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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140664
Banca
FCC
Órgão
ALMS
Ano
2026
Cargo
TLegis ( )

A maneira mais comum de amolecer o coração dos que nos ofendem, quando, vingança em mãos, eles nos têm à sua mercê, é comovê-los pela nossa submissão, inspirando-lhes comiseração e piedade. Entretanto, reparem que a bravura, a tenacidade e a resolução, meios inteiramente opostos, alcançam às vezes idêntico resultado.

 

Eduardo, príncipe de Gales, tendo-se apoderado pela força de Limoges, ordenara o massacre dos habitantes que o haviam gravemente ofendido. Caminhava ele pela cidade sem que os gritos dos homens, mulheres e crianças assim condenados à morte lhe amolecessem a alma, quando deparou com três fidalgos franceses que, sozinhos, e com incrível ousadia, enfrentavam o exército vitorioso. Essa coragem inspirou-lhe tal consideração e respeito, que subitamente se lhe acalmou a cólera; e o perdão que de imediato concedeu aos temerários, ele o estendeu aos demais habitantes da cidade.

 

Skanderberg, príncipe do Épiro, perseguia um de seus soldados com a intenção de matá-lo. Este, depois de ter tentado em vão acalmá-lo com protestos de toda espécie e as mais humildes súplicas, resolveu, em desespero de causa, esperá-lo de espada na mão. O gesto resoluto freou instantaneamente a exasperação do senhor, o qual, ao ver tão honrosa atitude, outorgou perdão ao perseguido.

 

O imperador Conrado III, assediando o duque da Baviera, não consentira em deixar sair da cidade senão as mulheres dos fidalgos que ali se encontravam. Comprometera-se a respeitar-lhes a honra mas à condição de saírem a pé e levando apenas, com elas, o que pudessem carregar. Atentando unicamente para os ditames do coração, lembraram-se as mulheres de levar às costas os maridos, os filhos e o próprio duque. Impressionou-se o imperador a tal ponto com essa prova de coragem que chegou a chorar de emoção. O ódio mortal que votara ao duque, cuja desgraça desejava, tornou-se menos violento e a partir desse momento ele o tratou, e aos seus, com humanidade.

 

Ambos os meios dariam resultado comigo, pois tenho grande propensão para a misericórdia e a benevolência. Entretanto, acho que cederia mais facilmente pela compaixão do que pela admiração, embora a piedade seja considerada paixão condenável pelos estoicos, os quais admitem que socorramos os aflitos mas não que nos enterneçamos ante o sofrimento ou dele nos compadeçamos. Os exemplos que precedem parecem-me mais apropriados. Mostram-nos a alma em luta com estes dois sentimentos contrários: resistir a um sem dobrar e ceder ao outro.

 

(Adaptado de: Montaigne, Michel de. Ensaios. São Paulo: Editora 34, 2016, p.43-44)

Atenção: Para responder à questão, considere o trecho de um ensaio do filósofo Michel de Montaigne.

   

No parágrafo de seu ensaio, Montaigne desenvolve o seguinte argumento:

  1. AUma mesma linha de conduta leva necessariamente a fins distintos.
  2. BUma mesma linha de conduta leva necessariamente ao mesmo fim.
  3. CPor meio de condutas idênticas chega-se ao mesmo fim.
  4. DPor diversos meios pode-se chegar ao mesmo fim.
  5. EPor diversos meios chega-se necessariamente ao mesmo fim.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Por diversos meios pode-se chegar ao mesmo fim.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A tese de Montaigne: diversos meios, mesmo fim

Gabarito: letra D. No parágrafo, Montaigne defende que por diversos meios pode-se chegar ao mesmo fim — a tese é explicitada na abertura: a submissão (comiseração/piedade) e a bravura (tenacidade/resolução) são meios inteiramente opostos que alcançam às vezes idêntico resultado. A alternativa D é a única que capta essa relação sem acrescentar o advérbio "necessariamente", que o texto não sustenta.

O comando pede que você identifique o argumento desenvolvido no parágrafo — ou seja, a tese que o autor defende, não um detalhe dos exemplos. Em questões de compreensão, a resposta é uma paráfrase (reescritura fiel) do que está dito. Aqui, a tese está no primeiro período do texto, que funciona como introdução e anuncia o que os exemplos vão comprovar.

"A maneira mais comum de amolecer o coração dos que nos ofendem, quando, vingança em mãos, eles nos têm à sua mercê, é comovê-los pela nossa submissão, inspirando-lhes comiseração e piedade. Entretanto, reparem que a bravura, a tenacidade e a resolução, meios inteiramente opostos, alcançam às vezes idêntico resultado."

Observe a estrutura: o autor apresenta dois meios opostos (submissão × bravura) e afirma que ambos podem levar ao mesmo resultado (amolecer o coração do ofensor). Os três exemplos seguintes (Eduardo de Gales, Skanderberg e Conrado III) ilustram exatamente isso: em cada caso, uma conduta diferente — submissão, coragem, lealdade — produz o mesmo efeito de obter perdão ou clemência. A tese, portanto, é a pluralidade de meios para um mesmo fim.

A armadilha central está nas palavras "necessariamente" e "mesma linha de conduta". O texto diz que meios opostos alcançam "às vezes" idêntico resultado — ou seja, não há garantia de que sempre ocorra. As alternativas que inserem "necessariamente" (A, B, E) extrapolam o texto, transformando uma possibilidade em certeza. Já as que falam em "mesma linha de conduta" (A, B, C) contradizem a tese, pois o texto afirma justamente que os meios são opostos.

Tese de Montaigne
  • 1Meios opostos
    • Submissão (comiseração/piedade)
    • Bravura (tenacidade/resolução)
  • 2Resultado
    • Às vezes idêntico fim
  • 3Armadilhas
    • "Necessariamente" (extrapola)
    • "Mesma linha de conduta" (contradiz)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Uma mesma linha de conduta leva necessariamente a fins distintos."

Erro: contradiz o texto + extrapola. O texto afirma que meios opostos (não a mesma linha) alcançam o mesmo resultado. Além disso, "necessariamente" impõe uma relação de certeza que o texto não estabelece — ele diz "às vezes".

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Uma mesma linha de conduta leva necessariamente ao mesmo fim."

Erro: contradiz o texto + extrapola. O texto fala de meios diferentes (submissão × bravura), não de uma mesma conduta. E o "necessariamente" novamente força uma conclusão que o texto não autoriza.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Por meio de condutas idênticas chega-se ao mesmo fim."

Erro: contradiz o texto. A tese é exatamente o oposto: condutas diferentes (até opostas) podem chegar ao mesmo fim. A palavra "idênticas" inverte o sentido do texto.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Por diversos meios pode-se chegar ao mesmo fim."

Correta. Paráfrase fiel da tese: "a bravura, a tenacidade e a resolução, meios inteiramente opostos, alcançam às vezes idêntico resultado". A alternativa usa "diversos meios" (opostos) e "mesmo fim" (idêntico resultado), sem o advérbio "necessariamente", que o texto não contém. É a única que não extrapola nem contradiz.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Por diversos meios chega-se necessariamente ao mesmo fim."

Erro: extrapola. A alternativa repete a tese correta, mas acrescenta "necessariamente". O texto diz "às vezes", indicando possibilidade, não obrigatoriedade. Esse é o distrator clássico: paráfrase correta + palavra que muda o alcance.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a palavra "necessariamente" para transformar uma possibilidade em certeza. Sempre desconfie de advérbios absolutos (sempre, nunca, necessariamente) em alternativas de interpretação — confronte com o texto.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a tese, procure o primeiro período do parágrafo (introdução) e a conclusão. Os exemplos servem para ilustrar, não para definir a tese. Teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora?

Gabarito: letra D — a única que traduz com fidelidade a relação entre meios diversos e um mesmo fim, sem os exageros das demais.

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