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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140677
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ GO
Ano
2026
Cargo
AFRE GO

Para responder à questão, baseie-se no texto a seguir.

 

O devaneio é uma doença?

 

Cansada de sonhar de olhos abertos, uma leitora, Ana, quer saber mais sobre devaneios: “Por que acabo sempre fugindo para esse lugar fictício, onde tudo pode ser tão melhor ou pior, um mundo do que poderia ser, do que poderia ter sido, da pior hipótese fantástica, pretéritos imperfeitos, mais-que-perfeitos, futuros incertos – e quando vejo, perdi tanto tempo com isso?”

 

Tenho carinho pelos sonhos de olhos abertos. Até o começo da adolescência, o devaneio era meu aliado contra o que me parecia ser a mediocridade do mundo. Para mim, como para Ana, o devaneio era o país de onde eu vinha (minha origem escondida) ou minha pátria futura; de um jeito ou de outro, era meu passaporte para um outro mundo, que me salvaria de meu lugar e de meu presente.

 

Graças ao devaneio, assisti a centenas de aulas chatérrimas, aparentando minha absoluta atenção (embora de olhos um tanto vidrados). Quando atravessei a dolorosa época em que os adolescentes menosprezam os pais, o devaneio me consolou, alimentando a certeza de que eu, de fato, pertencia a outra família.

 

Enfim, à força de contar histórias para mim mesmo, aprendi a contá-las para os outros. O que fez com que aos poucos meu devaneio se acalmasse – por sorte, sem se exaurir. Será que eu amadureci? Ou será que as aulas, o trabalho e os amores se tornaram interessantes, e a necessidade de sonhar diminuiu? Na hora de explicar o excesso de devaneio, o adolescente tende a acusar a realidade na qual vive, a qual mereceria o enfado que ela lhe inspira. Mas, em geral, não há realidade enfadonha, apenas indivíduos enfadados, que, por alguma razão, não enxergam o encanto possível do dia a dia.

 

Ao devanear, eu me afasto da realidade. Por outro lado, sem devanear mal consigo inventar e desejar realidades diferentes. O que é pior? Entre renunciar a devanear e sucumbir ao devaneio, talvez seja pior renunciar a devanear. Infelizmente, enquanto a gente sonha sossegado, alguns se esforçam para transformar o devaneio num transtorno, senão numa doença. No fundo, nada disso me estranha. Desde o século 19 as regras para uma vida saudável (física e psíquica) são nossa nova moral. E esse ataque contra o devaneio era previsível: qualquer forma de poder prefere limitar os sonhos de seus sujeitos.

 

(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Aproveite a vida e suas dores. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, p. 147-150, passim)

No último parágrafo, o autor admite que
  1. Aa condenação social do devaneio é, infelizmente, a única alternativa para evitar as ilusórias vantagens da imaginação.
  2. Bé estranho haver quem considere a realidade um transtorno do qual só se pode escapar por meio dos devaneios.
  3. Ca possibilidade de devanear, vista por alguns como um transtorno mental, é preferível à renúncia de inventarmos nossos sonhos.
  4. Do século XIX alimentou a crença de que os devaneios não poderiam ser vistos como limitações da nossa subjetividade.
  5. Eé o afastamento mesmo da realidade que leva um sonhador a negar-se a si mesmo como um sujeito autêntico.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — a possibilidade de devanear, vista por alguns como um transtorno mental, é preferível à renúncia de inventarmos nossos sonhos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O devaneio como escolha preferível à renúncia

Gabarito: letra C. No último parágrafo, o autor admite que, entre renunciar a devanear e sucumbir ao devaneio, é preferível devanear, ainda que alguns queiram transformá-lo em transtorno ou doença. A passagem que ancora essa leitura é: "Entre renunciar a devanear e sucumbir ao devaneio, talvez seja pior renunciar a devanear." A alternativa C parafraseia exatamente essa ideia: a possibilidade de devanear, mesmo vista por alguns como transtorno, é preferível à renúncia de inventarmos nossos sonhos.

O comando pede que você identifique o que o autor admite no último parágrafo — ou seja, uma inferência ancorada no que está escrito, não uma informação literalmente copiada. A banca quer que você perceba a posição valorativa do autor diante do devaneio: ele não o condena, ao contrário, defende-o como algo necessário para inventar e desejar realidades diferentes.

No último parágrafo, o autor faz um movimento argumentativo claro: reconhece que o devaneio o afasta da realidade, mas pondera que, sem ele, mal consegue inventar e desejar realidades diferentes. Em seguida, estabelece uma comparação: "Entre renunciar a devanear e sucumbir ao devaneio, talvez seja pior renunciar a devanear." Essa frase é a chave da questão — ela expressa uma preferência pela manutenção do devaneio, mesmo diante da crítica social que o transforma em doença.

A técnica para resolver: sublinhe os conectivos e expressões de comparação ("entre... e...", "talvez seja pior") e identifique o termo preferido pelo autor. Aqui, o autor claramente prefere devanear a renunciar. As alternativas incorretas ou extrapolam (acrescentam ideias que o texto não diz) ou contradizem o texto (invertem a posição do autor).

PEGA ESSA DICA!

Em questões de "o autor admite", procure a tese do parágrafo — geralmente expressa em uma frase de comparação ou conclusão. Grife os conectivos que indicam preferência ("pior", "melhor", "prefiro") e veja qual termo o autor escolhe.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a condenação social do devaneio é "a única alternativa para evitar as ilusórias vantagens da imaginação". O texto não diz isso. O autor apenas menciona que "alguns se esforçam para transformar o devaneio num transtorno, senão numa doença", mas não defende essa condenação como única saída. Pelo contrário, ele a critica: "qualquer forma de poder prefere limitar os sonhos de seus sujeitos". A alternativa extrapola ao transformar uma crítica em defesa e ao usar o absoluto "única".

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que "é estranho haver quem considere a realidade um transtorno". O texto afirma o oposto: "No fundo, nada disso me estranha" — ou seja, o autor não acha estranho que ataquem o devaneio. Além disso, a alternativa troca o objeto: não é a realidade que é considerada transtorno, mas o devaneio. Há uma troca de conceito e uma contradição com o texto.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa parafraseia fielmente a passagem central do último parágrafo: "Entre renunciar a devanear e sucumbir ao devaneio, talvez seja pior renunciar a devanear." O autor admite que, mesmo que alguns vejam o devaneio como transtorno, é preferível devanear a renunciar à capacidade de inventar sonhos. A alternativa capta a preferência do autor e a ressalva de que isso é visto como transtorno por alguns.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o século XIX alimentou a crença de que os devaneios não poderiam ser vistos como limitações. O texto diz o contrário: "Desde o século 19 as regras para uma vida saudável (física e psíquica) são nossa nova moral" — ou seja, o século XIX reforçou a ideia de que desvios como o devaneio são problemas. A alternativa contradiz o texto ao inverter a relação.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o afastamento da realidade leva o sonhador a "negar-se a si mesmo como um sujeito autêntico". O texto não menciona essa consequência. O autor apenas diz que o devaneio o afasta da realidade, mas também que sem ele não consegue inventar realidades diferentes. Não há qualquer ideia de negação do sujeito. A alternativa extrapola ao acrescentar um conceito psicológico que não está no texto.

Conclusão: A única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a C, pois reproduz a preferência explícita do autor por devanear, mesmo diante da crítica social. As demais ou extrapolam, ou contradizem, ou trocam conceitos. Lembre-se: a resposta mora no texto — teste cada alternativa perguntando "o texto autoriza isto?"

Gabarito: letra C

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