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Questão de Português — Figuras de Linguagem — FCC 2026

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
fc140659
Banca
FCC
Órgão
ALMS
Ano
2026
Cargo
TLegis ( )

Quando a senhora foi descer do lotação, o motorista coçou a cabeça: – Mil cruzeiros! Como é que a senhora quer que eu troque mil cruzeiros?

 

– Desculpe, me esqueci completamente de trazer trocado.

 

– Não posso não, a madame não leu o aviso – olha ele ali – que o troco máximo é de 200 cruzeiros?

 

– Eu sei, mas que é que hei de fazer agora? O senhor nunca esqueceu nada na vida?

 

– Quem sabe se procurando de novo na bolsa...

 

Ela vasculhava, remexia, nada. Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação, oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem. Àquela hora não havia cavalheiros, pelo menos na lotação.

 

– Então o senhor me dá licença de saltar e ficar devendo.

 

– Pera aí. Vou ver se posso trocar.

 

Podia. Tirou do bolso de trás um bolo respeitável, foi botando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente.

 

– Tá aqui o seu troco. De outra vez a madame já sabe, hem?

 

Ela desceu, o carro já havia começado a chispar, como é destino dos lotações, quando de repente o motorista freou e botou as mãos à cabeça: – Os senhores acreditam que em vez de guardar a nota de mil, eu de burro, devolvi com o troco?

 

Botou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, que atravessava a rua, lá atrás: – Dona! Ó dona! A nota de mil cruzeiros!

 

Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.

 

– Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?

 

Encostou o veículo e, num gesto solene: – Vou buscar meu cabral. A partir deste momento, confio este carro, com todos os seus pertences, à distinção dos senhores passageiros.

 

– Deixa que eu vou! – disse um deles, garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista.

 

Via-se o garoto correndo para alcançar a senhora, tocando-a pelo braço, os dois confabulando. Ela abria de novo a bolsa, tirava objetos, o pequeno ajudava. Os passageiros já se mostravam impacientes com a demora da expedição. O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros? O Serviço de Trânsito? Voltou o garoto, sem a nota. A senhora tinha apenas 987 cruzeiros, ele vira e jurava por ela.

 

– Tão vendo? Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer. – disse em tom frio, sem revolta, como simples remate. E tocou.

 

Perto do colégio, o garoto desceu, repetindo, encabulado: – Pode acreditar, ela não tinha mesmo o dinheiro não.

 

O motorista respondeu-lhe baixinho: – Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos. Mas se eu disser isso, esse povo me mata.

 

(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. et al. Para gostar de ler, v.2.

São Paulo: Ática, 1966, p. 43-45)

Atenção: Considere a crônica de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.

   

Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer.

 

Ao afirmar que o prejuízo tira "a fome" e tira "a vontade de comer", o motorista fez uso de

  1. Auma antítese.
  2. Bum pleonasmo.
  3. Cuma personificação.
  4. Duma sinestesia.
  5. Eum eufemismo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — um pleonasmo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Pleonasmo: a redundância que reforça a ideia

Gabarito: letra B. O motorista usou um pleonasmo ao dizer que o prejuízo tira "a fome" e "a vontade de comer", pois as duas expressões remetem ao mesmo desejo de comer — a segunda apenas repete, com outras palavras, a ideia contida na primeira. Como se lê no trecho: "Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer." A repetição é intencional e enfática, característica típica do pleonasmo como figura de linguagem.

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique a figura de linguagem presente na fala do motorista. Isso é uma questão de conceito — não de interpretação de texto —, pois exige que você reconheça, entre as opções, qual figura corresponde ao recurso expressivo usado. A tarefa é, portanto, classificar o fenômeno linguístico, e não inferir algo sobre a crônica.

O texto e o trecho em análise

Na crônica de Drummond, o motorista perdeu uma nota de mil cruzeiros ao devolver o troco à senhora. Ao comentar o prejuízo, ele diz: "Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer." A expressão "tirar a fome" já significa, por si só, eliminar o desejo de comer. Ao acrescentar "e a vontade de comer", o motorista repete a mesma ideia com palavras diferentes — é exatamente isso que caracteriza o pleonasmo.

A técnica: o que é pleonasmo e como distingui-lo

O pleonasmo é uma figura de linguagem que consiste na repetição de uma ideia por meio de palavras ou expressões diferentes, com o objetivo de reforçar o que se diz. Quando usado intencionalmente, como no texto, tem valor estilístico e expressivo. Exemplos clássicos: "subir para cima", "entrar para dentro", "hemorragia de sangue".

A distinção essencial para a prova:

Figura

Característica

Exemplo

Pleonasmo

Repetição de ideia com palavras diferentes, com valor expressivo

"tirar a fome e a vontade de comer"

Antítese

Oposição de palavras ou ideias

"o amor e o ódio caminham juntos"

Personificação

Atribuir características humanas a seres inanimados

"o relógio cansou de trabalhar"

Sinestesia

Mistura de sensações de sentidos diferentes

"um perfume doce e quente"

Eufemismo

Suavizar uma ideia desagradável

"ele partiu cedo demais" (morreu)

No trecho, não há oposição (antítese), nem atribuição de características humanas (personificação), nem mistura de sentidos (sinestesia), nem suavização de algo desagradável (eufemismo). Há, sim, a repetição enfática de uma mesma ideia: "fome" e "vontade de comer" são, no contexto, a mesma coisa.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

A antítese exige a aproximação de palavras ou expressões de sentidos opostos, como "o amor e o ódio". No trecho, "fome" e "vontade de comer" não se opõem — são sinônimas no contexto. A alternativa confunde o pleonasmo com a antítese, pois ambas trabalham com pares de palavras, mas a antítese exige oposição, e aqui há repetição.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O pleonasmo é a repetição de uma ideia com palavras diferentes para dar ênfase. No trecho, "tirar a fome" e "tirar a vontade de comer" expressam o mesmo desejo de comer; a segunda expressão apenas reforça a primeira. É exatamente o que o motorista faz: repete a ideia para intensificar o tamanho do prejuízo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A personificação (ou prosopopeia) atribui características humanas a seres inanimados, animais ou ideias abstratas. No trecho, não há nenhum ser inanimado ganhando vida ou ação humana. O prejuízo "tira" algo, mas isso é uma metáfora comum, não uma personificação. A alternativa extrapola o sentido do texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A sinestesia mistura sensações de sentidos diferentes (visão, audição, tato, paladar, olfato). No trecho, "fome" e "vontade de comer" pertencem ao mesmo campo semântico — o apetite —, sem qualquer mistura de sentidos. A alternativa tangencia o tema, pois fala de uma figura que não aparece no trecho.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O eufemismo é usado para suavizar uma ideia desagradável, como dizer "perder a vida" em vez de "morrer". No trecho, o motorista não suaviza nada; ele exagera e reforça o prejuízo. A alternativa contradiz o efeito do texto, que é de ênfase, não de atenuação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre pleonasmo e antítese. A antítese exige oposição de ideias; o pleonasmo exige repetição de ideias. No trecho, "fome" e "vontade de comer" não se opõem — são a mesma coisa dita duas vezes.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar figuras de linguagem, pergunte-se: há oposição? (antítese), há repetição? (pleonasmo), há exagero? (hipérbole), há suavização? (eufemismo). A resposta certa é a que descreve exatamente o que o trecho faz.

Gabarito: letra B.

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