Para cada alternativa, pergunte: "o texto autoriza isto, ou exige que eu acrescente algo de fora?"

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora extrapolar com um fato plausível. A alternativa A, por exemplo, fala de "aspiração desejável e legítima dos jovens" — o texto até menciona jovens, mas o autor critica a vontade de se distrair, não a considera desejável. A pegadinha está em confundir o que o texto menciona com o que o autor defende.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o autor considera a vontade de se distrair uma "aspiração desejável e legítima dos jovens". Isso contradiz a tese central. O autor afirma o oposto: a necessidade de entretenimento contínuo "empobreça nossa experiência". Além disso, o texto critica os adultos que "preferem mantê-los [os jovens] na mesma criancice" — ou seja, a vontade de se distrair é vista como algo negativo, não desejável. Erro: contradiz o texto.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa parafraseia com precisão a tese do 2º parágrafo:

"a necessidade de sermos entretidos e estimulados continuamente não tornaria nossa vida mais rica e variada; ao contrário, é possível que essa disparidade empobreça nossa experiência"

"Busca obstinada de entretenimento" = "necessidade de sermos entretidos e estimulados continuamente"; "empobrecimento de nossas vivências" = "empobreça nossa experiência". É uma reescritura fiel, sem acréscimos. Correta.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor vê a "diversão sistemática" como uma "pedagogia positiva" para crianças. O texto, ao contrário, questiona isso: "O que é mais 'educativo' para as crianças? A diversão? Ou a chance de se entediar?" — a pergunta retórica sugere que o tédio pode ser mais educativo que a diversão. Não há defesa da diversão como pedagogia. Erro: contradiz o texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa fala do envelhecimento como "inclinação natural a ser interiorizada pelos adultos". O texto menciona a frase de Croce sobre os jovens deverem se tornar velhos, mas a discussão é sobre a época que prefere a criancice, não sobre uma "inclinação natural" dos adultos. O autor critica os adultos que "preferem mantê-los na mesma criancice", mas não defende que o envelhecimento seja uma inclinação a ser interiorizada. Erro: extrapolação — o texto não trata disso.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o autor vê o "lazer programado" como uma "bem-sucedida experiência de amadurecimento". O texto não fala de "lazer programado" nem o associa a amadurecimento. Pelo contrário, o autor valoriza o tédio como caminho para a vida interior, e critica a busca constante de estímulos. Erro: fuga ao tema — o texto não aborda lazer programado.

Conclusão: a questão testa se você consegue identificar a tese do autor e reconhecer a paráfrase fiel. A letra B é a única que reproduz exatamente o que o texto afirma, sem extrapolar, contradizer ou fugir do tema. As demais ou invertem o sentido (A, C) ou introduzem ideias que não estão no texto (D, E).

PEGA ESSA DICA!

Em questões de "título" ou "ideia principal", procure a tese no início ou na conclusão do texto. Aqui, ela está no 2º parágrafo, marcada pelo conectivo "ao contrário", que sinaliza a oposição central: entretenimento × empobrecimento.

Gabarito: letra B

Link permanente: /questoes/fc140637