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Questão de Português — Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre) — FCC 2026

PortuguêsTipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
Código
fc140655
Banca
FCC
Órgão
ALMS
Ano
2026
Cargo
TLegis ( )

Quando a senhora foi descer do lotação, o motorista coçou a cabeça: – Mil cruzeiros! Como é que a senhora quer que eu troque mil cruzeiros?

 

– Desculpe, me esqueci completamente de trazer trocado.

 

– Não posso não, a madame não leu o aviso – olha ele ali – que o troco máximo é de 200 cruzeiros?(b)

 

– Eu sei, mas que é que hei de fazer agora? O senhor nunca esqueceu nada na vida?

 

– Quem sabe se procurando de novo na bolsa...

 

Ela vasculhava, remexia, nada. Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação, oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem. Àquela hora não havia cavalheiros, pelo menos na lotação.

 

– Então o senhor me dá licença de saltar e ficar devendo.

 

– Pera aí. Vou ver se posso trocar.

 

Podia. Tirou do bolso de trás um bolo respeitável, foi botando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente.

 

– Tá aqui o seu troco. De outra vez a madame já sabe, hem?

 

Ela desceu, o carro já havia começado a chispar, como é destino dos lotações, quando de repente o motorista freou e botou as mãos à cabeça: – Os senhores acreditam que em vez de guardar a nota de mil, eu de burro, devolvi com o troco?

 

Botou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, que atravessava a rua, lá atrás: – Dona! Ó dona! A nota de mil cruzeiros!

 

Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.(c)

 

– Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?(d)

 

Encostou o veículo e, num gesto solene: – Vou buscar meu cabral. A partir deste momento, confio este carro, com todos os seus pertences, à distinção dos senhores passageiros.

 

– Deixa que eu vou! – disse um deles, garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista.(e)

 

Via-se o garoto correndo para alcançar a senhora, tocando-a pelo braço, os dois confabulando. Ela abria de novo a bolsa, tirava objetos, o pequeno ajudava. Os passageiros já se mostravam impacientes com a demora da expedição. O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros?(a) O Serviço de Trânsito? Voltou o garoto, sem a nota. A senhora tinha apenas 987 cruzeiros, ele vira e jurava por ela.

 

– Tão vendo? Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer. – disse em tom frio, sem revolta, como simples remate. E tocou.

 

Perto do colégio, o garoto desceu, repetindo, encabulado: – Pode acreditar, ela não tinha mesmo o dinheiro não.

 

O motorista respondeu-lhe baixinho: – Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos. Mas se eu disser isso, esse povo me mata.

 

(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. et al. Para gostar de ler, v.2.

São Paulo: Ática, 1966, p. 43-45)

Atenção: Considere a crônica de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.

   

A voz do personagem mescla-se à voz do cronista, configurando o chamado discurso indireto livre, em:

  1. AO guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros?
  2. B— Não posso não, a madame não leu o aviso — olha ele ali — que o troco máximo é de 200 cruzeiros?
  3. COs passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.
  4. D— Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?
  5. E— Deixa que eu vou! — disse um deles, garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista.
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GabaritoA — O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros?

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Discurso indireto livre: quando a voz da personagem se funde à do narrador

Gabarito: letra A. O trecho "O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros?" é o único em que a fala do motorista surge sem travessão, sem verbo de elocução e sem conjunção, inserida diretamente na narração em 3ª pessoa — exatamente a definição de discurso indireto livre. A pergunta "quem é que me paga meus mil cruzeiros?" é o pensamento/fala do motorista, mas aparece colada ao relato do narrador, sem qualquer marca que a separe.

O comando pede que você identifique o discurso indireto livre, ou seja, a passagem em que a voz do personagem se mescla à voz do cronista. Isso não é uma questão de compreensão literal, mas de reconhecimento de um recurso estilístico: você precisa saber a definição do conceito e aplicá-la ao texto. A banca não quer que você interprete o sentido, mas que classifique o tipo de discurso presente em cada alternativa.

Na crônica de Drummond, o narrador conta a história em 3ª pessoa, mas, em alguns momentos, deixa escapar a fala ou o pensamento do motorista sem avisar. É isso que caracteriza o discurso indireto livre: a fala da personagem (em 1ª pessoa, com pronomes como "me") aparece dentro do discurso do narrador, sem travessão, sem aspas, sem verbo dicendi (como "disse", "perguntou") e sem conjunção integrante (como "que"). O leitor percebe que aquilo é a voz da personagem pelo conteúdo e pela mudança de pessoa, mas não há marca gráfica separando as vozes.

A técnica para resolver é simples: procure a alternativa em que a fala da personagem não está entre travessões nem introduzida por verbo de elocução. Nas alternativas B, D e E, há travessão indicando discurso direto. Na C, o trecho é puramente narrativo, sem fala de personagem. Só a A mistura a narração com a pergunta do motorista, sem nenhuma marca de separação.

Discurso indireto livre
  • 1Voz do personagem fundida à do narrador
  • 2Sem travessão
  • 3Sem verbo de elocução
  • 4Sem conjunção integrante
  • 5Pronomes em 1ª pessoa (me, meu)
  • 6Discurso direto
    • Travessão
    • Verbo de elocução (disse, perguntou)
    • Fala transcrita literalmente
  • 7Discurso indireto
    • Verbo de elocução + conjunção (que)
    • Fala adaptada à 3ª pessoa
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros?"

Aqui, o narrador relata o fato ("O guarda veio estranhar...") e, em seguida, sem nenhuma marca, insere a fala do motorista: "quem é que me paga meus mil cruzeiros?". O pronome "me" e a pergunta em 1ª pessoa revelam que é a voz do motorista, mas ela está fundida à narração, sem travessão, sem verbo dicendi, sem conjunção. É o caso clássico de discurso indireto livre.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"— Não posso não, a madame não leu o aviso — olha ele ali — que o troco máximo é de 200 cruzeiros?"

A presença do travessão e do verbo de elocução implícito ("olha ele ali") marca o discurso direto: a fala do motorista é transcrita literalmente, com separação clara da voz do narrador. Não há mescla de vozes.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora."

Este trecho é puramente narrativo: o narrador descreve a reação dos passageiros, sem reproduzir a fala de nenhum personagem. Não há discurso indireto livre, pois não há voz de personagem inserida na narração.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"— Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?"

Novamente, o travessão indica discurso direto: a fala do motorista é transcrita com separação explícita da narração. Não há fusão de vozes.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"— Deixa que eu vou! — disse um deles, garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista."

Aqui, além do travessão, há o verbo de elocução "disse", marcando claramente o discurso direto. A segunda parte ("E precipitou-se...") é narração, mas a fala está isolada.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura falas em discurso direto (com travessão) e trechos narrativos, exigindo que você identifique a única passagem em que a fala da personagem se funde à narração sem marcas. A pegadinha está em não confundir discurso direto (com travessão) com indireto livre (sem marca).

PEGA ESSA DICA!

Para identificar o discurso indireto livre, procure por pronomes em 1ª pessoa (eu, me, meu) dentro de um trecho narrado em 3ª pessoa, sem travessão, sem aspas e sem verbo dicendi. Se houver travessão, é discurso direto.

Gabarito: letra A — a única alternativa em que a voz do personagem se mescla à do narrador, configurando o discurso indireto livre.

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