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Questão de Português — Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto. — FCC 2026

PortuguêsReescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
Código
fc140641
Banca
FCC
Órgão
ALMS
Ano
2026
Cargo
ALegis ( )

A favor do tédio

 

Alguns livros recentes tratam dos malefícios de nossa constante vontade de encontrar diversões. Como sugere o título de um deles (O vício da distração), de Alex Pange, a vontade de se distrair seria uma forma de dependência. Também já li artigos de revista sobre “os surpreendentes benefícios do tédio”.(a)

 

Os livros não me pareceram imperdíveis. E os artigos nas revistas de grande circulação citam pesquisas por ouvir dizer.(b) Mas tanto faz. O conjunto manifesta um novo clima segundo o qual a necessidade de sermos entretidos e estimulados continuamente não tornaria nossa vida mais rica e variada; ao contrário, é possível que essa disparidade empobreça nossa experiência.

 

Já foi dito por evolucionistas que a sorte de nossa espécie foi sua fraqueza: enquanto passávamos horas a fio escondidos e calados nos arbustos, esperando as feras passarem, a imobilidade e o tédio forçados produziriam o surgimento da consciência, do pensamento e da fantasia. Que tal aplicar essa hipótese no campo da educação?(c) O que é mais “educativo” para as crianças? A diversão? Ou a chance de se entediar?

 

Umberto Eco atribui ao filósofo Benedetto Croce uma frase que ele cita com frequência: “O primeiro dever dos jovens é o de se tornar velhos”. Esse slogan não tem como ser muito popular numa época em que o primeiro dever dos velhos é o de parecerem jovens. De fato, em nossa época os adultos não ajudam os jovens a envelhecer; eles preferem mantê-los na mesma criancice que eles desejam para si.

 

Certo, é preciso estimular as crianças para que elas se desenvolvam na interação com o mundo. Mas o problema é que, sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar para si uma vida interior. E para que serve uma vida interior? Se forem pensamentos aos quais recorremos quando não temos nada para fazer, não é mais simples a gente se manter ocupado e não precisar da tal vida interior?

 

O problema é que há uma boa parte da vida exterior que, sem vida interior, é totalmente insossa. Se não acredita, tente se envolver com as artes, com as amizades ou com o sentimento amoroso levando apenas o ser que você tenha esvaziado.(d) Mesmo entre outras espécies, há lições a observar.(e) Os gatos, por exemplo, são ótimos administradores de seu tédio. Eles sabem se divertir muito bem, quando a ocasião se apresenta, mas também sabem não fazer nada com muita categoria. Nisso, eles batem os cachorros, que sempre parecem aliviados quando finalmente têm algo para fazer.

 

(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Aproveitar a vida e suas dores.

São Paulo: Planeta, 2025. p. 159-162)

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.     Considerando-se o contexto, traduz-se adequadamente o sentido de um segmento do texto em:
  1. Aos surpreendentes benefícios do tédio = os improcedentes ganhos da rotina.
  2. Bcitam pesquisas por ouvir dizer = glosam estudos de valor irrelevante.
  3. CQue tal aplicar essa hipótese no campo da educação? = É o caso dessa inserção escolástica?
  4. Dlevando apenas o ser que você tenha esvaziado = conduzindo assim seu vazio original.
  5. Ehá lições a observar = há casos instrutivos para se considerar.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — há lições a observar = há casos instrutivos para se considerar.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Reescrita de frases: o sentido que mora no contexto

Gabarito: letra E. A única tradução que preserva integralmente o sentido do segmento original é "há lições a observar = há casos instrutivos para se considerar". As demais alternativas ou extrapolam (acrescentam juízos que o texto não contém), restringem o alcance do original ou trocam o referente de um termo. A passagem que ancora a correta está no 6º parágrafo: "Mesmo entre outras espécies, há lições a observar."

O comando pede uma reescritura sem alteração de sentido — ou seja, uma paráfrase fiel. Isso não é interpretação livre nem tradução palavra por palavra: é encontrar, entre as opções, aquela que diz exatamente o mesmo que o trecho original, no contexto em que ele aparece. A técnica é testar cada alternativa perguntando: "o texto autoriza esta leitura, ou ela exige acrescentar algo de fora?"

O texto defende a tese de que o tédio tem valor — ele permite a construção de uma vida interior, sem a qual a vida exterior é "totalmente insossa". No 6º parágrafo, o autor ilustra essa ideia com os gatos, "ótimos administradores de seu tédio", e afirma que "Mesmo entre outras espécies, há lições a observar." A expressão "lições a observar" significa, no contexto, que há ensinamentos, exemplos instrutivos que merecem consideração. A alternativa E traduz exatamente isso: "casos instrutivos para se considerar".

A armadilha central da questão é a extrapolação com juízo de valor: várias alternativas embutem uma opinião ("improcedentes", "irrelevante", "vazio original") que o autor não externou. O texto fala de "benefícios do tédio" sem qualificá-los como improcedentes; fala de "pesquisas por ouvir dizer" sem dizer que são irrelevantes; fala de "ser esvaziado" sem dizer que é um vazio original. A banca adora esse padrão: trocar um termo neutro por outro carregado de avaliação, fazendo o candidato achar que "soa bem" quando, na verdade, muda o sentido.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com opinião embutida — cada distratora acrescenta um adjetivo avaliativo ("improcedentes", "irrelevante", "escolástica", "vazio original") que não está no texto. A correta é a única que não acrescenta juízo de valor.

Segmento original

Tradução adequada

Análise

os surpreendentes benefícios do tédio

os improcedentes ganhos da rotina

❌ Extrapola com juízo de valor ("improcedentes") e troca "tédio" por "rotina"

citam pesquisas por ouvir dizer

glosam estudos de valor irrelevante

❌ Inventa adjetivo ("irrelevante") e troca o verbo ("glosar" ≠ "citar")

Que tal aplicar essa hipótese no campo da educação?

É o caso dessa inserção escolástica?

❌ Restringe o sentido ("escolástica") e transforma sugestão em indagação técnica

levando apenas o ser que você tenha esvaziado

conduzindo assim seu vazio original

❌ Troca o referente ("ser" → "vazio") e acrescenta "original"

há lições a observar

há casos instrutivos para se considerar

✅ Paráfrase fiel, sem acréscimo de opinião ou troca de sentido

Alternativa A — ❌ Incorreta

"os surpreendentes benefícios do tédio = os improcedentes ganhos da rotina"

O texto diz, no 1º parágrafo, que leu artigos sobre "os surpreendentes benefícios do tédio". A tradução troca "tédio" por "rotina" e "benefícios" por "ganhos", mas o erro fatal é o adjetivo "improcedentes" — que significa "sem fundamento, infundados". O autor não diz que os benefícios são improcedentes; ele apenas os chama de "surpreendentes". A alternativa acrescenta uma opinião negativa que o texto não sustenta. Erro: extrapolação com opinião embutida.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"citam pesquisas por ouvir dizer = glosam estudos de valor irrelevante"

No 2º parágrafo, o autor diz que "os artigos nas revistas de grande circulação citam pesquisas por ouvir dizer". A expressão "por ouvir dizer" significa que as pesquisas são citadas de segunda mão, sem verificação direta. A tradução "glosam estudos de valor irrelevante" inventa o adjetivo "irrelevante" — o texto não diz que os estudos não têm valor, apenas que foram citados indiretamente. Além disso, "glosar" (comentar, anotar) não é o mesmo que "citar". Erro: extrapolação com opinião embutida e troca de verbo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Que tal aplicar essa hipótese no campo da educação? = É o caso dessa inserção escolástica?"

No 3º parágrafo, o autor pergunta: "Que tal aplicar essa hipótese no campo da educação?" A pergunta é uma sugestão — "que tal?" convida a considerar a ideia. A tradução "É o caso dessa inserção escolástica?" restringe o sentido: "escolástica" refere-se ao ensino medieval ou a algo dogmático, o que não está no texto. Além disso, "inserção" não é o mesmo que "aplicar uma hipótese". A alternativa troca o sentido da pergunta, transformando uma sugestão aberta em uma indagação sobre um termo técnico. Erro: troca de conceito e restrição indevida.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"levando apenas o ser que você tenha esvaziado = conduzindo assim seu vazio original"

No 5º parágrafo, o autor diz: "tente se envolver com as artes, com as amizades ou com o sentimento amoroso levando apenas o ser que você tenha esvaziado." O sentido é: leve apenas o seu eu esvaziado (sem vida interior). A tradução "conduzindo assim seu vazio original" troca o referente: o original fala de um "ser" (pessoa) que foi esvaziado; a tradução fala de um "vazio" que é "original" — conceito que o texto não menciona. Erro: troca de referente e extrapolação.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Mesmo entre outras espécies, há lições a observar."

A expressão "lições a observar" significa, no contexto, que há ensinamentos, exemplos instrutivos que merecem ser considerados. A tradução "há casos instrutivos para se considerar" preserva exatamente esse sentido: "lições" = "casos instrutivos"; "a observar" = "para se considerar". Não há acréscimo de opinião, nem restrição, nem troca de referente. É uma paráfrase fiel.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de reescrita, desconfie de adjetivos avaliativos ("improcedente", "irrelevante", "original") que não aparecem no original. A paráfrase correta nunca acrescenta juízo de valor — ela apenas reorganiza as palavras mantendo o mesmo sentido.

Gabarito: letra E. A regra de ouro: a reescrita correta é a que não acrescenta, não suprime e não inverte nada — apenas diz o mesmo com outras palavras. Teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza este adjetivo? este verbo? este referente?" Se a resposta for não, a alternativa está errada.

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