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Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — FCC 2026

PortuguêsTipologia e Gênero Textual
Código
fc140653
Banca
FCC
Órgão
ALMS
Ano
2026
Cargo
TLegis ( )

Quando a senhora foi descer do lotação, o motorista coçou a cabeça: – Mil cruzeiros! Como é que a senhora quer que eu troque mil cruzeiros?

 

– Desculpe, me esqueci completamente de trazer trocado.

 

– Não posso não, a madame não leu o aviso – olha ele ali – que o troco máximo é de 200 cruzeiros?

 

– Eu sei, mas que é que hei de fazer agora? O senhor nunca esqueceu nada na vida?

 

– Quem sabe se procurando de novo na bolsa...

 

Ela vasculhava, remexia, nada. Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação, oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem.(b) Àquela hora não havia cavalheiros, pelo menos na lotação.

 

– Então o senhor me dá licença de saltar e ficar devendo.

 

– Pera aí. Vou ver se posso trocar.

 

Podia. Tirou do bolso de trás um bolo respeitável, foi botando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente.(a)

 

– Tá aqui o seu troco. De outra vez a madame já sabe, hem?

 

Ela desceu, o carro já havia começado a chispar, como é destino dos lotações, quando de repente o motorista freou e botou as mãos à cabeça: – Os senhores acreditam que em vez de guardar a nota de mil, eu de burro, devolvi com o troco?

 

Botou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, que atravessava a rua, lá atrás: – Dona! Ó dona! A nota de mil cruzeiros!(c)

 

Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.(d)

 

– Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?

 

Encostou o veículo e, num gesto solene: – Vou buscar meu cabral. A partir deste momento, confio este carro, com todos os seus pertences, à distinção dos senhores passageiros.

 

– Deixa que eu vou! – disse um deles, garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista.

 

Via-se o garoto correndo para alcançar a senhora, tocando-a pelo braço, os dois confabulando. Ela abria de novo a bolsa, tirava objetos, o pequeno ajudava. Os passageiros já se mostravam impacientes com a demora da expedição. O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros? O Serviço de Trânsito? Voltou o garoto, sem a nota. A senhora tinha apenas 987 cruzeiros, ele vira e jurava por ela.

 

– Tão vendo? Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer. – disse em tom frio, sem revolta, como simples remate. E tocou.

 

Perto do colégio, o garoto desceu, repetindo, encabulado: – Pode acreditar, ela não tinha mesmo o dinheiro não.

 

O motorista respondeu-lhe baixinho: – Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos. Mas se eu disser isso, esse povo me mata.(e)

 

(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. et al. Para gostar de ler, v.2.

São Paulo: Ática, 1966, p. 43-45)

Atenção: Considere a crônica de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.

   

O cronista manifesta-se explicitamente em seu próprio texto no seguinte trecho:

  1. ATirou do bolso de trás um bolo respeitável, foi botando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente.
  2. BNenhum cavalheiro (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação, oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem.
  3. CBotou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, que atravessava a rua, lá atrás: – Dona! Ó dona! A nota de mil cruzeiros!
  4. DOs passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.
  5. EO motorista respondeu-lhe baixinho: – Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos. Mas se eu disser isso, esse povo me mata.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação, oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A voz do cronista: quando o narrador se revela no texto

Gabarito: letra B. O cronista manifesta-se explicitamente no trecho em que o narrador interrompe a narrativa para fazer um comentário pessoal: "Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação, oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem." A marca dessa manifestação é o parêntese "como se dizia no tempo do meu pai", que revela a memória e a opinião do narrador, algo que não ocorre nas demais alternativas, todas compostas por falas de personagens ou descrições impessoais.

A questão pede que você identifique o trecho em que o cronista (o narrador) aparece de forma explícita, ou seja, quando ele deixa de apenas narrar os fatos e passa a comentar, opinar ou se dirigir ao leitor. Em uma crônica, o narrador muitas vezes se coloca como personagem ou como observador que tece comentários. A alternativa correta é a única que contém uma intervenção direta do narrador, marcada pelo uso da primeira pessoa e por um comentário entre parênteses.

No texto, o narrador conta a história do motorista e da senhora, mas em determinado momento ele insere uma observação pessoal: "Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação". O parêntese é a chave: ele quebra a narração para acrescentar uma informação que só o narrador poderia dar, revelando sua perspectiva e até sua ironia. As outras alternativas são falas de personagens (discurso direto) ou descrições impessoais, sem qualquer marca de subjetividade do cronista.

Para resolver questões como esta, o método é: procure a marca de primeira pessoa ou um comentário que não pertence à ação narrada. O narrador pode aparecer de três formas: como personagem (1ª pessoa), como observador que comenta (3ª pessoa com opinião) ou como voz oculta (3ª pessoa impessoal). Aqui, o narrador é um observador que, no meio da narração, faz um comentário nostálgico e irônico — "como se dizia no tempo do meu pai" —, o que o torna explícito.

NÃO CAIA NESSA!

A banca coloca falas de personagens (discurso direto) como se fossem manifestação do cronista. A diferença: fala de personagem é marcada por travessão ou aspas e pertence à personagem; comentário do narrador é uma intromissão do autor na história, geralmente com 1ª pessoa ou parêntese.

PEGA ESSA DICA!

Grife o comando: "manifesta-se explicitamente" pede uma marca textual clara de subjetividade, não uma inferência. Se houver parêntese, travessão ou 1ª pessoa, desconfie — é aí que o narrador se revela.

Manifestação explícita do cronista
  • 1Marca textual de subjetividade
    • 1ª pessoa
    • Parêntese com comentário pessoal
    • Ironia/opinião do narrador
  • 2Formas de presença do narrador
    • Personagem (1ª pessoa)
    • Observador que comenta (3ª pessoa com opinião)
    • Voz oculta (3ª pessoa impessoal)
  • 3O que NÃO é manifestação do cronista
    • Fala de personagem (discurso direto com travessão)
    • Descrição impessoal
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Tirou do bolso de trás um bolo respeitável, foi botando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente."

Este trecho é uma descrição impessoal da ação do motorista. Não há nenhuma marca de opinião ou comentário do narrador; é apenas a narração objetiva de um gesto. O erro é tangenciar: fala de algo que acontece na história, mas não contém a voz do cronista.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação, oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem."

Aqui o narrador se manifesta explicitamente: o parêntese "como se dizia no tempo do meu pai" é um comentário pessoal, que revela memória e opinião. Além disso, a expressão "nenhum cavalheiro" carrega uma avaliação irônica do narrador sobre a falta de cavalheirismo dos passageiros. É a única alternativa com subjetividade explícita.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Botou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, que atravessava a rua, lá atrás: – Dona! Ó dona! A nota de mil cruzeiros!"

Este é um trecho de discurso direto do motorista, marcado pelo travessão. A fala pertence à personagem, não ao cronista. O erro é troca de conceito: confundir fala de personagem com manifestação do narrador.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora."

Embora haja um leve tom de avaliação em "não pareciam interessados", o trecho é uma observação do narrador sobre as personagens, mas sem marca explícita de 1ª pessoa ou comentário pessoal direto. É uma narração com pitada de análise, mas não chega a ser uma manifestação explícita do cronista como a da letra B. O erro é incompletude: falta a marca clara de subjetividade.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"O motorista respondeu-lhe baixinho: – Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos. Mas se eu disser isso, esse povo me mata."

Novamente, é discurso direto do motorista, com travessão e verbo de elocução ("respondeu"). A fala é da personagem, não do cronista. O erro é troca de conceito: a voz é do motorista, não do narrador.

Conclusão: a única alternativa em que o cronista se manifesta explicitamente é a letra B, pois contém um comentário pessoal entre parênteses, marca típica de subjetividade do narrador. As demais ou são falas de personagens ou descrições impessoais.

Gabarito: letra B

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