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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140638
Banca
FCC
Órgão
ALMS
Ano
2026
Cargo
ALegis ( )

A favor do tédio

 

Alguns livros recentes tratam dos malefícios de nossa constante vontade de encontrar diversões. Como sugere o título de um deles (O vício da distração), de Alex Pange, a vontade de se distrair seria uma forma de dependência. Também já li artigos de revista sobre “os surpreendentes benefícios do tédio”.

 

Os livros não me pareceram imperdíveis. E os artigos nas revistas de grande circulação citam pesquisas por ouvir dizer. Mas tanto faz. O conjunto manifesta um novo clima segundo o qual a necessidade de sermos entretidos e estimulados continuamente não tornaria nossa vida mais rica e variada; ao contrário, é possível que essa disparidade empobreça nossa experiência.

 

Já foi dito por evolucionistas que a sorte de nossa espécie foi sua fraqueza: enquanto passávamos horas a fio escondidos e calados nos arbustos, esperando as feras passarem, a imobilidade e o tédio forçados produziriam o surgimento da consciência, do pensamento e da fantasia. Que tal aplicar essa hipótese no campo da educação? O que é mais “educativo” para as crianças? A diversão? Ou a chance de se entediar?

 

Umberto Eco atribui ao filósofo Benedetto Croce uma frase que ele cita com frequência: “O primeiro dever dos jovens é o de se tornar velhos”. Esse slogan não tem como ser muito popular numa época em que o primeiro dever dos velhos é o de parecerem jovens. De fato, em nossa época os adultos não ajudam os jovens a envelhecer; eles preferem mantê-los na mesma criancice que eles desejam para si.

 

Certo, é preciso estimular as crianças para que elas se desenvolvam na interação com o mundo. Mas o problema é que, sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar para si uma vida interior. E para que serve uma vida interior? Se forem pensamentos aos quais recorremos quando não temos nada para fazer, não é mais simples a gente se manter ocupado e não precisar da tal vida interior?

 

O problema é que há uma boa parte da vida exterior que, sem vida interior, é totalmente insossa. Se não acredita, tente se envolver com as artes, com as amizades ou com o sentimento amoroso levando apenas o ser que você tenha esvaziado. Mesmo entre outras espécies, há lições a observar. Os gatos, por exemplo, são ótimos administradores de seu tédio. Eles sabem se divertir muito bem, quando a ocasião se apresenta, mas também sabem não fazer nada com muita categoria. Nisso, eles batem os cachorros, que sempre parecem aliviados quando finalmente têm algo para fazer.

 

(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Aproveitar a vida e suas dores.

São Paulo: Planeta, 2025. p. 159-162)

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.

   

Ao admitir que é preciso estimular as crianças para que elas se desenvolvam na interação com o mundo, o autor reconhece como um expediente para esse desenvolvimento

  1. Ao combate persistente às experiências tediosas e maçantes.
  2. Ba crítica rigorosa contra os excessos da interiorização.
  3. Ca ocupação permanente do pensamento em coisas objetivas.
  4. Do aproveitamento do enfado como um fermento da vida interior.
  5. Eo favorecimento das experiências aventurosas e originais.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — o aproveitamento do enfado como um fermento da vida interior.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O tédio como fermento da vida interior

Gabarito: letra D. O autor reconhece o tédio como um expediente para o desenvolvimento das crianças porque, como se lê no 5º parágrafo, "sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar para si uma vida interior". A alternativa D é a única que captura essa relação: o enfado (tédio) é o fermento (aquilo que faz crescer) da vida interior.

O comando da questão

O enunciado pede uma compreensão do texto: "Ao admitir que é preciso estimular as crianças para que elas se desenvolvam na interação com o mundo, o autor reconhece como um expediente para esse desenvolvimento". A tarefa é identificar o que o autor considera um meio (expediente) para o desenvolvimento infantil. Não se trata de inferir algo além do texto, mas de localizar a ideia que o autor defende e reconhecer a paráfrase correta.

O texto e o movimento argumentativo

O texto "A favor do tédio" defende a tese de que o tédio é benéfico e necessário. No 5º parágrafo, o autor faz uma concessão — "Certo, é preciso estimular as crianças para que elas se desenvolvam na interação com o mundo" — e, em seguida, apresenta sua ressalva com o conectivo "Mas":

"Mas o problema é que, sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar para si uma vida interior."

A palavra "Mas" é decisiva: ela marca a oposição entre a necessidade de estímulo e a necessidade do tédio. O autor não nega o estímulo, mas afirma que ele não basta — é o tédio que permite a invenção da vida interior. A alternativa D parafraseia exatamente essa ideia: "o aproveitamento do enfado como um fermento da vida interior". "Enfado" é sinônimo de tédio; "fermento" é aquilo que faz crescer, que possibilita o desenvolvimento.

A técnica que decide

A questão testa a capacidade de reconhecer a paráfrase correta de uma ideia central. A alternativa correta não acrescenta nada ao texto — ela reescreve com outras palavras o que está dito. As alternativas erradas, por sua vez, cometem erros típicos de interpretação:

  • Extrapolação: atribuem ao texto ideias que ele não contém.

  • Contradição: invertem a posição do autor.

  • Fuga ao tema: abordam assuntos que o texto não trata.

  1. 1Localizar a tese do autor
  2. 2Identificar o conectivo 'Mas'
  3. 3Reconhecer a paráfrase fiel
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"o combate persistente às experiências tediosas e maçantes"

Esta alternativa contradiz o texto. O autor não defende o combate ao tédio; pelo contrário, ele o valoriza. No 5º parágrafo, afirma que "sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar para si uma vida interior". O tédio é apresentado como necessário, não como algo a ser combatido. A alternativa inverte a tese do autor.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"a crítica rigorosa contra os excessos da interiorização"

Esta alternativa extrapola o texto. Em nenhum momento o autor faz uma crítica à interiorização. Pelo contrário, ele defende a vida interior como algo essencial: "sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar para si uma vida interior". A ideia de "crítica rigorosa" é uma invenção que não encontra respaldo no texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"a ocupação permanente do pensamento em coisas objetivas"

Esta alternativa contradiz a tese central do texto. O autor critica justamente a necessidade de "sermos entretidos e estimulados continuamente" (2º parágrafo) e defende o valor do tédio, que é o oposto da ocupação permanente. A ideia de "ocupação permanente do pensamento" é o que o autor questiona, não o que ele defende como expediente para o desenvolvimento.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"o aproveitamento do enfado como um fermento da vida interior"

Esta alternativa é a paráfrase fiel da tese do autor. No 5º parágrafo, lê-se:

"Mas o problema é que, sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar para si uma vida interior."

"Enfado" é sinônimo de tédio; "fermento" é aquilo que faz crescer, que possibilita o desenvolvimento. A alternativa captura exatamente a relação que o autor estabelece: o tédio é o meio (expediente) para a invenção da vida interior.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"o favorecimento das experiências aventurosas e originais"

Esta alternativa tangencia o tema. O texto não defende experiências aventurosas e originais como expediente para o desenvolvimento. O autor reconhece que "é preciso estimular as crianças" (5º parágrafo), mas sua ênfase está no tédio, não na aventura. A alternativa fala de algo que o texto não aborda como solução.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a contradição e a extrapolação. As alternativas A e C invertem a tese do autor (que defende o tédio, não o combate a ele nem a ocupação permanente). A alternativa E foge ao tema, falando de aventura quando o texto fala de tédio. A correta é a única que parafraseia fielmente a ideia central.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de compreensão, grife a tese do autor (geralmente na introdução ou conclusão) e o conectivo que marca a virada argumentativa (como o "Mas" no 5º parágrafo). A alternativa correta será uma paráfrase dessa tese, sem acréscimos ou inversões.

Gabarito: letra D.

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